Por Bernardo Guimarães (1869)
Nas margens do grande rio Tocantins, que banha o norte da província de Goiás, e reunido ao Araguaia vai como que dar a mão ao rei dos rios para entrar de par com ele no Atlântico, habita uma nação indígena das mais ferozes e indomáveis que se conhecem, ainda que também uma das mais valentes e industriosas. É a nação dos Chavantes, que dominava uma larga zona em ambas as margens daquele rio, cuja navegação tornava extremamente difícil e perigosa para os Europeus. Sobretudo na época a que nos reportamos, o seu nome era o terror dos habitantes de Goiás, ninguém ousava penetrar naqueles sertões desconhecidos, infestados por essa e outras tribos selvagens, que muitas vezes saíam do fundo de suas brenhas a exercerem horríveis matanças, estragos e depredações nos estabelecimentos e fazendas dos brancos. Algumas dessas expedições, que se organizavam com o nome de bandeiras para rechaçá-los ou exterminá-los, voltavam desanimadas e destroçadas sem nada ter conseguido. Menos dóceis que os Caiapós e os Coroados, que já se iam submetendo ao aldeamento e catequese, os Chavantes mal conheciam os brancos, com quem não queriam relação alguma, e odiavam do fundo da alma.
Quatro ou cinco anos depois dos tristes acontecimentos que deixei narrados a noite passada, uma numerosa tribo daquela nação achava-se estabelecida no barranco esquerdo do rio algumas dezenas de léguas abaixo de S. José do Tocantins, pouco mais ou menos nas regiões onde é hoje o município da Palma.
Seu arranchamento era uma longa fila de tabas ou cabanas cobertas de palmas de coqueiro, disseminadas em pitoresca desordem ao longo da margem do rio em uma extensão de cerca de meia légua, como um bando de aves aquáticas pousadas à beira da torrente.
Era uma bela e calmosa sesta de Setembro. O índio naturalmente preguiçoso, porque para prover as necessidades da vida simples que leva em meio dos desertos não precisa de regar a terra com seu suor desde o nascer até o pôr-do-sol, nessas horas de calma íntima sobretudo entrega-se à sua natural indolência, e dorme ou se diverte. Uma turba de meninos de ambos os sexos entre alegres algazarras patinhavam na água à beira do rio adestrando-se na arte de nadar, tão necessária ao selvagem. As mulheres assentadas em diversos grupos à sombra da canjerana ou da copaíba secular, umas amamentavam suas crianças, outras teciam por passatempo esteiras, redes ou cabazes de cipós ou de palha de coqueiro; outras, deitadas em suas redes delicadamente tecidas de fios de tucum e enfeitadas de penas, embalavam-se indolentemente olhando as nuvens a passearem pelo céu, ou as águas do rio a correrem silenciosas. Os poucos homens que nessa ocasião ali se achavam, pois estavam pela maior parte dispersos pelas matas ao longo da margem do rio ocupados em caçadas e pescarias, uns assavam peixe, ou muqueavam um lagarto, um tatu ou uma paca em fogueiras acendidas fora das tabas; outros consertavam suas armas, ou talhavam arcos e flechas, e os aparelhavam de vistosas penas; um outro, deitado de costas no chão, e esticando o arco com os pés, se divertia em mandar às nuvens uma flecha e vê-la voltar e cravar-se no mesmo lugar donde partira; outros enfim, nada absolutamente querendo fazer, dormiam a sesta, ou deixavam passar o tempo.
De repente ouviu-se de uma das extremidades do arraial dos índios uma gritaria imensa, que se foi propagando e ecoando por toda a aldeia. Os meninos saltaram ligeiramente fora da água e correram a se amoutar nas tabas, as mulheres largaram suas ocupações, e olhavam espantadas para todos os lados; os homens levantaram-se rapidamente com as armas na mão e acudiram ao ponto onde começara o alarma. A causa daquele grande alarido e celeuma era um homem de aspecto estranho que sozinho em uma canoa vinha vogando rio abaixo.
A figura e os traços já esfarrapados desse homem causaram grande estranheza e espanto aos selvagens. Trajava um grande gibão de lã grossa apertado com um cinturão de couro de lontra, ao qual se prendia uma comprida faca com cabo e bainha guarnecida de prata, calças de algodão, e perneiras de couro de mateiro; trazia a barba mui comprida e sobre os cabelos pretos e anelados um pequeno chapéu de sola. Posto que sua tez naturalmente morena estivesse tisnada ainda pelo sol, e viesse armado de arco e flechas, os selvagens apenas o avistaram, exclamaram: — Imboaba! Imboaba! — e esta palavra odiosa, passando de boca em boca em uma imensa vozeria, repercutiu como um eco pelas ribanceiras do Tocantins.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.