Por Eça de Queirós (1875)
- A menina está doida... Não tenho saúde para tocatas! Ora o despropósito!
A Gertrudes também não lhe fazia companhia; nas horas em que não estava ao pé da velha, ou na cozinha, desaparecia; era justamente daquela freguesia, e passava o seu tempo pelos casais, palrando com as antigas vizinhas. .
A pior hora era ao anoitecer. Depois de rezar o seu rosário, ficava junto à janela olhando estupidamente as gradações da luz poente; todos os campos pouco a pouco se perdiam no mesmo tom pardo; um silêncio parecia descer, pousar sobre a Terra; depois uma primeira estrelinha treme. luzia e brilhava: e diante dela era então só uma massa inerte de sombra muda até ao horizonte, aonde ainda ficava um momento uma delgada tira cor de laranja desbotada. O seu pensamento, sem nenhum tom de luz ou contorno de objeto em redor que o prendesse, ia muito saudoso para longe, para a Vieira; àquela hora a mãe e as amigas recolhiam do passeio na praia; já todas as redes estavam apanhadas; já pelos palheiros começam a aparecer as luzes; é a hora do chá, dos quinos alegres, quando os rapazes da cidade vão em rancho pelas casas amigas, com uma viola e uma flauta, improvisando soirées. E ela ali, só!...
Era então necessário deitar a velha, rezar com ela e com a Gertrudes o terço. Acendiam depois o candeeiro de latão, pondo-lhe diante uma velha chapeleira para dar sombra ao rosto da doente; e todo o serão, no silêncio lúgubre, apenas se ouvia o rumor do fuso da Gertrudes que fiava agachada a um canto.
Antes de se deitarem, iam trancar todas as portas, num medo constante de ladrões; e então começava para Amélia a hora dos terrores supersticiosos. Não podia adormecer, sentindo ao pé a negrura daquelas antigas salas desabitadas e em redor o tenebroso silêncio dos campos. Ouvia ruídos inexplicáveis: era o soalho do corredor que estalava, sob passadas multiplicadas; era a luz da vela que de repente se dobrava como sob um hálito invisível: ou a distância, para os lados da cozinha, o baque surdo dum corpo. Acumulava então as orações, encolhida debaixo da roupa; mas, se adormecia, as visões do pesadelo continuavam-lhe os terrores da vigília. Uma vez acordara de repente, a uma voz que dizia, gemendo, por trás da alta barra da cama: - Amélia, prepara-te, o teu fim chegou! Espavorida, em camisa, atravessou correndo a casa, foi refugiar-se na cama da Gertrudes.
Mas na noite seguinte a voz sepulcral voltou quando ela ia adormecer: Amélia, lembra-te dos teus pecados! Prepara-te, Amélia! Deu um grito, desmaiou. Felizmente a Gertrudes, que ainda se não deitara, correu àquele ai agudo que cortara o silêncio do casarão. Achou-a estirada ao través do leito, com os cabelos soltos da rede rojando no chão, as mãos geladas e como mortas. Desceu a acordar a mulher do caseiro, e até de madrugada foi uma azáfama para a chamar à vida. Desde esse dia a Gertrudes dormia ao pé dela - e a voz não tornou a ameaçá-la por trás da barra.
Mas, de noite e de dia, não a deixou mais a idéia da morte e o pavor do Inferno. Por esse tempo, um vendedor ambulante de estampas passou pela Ricoça; e a Sra. D. Josefa comprou-lhe duas litografias - a Morte do Justo e a Morte do Pecador.
- Que é bom que cada um tenha o exemplo vivo diante dos olhos, disse ela.
Amélia não duvidou ao princípio que a velha, que contava morrer no mesmo aparato de glória com que expirava o Justo da estampa, lhe quisera mostrar a ela, a pecadora, a cena pavorosa que a esperava. Odiou-a por aquela "picardia". Mas a sua imaginação aterrada não tardou a dar à compra da estampa outra explicação: era Nossa Senhora que ali mandara o vendedor de pinturas, para lhe mostrar ao vivo na litografia da Morte do Pecador o espetáculo da sua agonia: e estava então certa que tudo seria assim, traço por traço - o seu anjo da guarda fugindo aos soluços; Deus Padre desviando o rosto dela com repugnância; o esqueleto da morte rindo ás gargalhadas; e demônios de cores rutilantes, com todo um arsenal de torturas, apoderando-se dela, uns pelas pernas, outros pelos cabelos, arrastando-a com uivos de júbilo para a caverna chamejante toda abalada da tormenta de rugidos que solta a Eterna Dor... E ela podia ver ainda, no fundo dos Céus, a grande balança - com um dos pratos muito alto onde as suas orações não pesavam mais que uma pena de canário, e o outro prato caído, de cordas retesadas, sustentando a enxerga da cama do sineiro e as suas toneladas de pecado.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.