Por Bernardo Guimarães (1865)
Deixai correr nas sombras do mistério
Seus tristes dias: - triste é seu destino,
Como o luzir de mombunda estrela
Em céu caliginoso.
Tal é seu fado; - o anjo d'harmonia
C'uma das mãos lhe entrega a lira d'ouro,
Noutra lhe estende o cálix da amargura.
Bem como o incenso, que só verte aromas
Quando se queima, e ardendo se evapora,
Assim do vate a mente
Aquecida nas fráguas do infoitúnio,
Na dor bebendo audácia e força nova
Mais pura ao céu se arrouba, e acentos vibra
De insólita harmonia.
Sim - não turbeis os seus celestes sonhos,
Deixai, deixai sua alma isenta alar-se
Sobre as asas do êxtase divino,
Deixai-a, que adejando pelo empíreo
Vá aquecer-se ao seio do infinito,
E ao céu roubar segredos de harmonia,
Que sonorosos troem
D'harpa sublime nas melífluas cordas.
Mas ei-la já quebrada, -
Ei-la sem voz suspensa sobre um túmulo,
Essa harpa misteriosa, qu'inda há pouco
Nos embalava ao som de endeixas tristes
Repassadas de amor e de saudade.
Ninguém lhe ouvirá mais um só arpejo,
Que a férrea mão da morte
Pousou sobre ela, e lhe abafou pra sempre
A voz das áureas cordas.
Porém, ó Dutra, enquanto lá no elísio
Saciando tua alma nas enchentes
Do amor e da beleza, entre os eflúvios
De perenais delícias,
E unido ao coro dos celestes bardos,
O fogo teu derramas
Aos pés de Jeová em gratos hinos,
A glória tua, teus eternos cantos,
Quebrando a mudez fúnebre das campas
E as leis do frio olvido, com teu nome
Através do porvir irão traçando
Um sulco luminoso.
Esperança
Espère, enfant! - demain! - et puis demain encore;
Et puis, toujours demain! (V. Hugo)
Singrando vai por mares não sulcados
Aventureiro nauta, que demanda
Ignotas regiões, sonhados mundos;
Ei-lo que audaz se entranha
Na solidão dos mares - a esperança
Em lisonjeiros sonhos já lhe pinta
Rica e formosa a terra suspirada,
E corre, corre o nauta
Avante pelo páramo das ondas;
Além um ponto surde no horizonte
Confuso - é terra! - e o coração lhe pula
De insólito prazer.
Terra! - terra! - bradou - e era uma nuvem!
E corre, corre o nauta
Avante pelo páramo das ondas;
No profundo horizonte os olhos ávidos
Ansioso embebe; - ai! que só divisa
Ermos céus, ermas ondas.
O desalento já lhe coa n'alma;
Oh! não; eis nos confins lá do oceano
Um monte se desenha;
Não é mais ilusão - já mais distinto
Surge acima das ondas - oh! é terra!
Terra! - terra! - bradou; era um rochedo,
Onde as ondas batendo eternamente
Rugindo se espedaçam.
Eis do nosso passar por sobre a terra
Em breve quadro uma fiel pintura;
É a vida oceano de desejos
Intérmino, sem praias,
Onde a esmo e sem bússola boiamos
Sempre, sempre com os olhos enlevados
Na luz desse fanal misterioso,
Que alma esperança mostra-nos sorrindo
Nas sombras do porvir.
E corre, e corre a existência,
E cada dia que cai
Nos abismos do passado
É um sonho que se esvai,
Um almejo de noss'alma,
Anelo de felicidade
Que em suas mãos espedaça
A cruel realidade;
Mais um riso que nos lábios
Para sempre vai murchar,
Mais uma lágrima ardente
Que as faces nos vem sulcar;
Um reflexo de esperança
No seio d'alma apagado,
Uma fibra que se rompe
No coração ulcerado.
Pouco e pouco as ilusões
Do seio nos vão fugindo,
Como folhas ressequidas,
Que vão d'árvore caindo;
E nua fica nossa alma
Onde a esp'rança se extinguiu,
Como tronco sem folhagem
Que o frio inverno despiu.
Mas como o tronco remoça
E torna ao que d'antes era,
Vestindo folhagem nova
Co volver da primavera,
Assim na mente nos pousa
Novo enxame de ilusões,
De novo o porvir se arreia
De mil douradas visões.
A cismar com o futuro
A alma de sonhar não cansa,
E de sonhos se alimenta,
Bafejada da esperança.
Esperança, que és tu? Ah! que minha harpa
Já não tem para ti sons lisonjeiros;
Sim - nestas cordas já por ti malditas
Acaso tu não ouves
As queixas abafadas que sussurram,
E em voz funérea soluçando vibram
Um cântico de anátema?
Chamem-te embora bálsamo do aflito,
Anjo do céu que nos alenta os passos
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Canto da solidão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17319 . Acesso em: 23 fev. 2026.