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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Agora nós, disse Ruy Vaz. Vamos ao Coblenz fazer um lastro. Dizem os médicos que, em tempo de epidemia, é um perigo andar-se com o estômago vazio e, como a febre grassa pavorosamente e eu tenho muito amor à vida e sou grande observador dos boletins higiênicos, vou trincar um bife. Não tenho fome, é como se fosse tomar uma cápsula de quinino.

Entraram e o romancista, sentando-se a uma das mesas, encomendou uma sopa a l'oignon e um bife à baiana e, enquanto preparavam os pratos, foi discorrendo:

— Grande é a incapacidade dos homens que nos dirigem. Se eles sabem que a febre amarela ataca de preferência os que têm o estômago vazio por que, em vez de andarem com fumigações, não estabelecem hotéis públicos, grandes hotéis profiláticos, nas praças, acabando, de vez, com essa ignomínia das farmácias? Não te parece?

— Sim, é lógico. Servido, pôs-se a tomar a sopa vagarosamente, saboreando, depois atirou-se ao bife e comia quando o Lins surgiu, muito risonho, arrastando a perna rija, a brandir a bengala:

— Isto acaba mal! — exclamou em voz engasgada que parecia vir do fundo do peito. Plantou-se diante da mesa e, rindo, com o rosto todo encarquilhado, repetiu: — Isto acaba mal! Anselmo ofereceu uma cadeira e o poeta, todo encolhido, perguntou:

— Pode-se pedir alguma coisa ou estamos em maré baixa?

— À vontade! — disse o estudante. Ruy Vaz, que ficara indeciso, com um pedaço de pão entre os dedos, trincou descansadamente, e o poeta, atirando uma palmada ao ombro do estudante, sempre a rir, meneando com a cabeça, elogiou-o:

— Tem muito talento! O caixeiro acudiu: Cerveja! esgoelou o Lins e atirando os braços para o ar: Muita cerveja! Eu hoje quero beber e, pungido, com uma grande expressão de dor: Estou muito triste. Imaginem vocês o meu gato! Fui encontrá-lo morto hoje de manhã. Um gatinho que era um encanto. Tão meigo que nem aos ratos fazia mal. Vocês não gostam de gatos? Rompeu a rir e, num berro atroador, atirando o busto sobre a mesa, estendendo os braços, encharcando as bordas do punho no molho do bife, repetiu a pergunta: — Vocês não gostam de gatos?

— Que é isso, Lins? — observou baixinho o romancista e o poeta, depois de o fitar espantado, olhou em volta dizendo:

— Que tem? Então eu não posso falar das minhas mágoas? Eu gosto muito dos animais. E furioso, tentando erguer-se, com o punho ameaçador, rugiu: — Perto de mim ninguém faz mal a um bicho, não admito! Agarro por uma perna e faço assim... Fez o gesto violento de quem torce e concluiu: — Ainda que seja... o imperador da China. Não admito! Mais calmo, porém, tornou ao assunto: — Então vocês não gostam de gatos? Miau! Miau! Chamfleury, Baudelaire, Gautier eram doidos por eles. Um angorá, heim?

— O teu era angorá? — perguntou Ruy Vaz.

— O meu? Qual nada! Era um gato muito ordinário que só me dava trabalho. Morreu! — disse juntando as mãos e elevando beatamente os olhos. Imaginem vocês... um gato que comia duas vezes ao dia. Ao ver a cerveja que o caixeiro trazia rompeu a rir apresentando o copo. Bebeu um gole e repetiu com os bigodes brancos de espuma: — Estou muito triste. Imaginem vocês: uma menina loura, muito loura, dona dos mais belos olhos azuis que tenho visto... uma figurinha de keepsake! Leonor, chama-se Leonor, imaginem vocês! Suspirou e sorveu novo trago. Hoje estou disposto a beber, bebo tudo... Não gosto de conhaque, pois bebo! Mas imaginem vocês, os mais belos olhos azuis que tenho visto! Uma menina loura, loura! Atirou um murro à mesa:

— Ofereci-lhe em um soneto a minha mão de esposo. Sim, porque é uma mão de artista; espalmou a mão para que Anselmo examinasse; ofereci-lhe, porque ela é mulher para viver sobre sedas e veludos, cercada de todos os carinhos, ouvindo versos líricos. É uma mulher divina, digna de um de nós, de todos nós! Palavra de honra e... imaginem vocês. Sacudiu um gesto indignado: — Isto não é vida, isto não é sociedade! Ah! Paris! Paris..

— Mas a menina...? — perguntou Ruy Vaz. O poeta encarou o romancista sorrindo e, de repente, derreando a cabeça, batendo com a bengala:

— Ah! Sim; eu queria fazê-la feliz... Imaginem vocês, tenho talento, posso fazer uma mulher feliz. Não posso?

— Sim, podes, disse Ruy Vaz.

— Pois ela não quis: vai casar com um taverneiro. Isto não é vida! Eu ainda faço uma desgraça. Mais cerveja! — reclamou.

Quando saíram o Lins, sempre risonho e oscilando como um pêndulo, propôs um passeio ao campo. Gostava da natureza àquela hora silente, tão favorável à meditação. Iriam para o arvoredo, sonhar.

— Não achas melhor sonhar na cama? — perguntou Ruy Vaz.

(continua...)

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