Por Eça de Queirós (1875)
Vendo-a sempre tão tristonha, interessara-se por ela; para Amélia, as visitas do abade eram uma distração, naquela solidão da Ricoça; e assim se iam familiarizando, a ponto que nos dias em que ele regularmente vinha, Amélia punha um mantelete e ia pelo caminho dos Poiais esperá-lo até junto da casa do ferrador. As conversas do abade, falador incansável, entretinham-na, tão diferentes dos mexericos da Rua da Misericórdia, - como o espetáculo dum largo vale com árvores, plantações, águas, pomares e rumor de lavouras, recreia os olhos habituados às quatro paredes caiadas duma trapeira da cidade. Tinha com efeito uma destas conversações semelhantes aos jornais semanais de recreio, o TESOURO DAS FAMÍLIAS ou as LEITURAS PARA SERÕES, em que há de tudo - doutrina moral, histórias de viagens, anedotas de grandes homens, dissertações sobre a lavoura, citação duma boa chalaça, traços sublimes da vida dum santo, um verso aqui e além, e até receitas, como uma muito útil que deu a Amélia para lavar as flanelas sem encolherem. Só era monótono quando falava da sua família paroquiana, dos casamentos, batizados, doenças, questões, ou quando começava as suas histórias de caça.
- Uma vez, minha rica senhora, ia eu pelo Córrego das Tristes, quando uma revoada de perdizes...
Amélia sabia que, pelo menos uma hora, tudo seriam façanhas da Janota, pontarias fabulosas contadas em mímica, com imitações de vozes de pássaros, e pum, pum de fuzilaria. Ou então era descrições das caçadas selvagens que ele lera com gula - a caça ao tigre do Nepal, ao leão da Argélia e ao elefante, histórias ferozes que arrastavam a imaginação da rapariga para longe, para os países exóticos onde a erva é alta como os pinheiros, o sol queima como um ferro em brasa, e entre cada ramagem reluzem os olhos duma fera... E depois, a propósito de tigres e de malaios, lembrava- lhe um história curiosa de S. Francisco Xavier, e ei-lo lançado, o terrível palrador, na descrição dos feitos da Ásia, das armadas da Índia e das estocadas famosas do cerco de Dio!
Foi mesmo um desses dias, no pomar, em que o abade, tendo começado por enumerar as vantagens que o cônego tiraria de transformar o pomar em terra de lavoura, acabara por contar perigos e valores dos missionários da Índia e do Japão - que Amélia, então em toda a intensidade dos seus terrores noturnos, falou dos ruídos que ouvia na casa e dos sobressaltos que lhe davam.
- Oh, que vergonha! disse o abade rindo; uma senhora da sua idade ter medo de papões... Ela então, atraída por aquela bondade do senhor abade, contou-lhe as vozes que ouvia de noite por detrás da barra da cama.
O abade pôs-se sério:
- Minha senhora, isso são imaginações que deve a todo o custo dominar... Decerto tem havido prodígios no mundo, mas Deus não se põe assim a falar a qualquer, por detrás das barras das camas, nem permite ao demônio que o faça... Essas vozes, se as ouve, e se os seus pecados são grandes, não vêm de detrás da cama, vêm-lhe de si mesma, da sua consciência... E pode então fazer dormir ao pé de si a Gertrudes, e sem Gertrudes, e todo o batalhão de infantaria, que as há-de continuar a ouvir... Havia de as ouvir, mesmo que fosse surda. O que é necessário é calmar a consciência que reclama penitência e purificação...
Tinham subido ao terraço, falando assim: e Amélia sentara-se fatigada num dos bancos de pedra que ali havia, e ficara a olhar a quinta ao longe, os tetos dos currais, a longa rua de loureiros, a eira, e a distância os campos que se sucediam planos e avivados do tom úmido que lhes dera a chuva ligeira da manhã: agora a tarde estava de uma placidez clara, sem vento, com grandes nuvens paradas que o sol do poente tocava de vivos cor-de-rosa tenro... Pensava naquelas palavras tão sensatas do abade, no descanso que gozaria se cada pecado que lhe pesava na alma como um penedo se tomasse ligeiro e se dissipasse sob a ação da penitência. E vinham-lhe desejos de paz, dum repouso igual à quietação dos campos que se estendiam diante dela.
Um pássaro cantou, depois calou-se; e recomeçou dai a um momento com um trinado tão vibrante, tão alegre, que Amélia sorria, escutando-o.
- É um rouxinol...
- Os rouxinóis não cantam a esta hora, disse o abade. É um melro... Aí está um que não tem medo de fantasmas, nem ouve vozes... Olhe que entusiasmo, o maganão!
Era com efeito um gorjear triunfante, um delírio de melro feliz, que dera de repente a todo o pomar uma sonoridade festiva.
E Amélia, diante daquele chilrear glorioso dum pássaro contente, subitamente, sem razão, num destes abalos nervosos que vêm às mulheres histéricas, rompeu a chorar.
- Então, que é isso, que é isso? fez o abade muito surpreendido.
Tomou-lhe a mão, com uma familiaridade de velho e de amigo, calmando-a.
- Que infeliz que sou!.., murmurou ela aos soluços.
Ele então muito paternal:
- Não tem razão para o ser... Sejam quais forem as aflições, as inquietações, uma alma cristã tem sempre a consolação à mão... Não há pecado que Deus não perdoe, nem dor que não calme, lembre-se disso... O que não deve é guardar em si o seu desgosto... É isso que sufoca, que a faz chorar... Se eu lhe posso valer, sossegá-la, é procurar-me...
- Quando? disse ela toda desejosa já de se refugiar na proteção daquele santo homem.
- Quando quiser, disse ele rindo. Eu não tenho horas para consolar... A igreja está sempre aberta, Deus está sempre presente...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.