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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

E no Outubro seguinte, por uma fusca manhã de chuva que as lagrimas da mãe fizeram parecer a Arthur ainda mais triste, foi o pae leval-o a Coimbra, preciosamente. Com muita economia, installou-o na casa das Barbosas, da rua da Mathematica, e deixou-o recommendado ao filho d'um seu velho amigo, o Theodosio Margarido, valentão de grandes bigodes, terrivel aos caloiros, grande matador de gatos, que usava uma móca enorme e frequentava o terceiro anuo de Direito.

Todo aquelle primeiro anno em Coimbra foi triste, tomado pelo estudo da Geometria, de formuIas positivas que lhe eram antipathicas, dominado pelo pavor incessante de troças e de graus. Ao toque da cabra, recolhia pontualmente aos seus compendios, obedecendo áquella sineta melancolica como quem obedece a um dictame de moral ; as unicas horas felizes d'essa epocha, passou-as extasiando-se com os luares do Penedo da Saudade, onde ia ás vezes sob a protecção de Theodosio, armado da sua temerosa clava, ou, sobretudo, nas vesperas de feriado, no Trony, á sombra sempre de Theodosio, onde admirava os bilharistas famosos da Academia, fazendo sob a luz dura do gaz effeitos de carambolas. Mas depois do seu exame, voltou a Ovar, vaidoso da sua batina e de pertencer á Briosa, com penetrado da importancia social da Academia, dos seus privilegios e do seu Hymno, odiando já o futrica, tremendo deante do lente, sonhando futuros artigos na Idéa ou no Instituto e já preso a Coimbra por uma affeição sentimental, que abrangia a paisagem elegiaca do Mondego, o cavaco, a batina e a independencia alegre da vida escolastica. Trazia além d'isso um drama quasi concluido, o Conde d'Além-Mar, cujo segundo acto, que julgava subli me, era uma festa á moda da Renascença florentina, passada n'um vago palacio junto ao Tejo, onde se bebia vinho de Syracusa, havia sicarios mascarados e no rio, ao fundo, passavam gondolas, em que o contralto das mulheres se casava ao gemido dos oboés,

No anno seguinte, Theodosio que se affeiçoara á natureza obediente d'Arthur e queria « ter o seu caloiro á mão arranjou-lhe um quarto na casa em que vivia, na Couraça, Foi uma aventura, um enthusiasmo para Arthur, que conhecia de tradicão e admirava de longe os companheiros de casa de Theodosio — rapazes extremamente litterarios, redactores ardentes do jornalzinho o Pensamento.

Esta pequena Revista semanal fôra origin.ariamente fundada n'um alto espirito de fraternidade moça, para crear recursos ao Taveira, rapaz extremamente pobre e o grande Iyrico do grupo, Ultimamente era dirigida porém pelo Damião, o illustre Damião, que, tendo levado um R, repetia alegremente o seu quarto anno ; e apenas o Pensamento ganhara credito n'aquella geração, tinham-se precipitado para elle, como espiritos suffocados pelo anonymato para um respiradouro de publicidade, não só todos os amigos de Damião, que se nutriam de Michelet e de Quinet, mas tambem aquelles que ainda admiravam Pelletan, e até o grupo do Cesario, que, n'um progresso revolucionario e scientifico, já devorava Proudhon, Comte, Littré, Stuart Mill e Spencer — sem contar os temperamentos puramente artistas, que tendo horror á abstracção philosophica e aos enthusiasmos da Paixão, se retardavam na admiração de Hugo, de Musset, de Vigny e de Byron.

A esta vaga associação de fanatismos, chamavam, em Coimbra, os Philosophos, ou tambem os Atheus. Elles mesmos se denominavam o Cenacub. E ainda que não havia sessões regularmente organisadas, quasi. todas as noites se jun.tavam no largo quarto do na Couraça. E Arthur sentiu os olhos humedecerem-se-lhe d'enthusiasmo quando pela primeira vez, na fumarada dos cigarros, onde os tres bicos do candieiro de latão punham tres luzinhas sedentarias, ouviu vozes fanaticas discutirem, em estylo d'ode, a Arte, as Religiões, o Pantheismo, o Positivismo, a estupidez dos lentes, o Ser, o Ramayana, o Messianismo germanico, a Revolução de 89, Mozart e o Absoluto.

N 'aquella « cavaqueira philosophica I), só o forte Theodosio se conservava mudo, assombrado das idéas, como deante das portas augustas e inaccessiveis d'um sanctuario. Mas a sua presença athletica era querida de todo o Cenaculo : além de excellente rapaz, sempre com dez tostões no bolso para partilhar com um condiscipulo pobre, elle tinha urna admiração servil por todos aquelles « geIlios Ao lado de taes espiritos, exclusivamente occupados da Idéa, elle punha a protecção formidavel dos seus musculos e da sua móca. Uma noite que o Ccnacuto discutia furiosamente Luthero e a Reforma, sentiram-se ao fundo da escada os gritos do filho da servente, espancado por futricas. Todos se ergueram para acudir. Então Theodosio trovejou, alçando a mãe :

Ninguem se mexa ! Continue-se a bella discussão ! Aqui na casa, para a bordoada, só eu !

Desceu com a immensa móca e d'ahi a pouco, na rua, era uma debandada afflicta de futricas desbaratados.



(continua...)

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