Por Eça de Queirós (1875)
Amaro desculpou-se vagamente com os afazeres da Sé. E compreendia agora, ao ver aquela face amarela e cavada, com uma medonha touca de rendas negras, que tristes horas Amélia ali devia passar.
Perguntou por ela; avistara-a de longe, mas ela deitara a fugir...
- É que não estava decente para aparecer, disse a velha. Hoje foi dia da barrela.
Amaro quis então saber em que se entretinham, como passavam os dias naquela solidão...
- Eu para aqui estou. A pequena para aí anda.
Depois de cada palavra, parecia abater-se numa fadiga e a sua ronqueira crescia.
- Então não se tem dado bem com a mudança, minha senhora?
Ela disse que não, num movimento de cabeça.
- Deixe falar, senhor pároco, acudiu a Gertrudes que ficara de pé, ao lado do canapé, gozando a presença do senhor pároco. - Deixe falar... É que a senhora exagera também... Levanta-se todos os dias, dá o seu passeinho até à sala, come a sua asita de frango... Temo-la aqui, temo-la arribada... É o que diz o Sr. abade Ferrão, a saúde foge a toda a brida e para voltar vem a passo.
A porta abriu-se. Amélia apareceu, muito escarlate, com o seu antigo robe-de-chambre de merino roxo, o cabelo arranjado à pressa.
- Desculpe, senhor pároco, balbuciou, mas hoje tem sido um dia de balbúrdia...
Ele apertou-lhe a mão gravemente; e ficaram calados, como se estivessem separados pela distância dum deserto. Ela não tirava os olhos do chão, enrolando com a mão trêmula uma ponta da manta de lã que trazia solta pelos ombros. Amaro achava-a mudada, um pouco inchada das faces, com uma ruga de velhice aos cantos da boca. Para romper aquele silêncio estranho, perguntou-lhe também se se dava bem...
- Para aqui vou indo... É um pouco triste isto. É como diz o Sr. abade Ferrão, é muito grande para a gente se sentir em família.
- Ninguém veio para aqui para se divertir, disse a velha sem descerrar as pálpebras, com uma voz seca que perdera toda a fadiga.
Amélia baixou a cabeça, fazendo-se pálida.
Amaro então, compreendendo num relance que a velha torturava Amélia, disse com muita severidade:
- É verdade, não foi para se divertirem... Mas também não foi para se entristecerem de propósito... Pôr-se uma pessoa de mau humor e fazer aos outros a vida negra, é uma falta horrível de caridade; não há pecado pior aos olhos do Senhor... É indigno da graça de Deus quem tal pratica...
A velha rompeu a choramigar, muito excitada:
- Ai, o que Deus me guardou para os últimos anos da vida...
Gertrudes animou-a. Então, senhora, que até lhe fazia pior estar a afligir-se assim... Ora o disparate! Tudo se havia de remediar com a ajuda de Deus. Saúde não havia de faltar, nem alegria...
Amélia chegara-se à janela, decerto para esconder também as lágrimas que lhe saltavam dos olhos. E o pároco, consternado com a cena, começou a dizer que D. Josefa não estava suportando com a verdadeira resignação duma cristã aqueles dias de doença... Nada escandalizava mais Nosso Senhor que ver as criaturas revoltarem-se contra as dores ou os encargos que ele mandava... Era insultar a justiça dos seus decretos...
- Tem razão, senhor pároco, tem razão, murmurou a velha muito contrita. Eu às vezes nem sei o que digo... São coisas da doença.
- Bem, bem, minha senhora, é resignar-se e tratar de ver tudo cor-de-rosa. É o sentimento que Deus mais aprecia. Eu compreendo que é duro estar para aqui enterrada...
- É o que diz o Sr. abade Ferrão, acudiu Amélia voltando da janela, a madrinha estranha... Assim arrancada aos hábitos de tantos anos...
Notando então a citação repetida das palavras do abade Ferrão, Amaro perguntou se ele costumava vir vêlas.
- Ai, tem-nos feito muita companhia, disse Amélia. Vem quase todos os dias.
- É um santo! exclamou a Gertrudes.
- Decerto, decerto, murmurou Amaro descontente dum entusiasmo tão vivo. Pessoa de muita virtude...
- De muita virtude, suspirou a velha. Mas... - calou-se, não ousando decerto exprimir as suas reservas de devota. E exclamou numa súplica: Ai, o senhor pároco é que devia vir por aqui, ajudar-me a levar esta cruz da doença...
- Hei-de vir, minha senhora, hei-de vir. É bom para a distrair, para lhe dar as noticias... E a propósito, tive ontem carta do nosso cônego.
Rebuscou na algibeira, leu alguns períodos da carta. O padre-mestre já tinha quinze banhos. A praia estava cheia de gente. A D. Maria passara doente com um furúnculo. O tempo famoso. Todas as tardes grandes passeatas a ver recolher as redes. A S. Joaneira, boa, mas falando sempre na filha...
- Pobre mamã... choramigou Amélia.
Mas a velha não se interessava com as novidades, gemendo a sua ronqueira. Foi Amélia que perguntou pelos amigos de Leiria, pelo Sr, padre Natário, pelo Sr, padre Silvério...
Ia escurecendo já: a Gertrudes fora preparar o candeeiro. Amaro enfim ergueu-se:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.