Por Camilo Castelo Branco (1889)
Vasco amava Laura !! Eu pus dois pontos de admiração, mas acredita que foi uma urgência retórica, uma composição artística, que me obrigou a admirar-me, escrevendo, de coisas que me não admiram, pensando.
Que é o que levou tão depressa este homem a aborrecer-me, pobre mulher, que desprezei o mundo, e me desprezei a mim própria para satisfazer-lhe o capricho de alguns meses ? Foi uma miséria que ainda hoje me envergonha, suposto que esta vergonha devesse ser um reflexo das faces dele… Vasco amava a filha do visconde do Prado, a Laura de alguns meses antes, porque a Elisa de hoje era a herdeira de não sei quantos centos de contos de réis.
Devo envergonhar-me de ter amado este homem, não é verdade, Carlos ? Não devo sofrer um instante a perda de um miserável, que eu vejo daqui com uma grilheta de ouro algemada a uma perna, tapando em vão os ouvidos para não ouvirlhe o ruído… a sentença do forçado que o segue até ao fim de uma existência farta de opróbrio, e célebre de infâmias !
E não sofro, Carlos ! Tenho aqui no seio uma úlcera que não tem cura… Choro, porque é intensa a dor que ela me causa… Mas, olha, não tenho lágrimas que não sejam remorsos… Não tenho remorsos que não sejam picados pela afronta que fiz a minha mãe, e a meu irmão… Não me dói o meu próprio aviltamento, não ! Se em minha alma cabe algum entusiasmo, algum desejo, é o entusiasmo da penitência, é o desejo de torturar-me…
Fugi tanto da história, meu Deus !… Desculpa estes desvios, meu paciente amigo !… Eu queria correr muito sobre o que falta, e hei-de consegui-lo, porque não posso parar, e temo de me converter em estátua, como a mulher de Loth, quando olho com atenção para o meu passado…
O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu genro. Vasco não sei como recebeu o convite ; o que eu sei é que os vínculos destas relações estreitaram-se muito, e Elisa, desde esse dia, expandiu-se comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas. Estas intimidades eram o prólogo de outra que tu avaliarás. Foi ela a própria que me disse que esperava ainda poder chamar-me irmã ! Isto é uma atrocidade sublime, Carlos ! Diante dessa dor calam-se todas as agonias possíveis ! O insulto não podia ser mais despedaçador ! O punhal não podia entrar mais dentro no virtuoso coração da pobre amante de Vasco de Seabra !… Agora, sim, que eu quero a tua admiração, meu amigo ! Tenho direito à tua compaixão, se não podes estremecer de entusiasmo diante do heroísmo de uma mártir ! Ouvi este anúncio dilacerante !… Senti fugir-me o entendimento… Aquela mulher sufocou-me a voz na garganta… Horrorizei-me não sei se dela, se dele, se de mim… Nem uma lágrima !… Acreditei-me doida… Senti-me estúpida daquele idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos vêem nos lábios um sorriso de imbecilidade…
Elisa parece que recuou aterrada da expressão da minha fisionomia… Fezme não sei que perguntas… Não me lembro mesmo se aquela mulher permaneceu diante de mim… Basta !… Não posso prolongar esta situação…
Na tarde desse mesmo dia, chamei uma criada da hospedaria. Pedi-lhe que me vendesse algumas jóias de pouco valor que eu possuía ; eram minhas ; minhas não… Eram um roubo que eu fiz a minha mãe.
Na manhã do dia seguinte, quando Vasco, depois do almoço, visitava o visconde do Prado, escrevi estas linhas :
“Vasco de Seabra não pode gloriar-se de ter desonrado Henriqueta de Lencastre. Esta mulher sentia-se digna de uma coroa de virgem, virgem do coração, virgem na sua honra, quando abandonava um vilão, que não pôde infectar da sua infâmia o coração da mulher que arrastou ao abismo da sua lama, sem lhe salpicar a cara. Foi a Providência que a salvou !”
Deixei este escrito sobre as luvas de Vasco, e fui à estação dos caminhos de ferro.
Dois dias depois entrava um paquete.
Ao ver a minha pátria, cobri o rosto com as mãos, e chorei… Era a vergonha e o remorso. Diante do Porto senti uma inspiração do céu. Saltei numa catraia, e pouco depois achava-me nesta terra, sem um conhecimento, sem o apoio e sem subsistência para muitos dias.
Entrei em casa de uma modista, e pedi obra. Não ma negou. Aluguei uma água-furtada, onde trabalho há quatro anos ; onde, há quatro anos, comprimo bem aos rins, segundo a linguagem antiga, os cilícios do meu remorso.
Minha mãe e meu irmão vivem. Julgam-me morta, e eu peço a Deus que não haja um indício da minha vida. Sê-me tu fiel, meu generoso amigo, não me denuncies, pela tua honra e pela sorte de tuas irmãs.
Tu sabes o resto. Ouviste, no teatro, Elisa. Foi ela a que me disse que o seu marido a abandonara, chamando-lhe Laura. Aquela está punida…
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.