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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

E sem escutar a velha, que lhe pedia com ansiedade que ficasse para jantar - desceu os degraus como uma pedra que rola, meteu furioso pelo caminho da residência, ainda com o seu ramo na mão.

Esperava encontrar Amélia na estrada; e não tardou em a avistar quase ao pé da casa do ferreiro, agachada ao pé do valado, apanhando sentimentalmente florinhas silvestres.

- Que fazes tu aqui? exclamou, chegando junto dela.

Ela ergueu-se, com um gritinho.

- Que fazes tu aqui? repetiu.

Àquele tu, e àquela voz colérica, ela pôs rapidamente um dedo na boca, assustada. O senhor abade estava dentro da casa com o ferreiro...

- Ouve lá, disse Amaro com os olhos chamejantes, agarrando-lhe o braço, tu confessaste-te ao abade?...

- Para que quer saber? Confessei... Não é vergonha nenhuma...

- Mas confessaste tudo, tudo? perguntou ele com os dentes cerrados de raiva. Ela perturbou-se, e tratando-o ainda por tu:

- Foste tu que me disseste muitas vezes... Que era o maior pecado neste mundo, esconder alguma coisa ao confessor!

- Bêbeda! rugiu Amaro.

Os seus olhos devoravam-na. E, através da névoa de cólera que lhe enchia o cérebro e lhe fazia latejar as veias na fronte, achava-a mais bonita, com umas redondezas em todo o corpo que ardia por abraçar, com uns lábios vermelhos avivados pelo largo ar do campo que ele queria morder até ao sangue.

- Ouve, disse-lhe cedendo a uma invasão brutal do desejo. Ouve... Acabou-se, não me importa.

Confessa-te ao diabo se te agrada... Mas hás-de ser a mesma para mim!

- Não, não! disse ela com força, desprendendo-se, pronta a fugir para casa do ferreiro.

- Tu mas pagarás, maldita! rosnou o padre por entre dentes, voltando as costas, descendo o caminho com passadas de desesperado.

E não abrandou o passo até à cidade, levado dum impulso de indignação que, sob aquela doce paz dum meio de Outono, lhe sugeria planos de vinganças ferozes. Chegou a casa esfalfado, ainda com o ramo na mão. Mas aí, na solidão do quarto, veio-lhe pouco a pouco o sentimento da sua impotência. Que lhe podia fazer por fim? Ir pela cidade dizer que ela estava grávida? Seria denunciar-se a si. Espalhar que estava amigada com o abade Ferrão? Era absurdo: um velho de quase setenta anos, de uma fealdade de caricatura, com todo um passado de virtude santa!... Mas perdê-la, não tornar a ter no braços aquele corpo de neve, não ouvir mais aquelas ternuras balbuciadas que lhe arrebatavam a alma para alguma coisa de melhor que o Céu... Isso não!

E era possível que ela, em seis ou sete semanas, tivesse assim esquecido tudo? Naquelas longas noites na Ricoça, só na cama, não lhe viria uma recordação das manhãs no quarto do tio Esguelhas?... Decerto: ele sabia-o da experiência de tantas confessadas que lhe tinham revelado aflitas a tentação muda e teimosa que não deixa a carne que uma vez pecou...

Não: devia persegui-la, e por todos os modos soprar-lhe aquele desejo que agora ardia nele mais alto e mais ruidoso.

Passou a noite a escrever-lhe uma carta de seis páginas, absurda, cheia de implorações apaixonadas, de argúcias místicas, de pontos de exclamação e de ameaças de suicídio...

Mandou-a ao outro dia cedo, pela Dionísia. A resposta veio só á noite, por um rapazito da quinta. Com que sofreguidão rasgou o sobrescrito! Eram apenas estas palavras: "Peço-lhe que me deixe em paz com os meus pecados".

Não desistiu: ao outro dia lá estava na Ricoça a visitar a velha. Amélia achava-se no quarto de D. Josefa, quando ele apareceu. Fez-se muito pálida; mas os seus olhos não deixaram a costura - durante a meia hora que ele ali ficou, ora num silêncio sombrio acabrunhado para o fundo da poltrona, ora respondendo distraidamente à tagarelice da velha, muito faladora essa manhã.

E na semana seguinte foi o mesmo: se o ouvia entrar fechava-se rapidamente no quarto: só vinha se a velha mandava a Gertrudes dizer-lhe ''que estava ali o senhor pároco que a queria ver''. Ia, então, estendia-lhe a mão, que ele achava sempre a escaldar - e tomando a sua eterna costura, junto da janela, ia picando o posponto com uma taciturnidade que desesperava o padre.

Tinha-lhe escrito outra carta. Ela não respondera.

Então jurava não voltar à Ricoça, desprezá-la, - mas depois de ter passado a noite, rolando-se pela cama sem poder dormir, com a mesma visão da nudez dela cravada intoleravelmente no cérebro, lá partia de manhã para a Ricoça, corando quando o apontador das obras na estrada, que o via passar todos os dias, lhe tirava o seu boné de oleado.

Numa tarde que chuviscava, ao entrar no casarão, dera com o abade Ferrão que à porta abria o seu guarda-chuva.

- Olá, por aqui, senhor abade? disse ele.

O abade respondeu naturalmente:

- Em vossa senhoria é que não há que estranhar, que vem por aqui todos os dias...

Amaro não se conteve; e tremendo de cólera:

- E que lhe importa ao senhor abade se eu venho ou não? A casa é sua?

(continua...)

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