Por Camilo Castelo Branco (1862)
No dia imediato fui, purpureado de cândido pejo, passar em Benfica. Este pejo é o meu elogio. Um verdadeiro amor é segunda inocência. Tal máxima, que eu atiro à circulação, deve ser a defesa de muitas senhoras de certa idade e de certos costumes, que respondem com imprevistas esquivanças às audácias de amantes, que as assediam com ares de César, cuidando que chegar, ver e vencer é tudo o mesmo. O mundo chama matreiras a essas damas; e eu, que sei mais do coração humano que o trivial, digo e juro que é uma segunda inocência com os adoráveis sustos do pudor, que as torna esquivas. Eu tenho encontrado muito disto em peitos antigos. Se eu pudesse transfundir em corpos tenros os corações sensíveis que tenho conquistado em senhoras duma idade anticanônica, a felicidade não seria a sede de Tântalo. O meu erro tem sido procurar a alma amante e sisuda na mulher dos vinte anos e a formosura e a graça na de cinqüenta. A primeira é um sinal que todos me cobiçam; a segunda é um bem que ninguém me questiona. Não me serve nenhuma, por isso.
Voltando ao conto:
D. Paula de Albuquerque viu-me através das vidraças e gesticulou entre as fitas algumas das flores da grinalda. Jubilei doidamente no secreto do meu coração e compreendi o porquê de chamarem aos poetas antigos videntes, que soa como profetas. Abençoei a Primavera, meu livro de alma, e a inspirada voz do vate, que me ensinara o filtro amoroso dos
Festões, grinaldas, passarinhos, frutos.
O periquito estava na sua gaiola bem pudera prender a atenção da posteridade como o decanato passarinho da Lésbia, do poeta romano. Se eu publicasse as poesias, que dedilhei no plectro, com referência ao periquito, o meu volume seria como um tratado ornitológico, em que os fenômenos dos amores das aves iriam desvendados discretamente aos olhos da juventude.
Estas delongas estão afligindo a curiosidade de quem me ler. Entro em matéria.
Paula respondeu, agradecendo a ave querida, as flores e a surpresa: só não mencionava os pêssegos, salvo se a surpresa eram os pêssegos.
Ateou-se a correspondência, e tão fervorosa de paixão, de parte a parte, que tarde voltarão a este globo degenerado duas pessoas com tanto amor e estilo ao que parecia.
Este amor tinha assumido as dimensões honestas do matrimónio; mas semelhante palavra não ousava escrevê-la o meu pulso plebeu. Tive então ódio a meus avós, que viveram estupidamente lavradores honrados, citando com inofensiva soberba a consideração que lhes dera o Senhor Rei D. Dinis. Nem um hábito de Cristo na minha família! Nem sequer na invasão do Junot eu tive um parente que matasse dois franceses, ao menos, e fosse depois ao Rio de Janeiro pedir um hábito de Cristo ao Senhor D. João VI, que dava dez hábitos à família que matasse dez franceses! Meu pai tinha tido a imoralidade de dar de comer e pensar as feridas a alguns soldados de Napoleão que lhe pediram abrigo! Nem sequer os deixou morrer!
Lembrei-me de arranjar uma comenda de Cristo, por me dizerem que era isso mais fácil do que descobrir quem a quisesse com direitos de mercê. Andava eu na bem agourada solicitação desta graça, quando a minha desfortuna me pôs à prova de novas decepções.
Se medito no mau desfecho deste episódio da minha vida, caio sempre na triste opinião de que D. Paula caçoou comigo.
É o caso que, indo eu uma vez a Benfica, não para vê-la, que muito alta ia a noite, mas para adorar o santuário em que ela a essas horas, devia estar sonhando com a minha imagem, vi encostado à parede fronteira de sua casa um vulto rebuçado, rebuçado amargo ao meu suspeitoso coração! (comprazo-me de ter feito destes dois rebuçados uma elegância de estilo, que é minha, e, se alguma idêntica aparecer, sem a minha rubrica, será tida como furto, e os falsificadores serão perseguidos na conformidade das leis).
Perpassei pelo vulto humano e, lá ao longe, descavalguei, prendi as rédeas e retrocedi sutilmente a espreitar o escândalo, se escândalo era. Se era, leitores pios!...
O sino do mosteiro dominicano respirava pelos seus pulmões de bronze duas horas da manhã, quando uma janela do palacete se abriu com leve rumor, e a lua, sem velar de puro pejo a face, alumiou aos meus olhos o rosto de Paula.
O encapotado avizinhou-se da gradaria e ciciou palavras que eu não pude ouvir, porque as minhas orelhas estavam sendo como vestíbulos do inferno que me ia lá dentro na alma.
Este incomportável suplício durou uma hora, ao fim da qual era eu já um assassino programático daquele homem, que viera atravessar-se ao meu amor feroz de tigre.
“Oh!”, exclamava eu no recôndito das arcadas do peito. “Oh!, para que vieste tu, desgraçado, assanhar a ira do homem que tem sede do teu sangue e fome das tuas carnes! Que demônio te lançou ao meu caminho, se eu hei de pôr-te um pé no peito e sacudir-te de lá o coração à cara da perjura! Não tens velha mãe que te chore, nem pai velho, que em teus braços se ampare à borda do sepulcro? Não sabias que os teus dias estão contados, e que a autora de amanhã te verá a face morta, e que, na tua fronte, e com teu sangue escrita, o mundo lerá a tremenda palavra: ‘Vingança’? Oh!, tu não sabias que Paula era minha, minha como tu já agora és dos vermes, como nós três, ela, eu, e tu, todos, ai!, todos seremos do Inferno!”
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.