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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Relumbravam no alvor das faces de Teodora olhos negros, não vivos, antes mórbidos, como se a queda das longas pálpebras, iriadas de veias azuladas, lhes vedasse o raio de luz em cheio que rebrilha, aquece, e regira os globos visuais. Do nariz diremos que, nesta feição, a mais rebelde aos desvelos da natureza, tão extremada se mostrara ela, que bastante lhe fora aquela perfeição para desmentir os que a taxam de desprimorosa. Em lábios, não sei se me valha das figuras antigas - rosas e corais, romãs e carmim -, se me avenha com esta verdade pronta e fluentíssima que de um traço copia como o pincel e de uma frase exprime tudo, como em frases de Castilho: "era um ósculo perpétuo de inocência". Como isto sai bem na música da expressão; e que belo seria o mundo se as bocas formosas estivessem sempre absorvidas no ósculo perpétuo da inocência! Ó Teodora, se tu então morresses, o teu rosto, trasladado em marfim, ainda agora nos seria a imagem dos lábios nunca despregados do beijo de algum anjo, ressabiado ainda da voluptuosidade dos anjos mal-aviados com o candor celestial. Mas tu cresceste, e deformaste-te, à crisálida! A tua essência do Céu vaporou para lá no alar-se de alguma virgem, irmã tua, que o Senhor chamou na antemanhã do primeiro dia nebuloso de sua vida; e o que de ti ficou foi a formosura e a desgraça da mulher.

Mas, afora a essência pura do Céu, que esbelta, que peregrina mulher cá se ficou a.25 ostentar as galas mundanas, esse opulento nada que desaba do altar da nossa idolatria a uni roer surdo de vermes e podridão!

Esta última palavra tolhe-me de continuar a descrever Teodora. Esmoreceram-me os espíritos. Caí da minha fantasia na lagoa fétida da verdade. Achei-me como às margens de uma sepultura regélida do gear de uma noite de Dezembro. Parou-me o sangue no pulso, inteiriçaram-se-me os dedos e a pena desprende-se. Assobia o nordeste pelas arestas dos jazigos e remexe e sacode de sobre esta pedra umas coroas húmidas de orvalho, cristalizado em lágrimas; são coroas de perpétuas sagradas à formosura, que se julgou imorredoura, à sexta hora do seu breve dia. Lá vão as coroas no bulcão do vento; lá vão esgalhadas as frondes do chorão e do cipreste; lá vai tudo; a memória dos vivos lá se foge também desta sepultura; tudo foi; só tu ficaste, ó Cruz!.

VII

Beleza absoluta, de telhas abaixo, há uma sé, que é a da mulher formosa; e, na variada manifestação de beleza em diversidade de tipos, há uma superior formosura, que constitui o belo universal, o belo que prende e leva todos os olhos. A mulher assim dotada tanto impressiona o espírito educado na visão e admiração das maravilhas da natureza e arte como o espírito desculto de toda a compostura e discernimento. Dá-se o exemplo desta coisa formulada em tese abstrusa na embriagadora influição dos olhos de Teodora no ânimo selvagem de Eleutério. A menina de catorze anos, que o lerdo vaqueiro comparava a um arenque, apareceu-lhe aos dezasseis na grade do convento, e atordoouo, O moço, querendo exprimir ao pai a sensação recebida naquela hora, disse com expansiva naturalidade:

- Quando ela me espetava os olhos, havia de dizer que a minha alma estava fora do corpo! Eu queria dizer-lhe alguma coisa, e a língua grudava-se-me ao céu da

boca.

Quem me dera ser rei, e que ela fosse uma pastora de cabras!

Se a linguagem fosse mais joeirada de plebeísmos, a concisão da ideia poderia atribuir-se a Shakespeare. A mais cristalina água é a que rebenta de penhascos ermos: assim, de espíritos selváticos, ressaltam por vezes umas ideias límpidas, de uma sensibilidade original, que faz pensar.

Romão ficou contente da resposta, decorou-a, e assim a pespegou a Teodora. A menina, vezada à linguagem mais florida ou mais delicada de Afonso, riu interiormente dos termos rústicos do primo, e de fora compôs o gesto para fingir que o não entendera, O tutor, porém, instintivo avaliador do capital do tempo, sem saber que os economistas ingleses chamavam ao tempo capital, repetiu, já dilucidando-as, as palavras de Eleutério, aproando o discurso ao ditoso remanso do casamento, que ele, na sua locução figurativa, denominava um lindo arranjo.

A morgadinha ouviu ansiada o tio e respondeu com um ataque de nervos, que era já o terceiro que a insultava; simpática doença em meninas pálidas, se é o amor contrariado que lhes desmancha o aparelho nervoso. Teodora soluçava agudos gemidos, que iam reboando pelos dormitórios. Acudiram algumas freiras e transferiram-na à sua cela. A prelada foi à grade averiguar do acidente e saiu convencida de que a órfã era uma doida a quem Libana, de impudica memória, ensinara a fingir ataques nervosos.

Romão dos Santos saíra do convento no propósito de consultar um egresso do Carmo sobre os trejeitos e feitios que vira em sua sobrinha, para aplicar-se-lhe a reza purgativa de demónios, se o frade entendesse que ela os tinha no corpo. O zeloso e invencíveldemonífugo foi ao convento, avistou-se com a suspeita energúmena, mandou as freiras que depusessem acerca das malfeitorias atribuídas ao espirito imundo e retirouse capacitado de que a morgada da Fervença estava possessa de uma legião de travessos e intrigantes diabinhos que usam, contra todo o natural, aninhar-se entre religiosas, não as poupando mesmo, quando elas tomassem o expediente salvador do conhecido galego da fábula de Almeida Garrett. Era ilustrado o egresso.

(continua...)

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