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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

O seu vasto corpo crescera ainda, e a sua grenha ruiva ia mais alta que a mais alta das árvores; lento nos movimentos, cada um dos seus passos parecia despregarse do chão, com dificuldade; todo ele cheirava a torrão e a arvoredo; uma barba ruiva, como um capim queimado, cobria-lhe a face: e os seus olhos azuis conservavam, como os de uma criança, um espanto perpétuo.

Ao chegar junto da fonte baixou a cabeça, bebeu com lentidão; depois, limpando os beiços, olhava, com um bom sorriso, as mulheres, que já sem medo, reconhecendo o filho do lenhador, se juntavam em torno dele, tocando-lhe com as toucas altas pelo joelho, e erguendo os olhos pasmados para as alturas de sua face.

Obtuso de espírito, ele não reconhecia ninguém – mas sorria sempre. Pouco a pouco, porém, na grande penumbra do seu espírito, decerto surgiram certas memórias dos tempos, que, ainda, pequeno, era o servo da aldeia, e os seus enormes braços moveram-se com lentidão como procurando de novo fardos a levantar, fraquezas a socorrer. E quase imediatamente, vendo uma velha que passava, vergada sob o molho de lenha, tirou-lho e meteu-o, como uma simples acha, sob o braço; depois como um carro de pedra passava, tão pesado que os bois não o podiam puxar, desatrelou o gado, tomou o timão. Mas avistando ainda o moleiro, que picava o seu velho burro carregado de sacos de farinha, com os seus cinco enormes dedos ergueu os fardos do jumento; atirou ainda para os ombros um pobre velho, manco, que mal se arrastava – e assim, com o molho de lenha debaixo do braço, o velho pendurado do pescoço, os sacos pendentes da mão, o pesado carro de pedra preso pelo outro braço, começou a caminhar para a aldeia, seguido das mulheres, que acenavam para o lado, para as portas dos casais, e gritavam” “É Cristóvão! É Cristóvão!”

Despojado dos fardos, foi-se sentar no cruzeiro – e a sua cabeça chegava ao seios de Jesus crucificado, e parecia repousar sobre ele. No entanto, de toda a aldeia, gente corria a ver Cristóvão. Os homens vinham da taberna, limpando à pressa os beiços; as mulheres vinham fiando, outras trazendo ainda na mão as hortaliças dos caldos. As crianças, ao princípio assustadas, vendo que ele lhes estendia a mão, com um bom riso, saltavam-lhe para cima da palma, e ficavam de lá rindo e acenando com os barretes, como do alto de um eirado. O regedor das terras veio por fim diante de Cristóvão rolando os olhos redondos, coçando o queixo, e falando baixo ao arqueiro que o seguia, desconfiado decerto daqueles fortes músculos, que podiam arrasar a aldeia, tudo roubar, e vencer os arqueiros; mas decerto todas as suas algemas não eram bastante fortes para algemar aqueles enormes pulsos, por onde as crianças trepavam, como por troncos de olmeiros: e afastou-se com dignidade, coçando sempre o queixo agudo. Mas duas mulas zurravam, por trás do caminho – e apareceram dois guardiões do convento, que, decerto avisados, desviavam-se do caminho para ver o enorme gigante. Todas as mulheres dobraram os joelhos, e os homens, com os barretes na mão, baixavam os olhos: - e então o mais velho espicaçou a mula com os calcanhares até a fazer parar junto de Cristóvão. Para experimentar, com receio que em tão grande corpo habitasse Satanás, fez o sinal da cruz, murmurou três vezes o nome de Jesus. Cristóvão fez também uma cruz sobre a testa. Então, tranqüilo, o guardião começou a nadar em volta dele, batendo os calcanhares nos ilhais da mula, para o, examinar, como um monumento. E a cada grosso músculo, a cada detalhe de força, uma idéia surgia nele: e falava baixo ao outro, que aprovava, com um sorriso reverente. Por fim o guardião gritou: “Cristóvão, se queres ganhar o teu pão, vai amanhã, a matinas, à portaria do convento.”

Os dois frades picaram as mulas, pouco a pouco a gente recolhera ás casas, de onde saía o fumo das lareiras acesas. Uma a uma, as estrelas brilhavam. E Cristóvão só, cansado, estirou-se junto ao cruzeiro, onde o sacristão veio acender uma lâmpada.

Estirado de costas, Cristóvão olhava as estrelas. Eram as mesmas que ele tantas vezes contemplava na serra: - mas pareciam-lhe mais brilhantes, mais próximas, e derramando uma calor como lâmpadas que alumiam uma morada humana. E ele mesmo, enfim, sentia vir daqueles casebres que em volta se acendiam e mandavam o seu fumo para o céu, um calor que o penetrava até o coração. Adormeceu sorrindo.

De manhã, chegou do outro lado do vale, em frente do mosteiro. Uma muralha envolvia-o como a um castelo: - e por trás da porta, de grossa pregaria, os cães inquietos agitavam as cadeias de ferro. No pátio enorme uma faia abrigava a roldana de um poço. Altas fachadas com reixas nas janelas, erguiam-se em redor: - e ao fundo, junto à entrada da capela, havia um banco de pedra onde um guardião lia o breviário.



(continua...)

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