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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Há anos que a mão do catolicismo romano, do catolicismo do Syllabus, se estende lentamente sobre a Inglaterra, para se apossar dela. Como um vírus venenoso que lenta e obscuramente se espalhe nas veias e nos tecidos de um corpo são – o espírito ultramontano penetra surdamente toda a Inglaterra.

Em todas as igrejas, em todos os ritos, se sente esta lenta absorção. A evolução começa lentamente sempre pela decoração das igrejas e pela cerimónia do culto: a antiga nudez severa dos templos protestantes considera-se excessivamente fria e tendente a arrefecer o zelo e a assiduidade; por isso, pensa-se que as flores, a música, os cantos, as armações, deveriam ser introduzidas como um meio de atracção e como um acréscimo de adoração: os padres, então, imaginam que o roupão branco, que é a vestimenta protestante, é de uma simplicidade muito secular e principiam a cobrir-se de vestimentas complicadas e simbólicas do culto romano. Imediatamente as cerimónias simples e severas do protestantismo começam a ser sobrecarregadas com o aparatoso cerimonial da celebração católica; depois vem-se exigir aos fiéis uma atitude diferente: as genuflexões, as pancadas no peito e o rosário tornamse obrigatórios; daí vêm certas celebrações em comum muito semelhantes às novenas, aos meses de Maria. Logo exige-se a confissão secreta, a penitência; formam-se sociedades de adorações, e pouco a pouco, por este processo, cada templo protestante se vai convertendo numa igreja católica. Debalde a Igreja oficial protesta, condena, grita.

A conversão vai-se fazendo lentamente mas seguramente. As mulheres, sobretudo, são a grande alma do movimento: a inglesa é sensível, exaltada, voluptuosa, e bem depressa encontra na nova cerimónia à romana um encanto, uma ternura, uma poesia, que não lhe dão a seca prédica protestante, numa casa nua e alumiada a gás. Por isso, tantas mulheres se convertem. Além disso, na alta sociedade, ser católico começa a ser elegante.

As grandes famílias aristocráticas de Inglaterra, Norfolk, Ripon, Bute, são católicas e, para serem recebidos nos seus círculos íntimos, os ambiciosos da sociedade não têm dúvida em se converter. Mas este movimento, ao menos até aqui, tem sido tímido, oculto, e acanhado: o Priest in Absolution é a sua primeira exposição pública; é uma espécie de grito místico lançado pela seita: «Comecemos pelas mulheres e a sociedade é nossa!» Toda a Inglaterra protestante e sensata tremeu de furor: a opinião geral é que para os jesuítas não se deve empregar o argumento, mas a força. O Punch, como crítica do livro, apresenta a forte figura simbólica de John Bull agarrando o jesuíta pelas orelhas, arrastando-o para longe para o sovar à vontade! Os jornais têm visos de cólera. Tem havido interpelações ao Governo sobre a publicação do livro – e todo este barulho tem lançado uma grande luz sobre a sociedade católica que o publicou e que se chama Sociedade da Santa Cruz.

Eu estou habilitado a dizer-lhes quais são os estatutos desta sociedade, pois que li __fragmentos, e verão por eles qual é o espírito dela e o seu objecto. A sociedade foi formada há doze anos e compõe-se de bispos, vigários, diáconos e todos os que se preparam para as ordens santas. Pela regra dos estatutos, cada membro é obrigado a confessar-se todas as vezes que julgue a consciência sobrecarregada; fazer um retiro todos os anos; benzer tudo o que comer; nunca se levantar mais tarde que as sete e meia da manhã; nunca comer com prazer, mas só com necessidade; vestir com pobreza; não ir a teatros nem bailes, nem concertos, nem outros lugares de escândalo; nem falar mal de ninguém, a não ser quando isto for um dever (!); evitar as conversações frívolas e a sociedade das mulheres; nunca encarar com o rosto ou com o corpo das mulheres (!)..., etc., etc.

Vêem por estas recomendações o espírito geral da sociedade, e o que ela queria fazer da Inglaterra, se a sua influência penetrasse o povo; e é realmente inaudito que uma seita queira converter o país mais sensato, mais liberal, mais moderno, mais activo – numa espécie de Espanha devota e lúgubre do tempo de Fernando VII! Diz-se que diante da condenação geral que a opinião deu ao livro, a Sociedade da Santa Cruz o vai retirar da circulação e de certo modo renegá-lo. Isto não desculpa o espírito da sociedade e aumenta-lhe o descrédito porque lhe revela a hipocrisia.

(continua...)

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