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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

No dia 28, tendo avançado cedo e tomado posição em pequeno platô, distante dois quilômetros do arraial, começou por sua vez a bombardeá-lo, enquanto os dois batalhões da Brigada Carlos Teles se avantajavam mais para a frente ainda, em reconhecimento rápido. Um piquete de cavalaria, dirigido por um valente, destinado a uma morte heróica, o alferes Wanderley, explorou o terreno pelo flanco esquerdo, até à Favela, onde àquela hora — oito da manhã — recrudescera, intenso, o canhoneio.

A dois passos do comando-em-chefe, a segunda coluna estava pronta para o assalto. Chegara até ali ultimando uma travessia de setenta léguas com um combate de três dias

Impusera-se ao inimigo; afeiçoara-se ao caráter excepcional da luta; e o movimento irreprimível da carga que iniciara em Cocorobó e prolongara ininterruptamente até àquele ponto poderia arrebatá-la, triunfante, ao centro de Canudos, em plena praça das igrejas. Vinha, a despeito das perdas que tivera, esperançosa e robusta. A ordem do dia de 26, em que o seu comandante lhe comunicou o próximo assalto, em companhia dos companheiros da 1.ª coluna, é expressiva.

TRABUBU

Foi dada em "Trabubu", na travessia dos desfiladeiros, e diz muito no próprio laconismo. A nova, entusiasticamente recebida, deriva de poucas palavras, corteses e despretensiosas:

"Acampamento no campo de batalha de Cocorobó, 26 de junho de 1897.

Meus camaradas. Acabo de receber do sr. general comandante-em-chefe um telegrama comunicando-me que amanhã nos abraçaremos em Canudos. Não podemos, portanto, faltar ao honroso convite, que é para nós motivo de justo orgulho e de completa alegria."

A concentração almejada, através de um assalto convergente, far-se-ia, porém, fora do centro da campanha.

Emissário inesperado

Com surpresa geral dos combatentes da 2 .ª coluna, que —olhos fitos na Favela — esperavam ver, descendo as vertentes do norte, os batalhões da 1.ª, apareceu no acampamento um sertanejo notificando-lhes, por ordem do comandante-em-chefe, as aperturas em que se achava aquela, exigindo imediato socorro. A nova era inverossímil, e pareceu, nos primeiros momentos, uma traça do adversário. O homem ficou retido até que novo emissário a confirmasse. Este, um alferes honorário, adido à comissão de engenharia, não se fez esperar muito. O general-em-chefe apelava instantemente para o concurso da outra coluna. Ante o novo reclamo, e informações que o esclareciam, o general Savaget, que a princípio imaginara enviar apenas uma brigada levando munições, ficando as demais sustentando a posição conquistada, seguiu, inflectindo para a esquerda, com toda a sua gente. Chegou, seriam onze horas, ao alto da Favela, a tempo de libertar a tropa assediada.

Destrói-se um plano de campanha

Preposterara-se, porém, todo o plano de campanha e do mesmo passo se anulara o esforço despendido nas marchas pelo Rosário e Jeremoabo.

Reunidas as colunas, tornou-se possível destacar um contingente para reaver o comboio retido à retaguarda. Foi cometido o encargo ao coronel Serra Martins que prontamente refluiu à reçaga da expedição intercisa, levando a 5.ª Brigada — num oscilar perigoso entre dois combates — até às Umburanas, onde chegou ainda a tempo de impedir o desbarate do 5.° de Polícia e salvar parte dos volumes de 180 cargueiros que, dispersos pelos caminhos, tinham sido grandemente danificados pelos jagunços.

Este movimento feliz, porém, de pouco atenuou as condições estreitas da tropa. Mal paliou o transe. Firmou-se logo um regímen desesperador de contrariedades de toda a sorte.

CAPÍTULO IV

VITÓRIA SINGULAR

A ordem do dia relativa ao feito de 28 de junho caracteriza-o "uma página tarjada de horrores, mas perfumada de glória." Mas fora franco o revés.

Não iludiu a História o fanfarrear do vencido. O exército vitorioso, segundo o brilhante eufemismo das partes oficiais armadas a velarem aquele insucesso, apresentava na noite daquele dia o caráter perfeito de uma aglomeração de foragidos. Triunfadores que não podiam ensaiar um passo fora da posição conquistada, tinham caído num período crítico da guerra: perdidos os alentos em recontros estéreis, ou duvidosas vitórias, que valiam derrotas, apoucando-lhes do mesmo passo as forças e o ânimo, sentiam-se dissociados e de algum modo unidos apenas pela pressão externa do próprio adversário que haviam julgado sopear facilmente. O heroísmo era-lhes, agora, obrigatório. A coragem, a bravura retransida de sobressaltos, um compromisso sério com o terror. Circulavam-nos os mais originais dos vencidos: impiedosos, enterreirando-os em todos os pontos no círculo de um assédio indefinido e transmudando-se em fiscal incorruptível, trancando todas as abertas à deserção. De sorte que, ainda quando carecessem de valor, os nossos soldados não tinham como se subtrair à emergência gravíssima em que se equiparavam heróis e pusilânimes.

O MEDO

A história militar, de urdidura tão dramática a recamar-se por vezes das mais singulares antíteses, está cheia das grandes glorificações do medo. A ânsia perseguidora do persa fez a resignação heróica dos "Dez mil"; a fúria brutal dos cossacos imortalizou o marechal Ney...

(continua...)

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