Por Eça de Queirós (1875)
- Isso, isso! murmurou arrastadamente o ministro, cuspindo películas mascadas de charuto.
- Mas descer às intrigas, continuou o conde devagar, aos imbróglios... Perdoe-me meu caro amigo, mas não é dum cristão.
- Pois sou-o, senhor conde, exclamou o homem das suíças soberbas. Sou-o a valer! Mas também sou liberal. E entendo que no governo representativo... Sim, digo eu... com as garantias mais sólidas...
- Olhe, interrompeu o conde, sabe o que isso faz? desacredita o clero, e desacredita a política.
- Mas são ou não as maiorias um princípio sagrado? gritava rubro o das suíças, acentuando o adjetivo.
- São um principio respeitável.
- Upa! upa, excelentíssimo senhor! Upa !
O padre Amaro escutava, imóvel.
- Minha mulher há-de querer vê-lo, disse-lhe então o conde. E dirigindo-se a um reposteiro que levantou: - Entre. É o Sr. padre Amaro, Joana!
Era uma sala forrada de papel branco acetinado, com móveis estofados de casimira clara. Nos vãos das janelas, entre as cortinas de pregas largas duma fazenda adamascada cor de leite, apanhadas quase junto do chão por faixas de seda, arbustos delgados, sem flor, erguiam em vasos brancos a sua folhagem fina. Uma meia-luz fresca dava a todas aquelas alvuras um tom delicado de nuvem. Nas costas duma cadeira uma arara empoleirada, firme num só pé negro, coçava vagarosamente, com contrações aduncas, a sua cabeça verde. Amaro, embaraçado, curvou-se logo para um canto do sofá, onde viu os cabelinhos louros e frisados da senhora condessa que lhe enchiam vaporosamente a testa, e os aros de ouro da sua luneta reluzindo. Um rapaz gordo, de face rechonchuda, sentado diante dela numa cadeira baixa, com os cotovelos sobre os joelhos abertos, ocupava- se em balançar, como um pêndulo, um pincenez de tartaruga. A condessa tinha no regaço uma cadelinha, e com a sua mão seca e fina cheia de veias, acamava-lhe o pêlo branco como algodão.
- Como está, Sr. Amaro? - A cadela rosnou. - Quieta, Jóia. Sabe que já falei no seu negócio?
Quieta, Jóia... O ministro está ali.
- Sim, minha senhora, disse Amaro, de pé.
- Sente-se aqui, Sr. padre Amaro.
Amaro pousou-se à beira dum fauteuil, com o seu guarda-sol na mão, - e reparou então numa senhora alta que estava de pé, junto do piano, falando com um rapaz louro.
- Que tem feito estes dias, Amaro? disse a condessa. Diga-me uma coisa: sua irmã?
- Está em Coimbra, casou.
- Ah! casou! disse a condessa, fazendo girar os seus anéis.
Houve um silêncio. Amaro, de olhos baixos, passava, com um gesto embaraçado e errante, os dedos pelos beiços.
- O Sr. padre Liset está para fora? perguntou.
- Está em Nantes. Tinha uma irmã a morrer, disse a condessa. - Está o mesmo sempre: muito amável, muito doce. É a alma mais virtuosa!...
- Eu prefiro o padre Félix, disse o rapaz gordo, estirando as pemas.
- Não diga isso, primo! Jesus, brada aos Céus! Pois então, o padre Liset, tão respeitável!... E depois outras maneiras de dizer as coisas, com uma bondade... Vê-se que é um coração delicado... ' - Pois sim, mas o padre Félix...
- Ai, nem diga isso! Que o padre Félix é uma pessoa de muita virtude, decerto; mas o padre Liset tem uma religião mais... - e com um gesto delicado procurava a palavra: - mais fina, mais distinta...
Enfim, vive com outra gente. - E sorrindo para Amaro: - Pois não acha?
Amaro não conhecia o padre Félix, não se recordava do padre Liset.
- Já é velho o Sr. padre Liset, observou ao acaso.
- Crê? disse a condessa. Mas muito bem conservado! E que vivacidade, que entusiasmo!... Ai, é outra coisa! - E voltando-se para a senhora que estava junto do piano: - Pois não achas, Teresa?
- Já vou, respondeu Teresa, toda absorvida.
Amaro afirmou-se então nela. Pareceu-lhe uma rainha, ou uma deusa, com a sua alta e forte estatura, uma linha de ombros e de seio magnífica; os cabelos pretos um pouco ondeados destacavam sobre a palidez do rosto aquilino semelhante ao perfil dominador de Maria Antonieta; o seu vestido preto, de mangas curtas e decote quadrado, quebrava, com as pregas da cauda muito longa toda adornada de rendas negras, o tom monótono das alvuras da sala; o colo, os braços estavam cobertos por uma gaze preta, que fazia aparecer através da brancura da carne; e sentia-se nas suas formas a firmeza dos mármores antigos, com o calor dum sangue rico.
Falava baixo, sorrindo, numa língua áspera que Amaro não compreendia, cerrando e abrindo o seu leque preto - e o rapaz louro, bonito, escutava-a retorcendo a ponta de um bigode fino, com um quadrado de vidro entalado no olho.
- Havia muita devoção na sua paróquia, Sr. Amaro? perguntava, no entanto, a condessa.
- Muita, muito boa gente.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.