Por Machado de Assis (1872)
Félix, entretanto, parecia indiferente aos sentimentos que inspirava e deste modo obedecia a um sistema não menos que à disposição do seu espírito. O mesmo praticava em relação ao amor. Evitava, quanto podia, animar as esperanças da moça, e posto soubesse a fundo a retórica da paixão, não a empregava sem uma parcimônia, que lhe parecia economia razoável.
Lívia, porém, não dissimulava nem hesitava; deixava transparecer no rosto o que sentia no coração. Jogava com as cartas na mesa sem previsão nem cálculo. Expansiva e discreta, enérgica e delicada, entusiasta e refletida, Lívia possuía esses contrastes aparentes, que não eram mais que as harmonias do seu caráter. Os próprios defeitos e a nasciam de suas qualidades. Era crédula à força de ser confiante ríspida com tudo o que lhe parecia baixo ou fútil. Tinha a imaginação quimérica, às vezes - o coração supersticioso, a inteligência austera, mas compensava estes defeitos, se o eram, por qualidades capitais e raras.
Um dia em que ambos conversavam do único assunto que lhes podia interessar - pelo menos do único que lhe interessava a ela Félix pediu-lhe explicação de uma cousa que lhe parecia obscura.
— Obscura? repetiu Lívia.
— Lembra-se da noite em que a encontrei no Ginásio? disse o medico. Estava preocupada e alheia a tudo. Conversou mal e distraída, interessavam-lhe as cenas amorosas, tudo mais parecia aborrecê-la. No fim do terceiro ato levantou-se e foi-se embora. Diz-me entretanto, que desde o sarau do coronel já começava a sentir este amor que é a sua vida. Pois bem não estava eu lá, a seu lado, no teatro?
— Não.
— Oh!
— Estava outro homem, mui diverso deste que eu vejo, agora ao pe e mim, porque ainda não me amava. Mas não era só isso, era mais. Pensa que os seus atos, sentimentos e pessoas não são objeto dos comentários estranhos?
— Importam-me tão pouco os comentários!
— Pois bem, falaram-me muito mal do seu coração naquele dia.
— Que lhe disseram desse viajante incógnito?
— Viajante? perguntou Lívia.
— Que foi, emendou Félix.
— Disseram-me muitas cousas más.
— Deu-lhes crédito?
— Não, mas fiquei triste. Eu estava acostumada a admirá-lo de longe. Conhecia-o pouco, mas meu irmão falava-me muita vez a seu respeito nas cartas que me escrevia para Minas, e Raquel fazia coro com ele.
— Seu irmão tem certo entusiasmo por mim, disse Félix; e natural que exagere os meus méritos.
Quanto à filha do coronel, é uma criança, que se acostumou a ver-me com olhos de irmã mais moça.
— Quer então que eu acredite antes nas cousas más?
— Nem más nem boas, Lívia; conheça-me primeiro; fará depois juízo seguro. — Oh! conheço-te! exclamou ela.
A entrada de Viana interrompeu o colóquio. Félix dirigiu-se à mesa e abriu um álbum, enquanto Viana referia à irmã as peripécias de um jantar a que assistira. O álbum da viúva, que o médico abria pela primeira vez, estava já alastrado de prosa e verso. Nem tudo era bom, como acontece nesses livros, que são às vezes verdadeiros asilos de inválidos do Parnaso, onde as musas reumáticas e manetas vão soltar os seus gemidos. Uma página havia que lhe pareceu misteriosa: era uma declaração de amor sem assinatura. Leu-a, e não pôde deixar de sorrir: só havia uma cousa pior que a forma, era o pensamento.
— De que se ri? perguntou a viúva.
Viana aproximou-se de Félix e lançou os olhos para a página aberta
— Ah! disse ele estouvadamente, isto é de meu defunto cunhado.
Lívia estremeceu e corou.
"Viúva de um néscio! pensou Félix. Estava pedindo um homem inteligente."
CAPÍTULO VIII / QUEDA
O DESENLACE desta situação desigual entre um homem frio e uma mulher apaixonada parece que devera ser a queda da mulher; foi a queda do homem. Para triunfar da viúva, Félix contava apenas com a sua resolução mas a viúva, além do seu amor, tinha dous auxiliares ativos e latentes: o tempo e o hábito. Cada dia que passava caía como uma gota d'água no coração do médico, e ia cavando fundo com a fria tenacidade do destino.
Ironia da sorte chamará o leitor a este desfecho de uma situação que, algumas semanas antes, tão outra se lhe afigurava. Chame-lhe antes lógica da natureza, porque o coração de Félix, que aparentava ser de mármore, era simplesmente da nossa comum argila. Não era seguramente um coração virginal e puro; tinha uma certa dose do egoísmo que a natureza maternalmente repartiu por todos os homens, e não se pode dizer que não fosse algum tanto céptico; mas estes senões exagerava-os ele de maneira que veio a perder, na imaginação dos outros, a sua fisionomia original.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.