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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Pois, minha senhora, até outro dia. Esteja certa que hei-de aparecer de vez em quando. E nada de afligir... Agasalho, boa dieta, e a misericórdia de Deus não a há-de abandonar...

- Não nos falte, senhor pároco, não nos falte!...

Amélia estendera-lhe a mão, para se despedir ali no quarto; mas Amaro gracejando:

- Se não lhe causa incômodo, menina Amélia, sempre é bom vir mostrar-me o caminho, que eu perco-me neste casarão.

Saíram ambos. E apenas no salão, a que as três largas vidraças davam ainda uma claridade:

- A velha faz-te a vida negra, filha, disse Amaro parando.

- Que mereço eu mais? respondeu ela baixando os olhos.

- Desavergonhada, eu lhas cantarei!... Minha Ameliazinha, se soubesses o que me tem custado... E falando, ia abraçá-la pelo pescoço.

Mas ela recuou, toda perturbada.

- Que é isso? fez Amaro assombrado.

- O quê?

- Esse modo! Tu não me queres dar um beijo, Amélia? Tu estás doida?

Ela ergueu as mãos para ele, numa suplicação ansiosa, falando toda trêmula:

- Não, senhor pároco, deixe-me! Isso acabou. Bem basta o que pecamos... Quero morrer na graça de Deus... Que nunca mais se fale em semelhante coisa!... Foi uma desgraça... Acabou-se... Agora o que quero é o sossego da minha alma...

- Tu estás tola? Quem te meteu isso na cabeça? Ouve cá...

Foi para ela outra vez, com os abraços abertos.

- Não me toque, pelo amor de Deus, - e vivamente recuou até à porta.

Ele olhou-a um momento, numa cólera muda.

- Bem, como queira, disse por fim. Em todo o caso, quero preveni- Ia que o João Eduardo voltou, que passa aqui todos os dias, e que é bom não se pôr de janela.

- Que me importa a mim o João Eduardo e os outros e tudo o que passou?...

Ele acudiu, transbordando dum sarcasmo amargo:

- Está claro, agora o grande homem é o Sr. abade Ferrão!

- Devo-lhe muito, é o que sei...

A Gertrudes neste momento entrava com o candeeiro aceso. E Amaro, sem se despedir de Amélia, abalou, de guarda-chuva em riste, rilhando os dentes de raiva.

•••

Mas a longa caminhada até à cidade calmou-o. Aquilo na rapariga por fim era apenas um acesso de virtude e de escrúpulos! Vira-se ali só naquele casarão, amargurada pela velha, impressionada pelos palavrões do moralista Ferrão, longe dele, e tinha-lhe vindo aquela reação de devota com os seus terrores do outro mundo e apetites de inocência... Chalaça! Se ele começasse a ir à Ricoça, numa semana reganhava todo o seu domínio... Ah, conhecia-a bem! Era só tocar-lhe, piscar-lhe o olho... Estava logo rendida.

Passou porém uma noite inquieta, desejando-a mais que nunca. E ao outro dia à uma hora marchou para Ricoça, levando-lhe um ramo de rosas.

A velha ficou toda contente ao vê-lo. É que lhe dava saúde a presença do senhor pároco! E se não fosse a distância, havia de lhe pedir esmola de vir todas as manhãs. Até depois daquela visitinha rezava com mais fervor...

Amaro sorria, distraído, com os olhos cravados na porta.

- E a menina Amélia? perguntou por fim.

- Saiu... Isso agora todas as manhãs é a passeata, disse a velha com azedume. Vai à residência, é toda do abade...

- Ah! fez Amaro com um sorriso lívido. Nova devoção, hem?... é pessoa de muitos méritos, o abade.

- Ai, não presta, não presta! exclamou D. Josefa. Não me percebe. Tem idéias muito esquisitas. Não dá virtude...

- Homem de livros... disse Amaro.

Mas a velha erguera-se sobre o cotovelo, e baixando a voz, com o magro carão aceso em ódio:

- E aqui para nós, a Amélia tem-se portado muito mal! Nunca lho hei-de perdoar... Confessou-se ao abade... É uma indelicadeza, sendo a confessada do senhor pároco, não tendo recebido de vossa senhoria senão favores... É uma ingrata, é uma traiçoeira!...

Amaro fizera-se pálido.

- Que me diz a senhora?

- A verdade! Que ela não o nega. Até se orgulha! É uma perdida, è uma perdida! Depois do favor que lhe estamos a fazer...

Amaro disfarçou a indignação que o revolvia. Riu até. Era necessário não exagerar. Não havia ingratidão. Era uma questão de fé. Se a rapariga pensava que o abade a podia dirigir melhor, tinha razão em se abrir com ele... O que todos queriam é que ela salvasse a sua alma... Que fosse pela direção de fulano ou sicrano, isso não importava... E nas mãos do abade estava bem.

E chegando vivamente a cadeira para o leito da velha:

- Então agora, todas as manhãs vai à residência?

- Quase todas... Que ela não há-de tardar, vai depois de almoço, volta sempre a esta hora... Ai, tem-me causado isto um desgosto!...

Amaro deu um passeiozinho nervoso pelo quarto, e estendendo a mão à velha:

- Pois minha senhora, eu não me posso demorar, que vim de fugida... Até um dia cedo.

(continua...)

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