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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

A pouca distância desse mar sereno e amoroso, que lambe as brancas orlas da voluptuosa Niterói, se levanta uma graciosa casa cercada de lindos jardins e meio escondida por trás de sibilantes casuarinas e frondosas mangueiras e, olhando como namorada para a cidade do Rio de Janeiro, defronte da qual se terminam seus curtos e floridos domínios por um gradil a cavaleiro do mar, para quem abre passagem engraçado pórtico campestre ladeado de bancos de relva. Alta ia a noite; o silêncio das dez horas derramava não sabemos que feiticeiro encanto sobre essa pequena e ditosa cidade, adormecida ao clarão de cheio luar, por entre seus vales e bosques, pelas encostas dos seus montes, e com uma de suas faces banhadas por mansinhas ondas, e toda ela enfim embalada no seu dormir pelo sussurrar dos zéfiros, que velavam galanteando as flores de seus mil jardins.

Mas, contrastando com esse geral silêncio, como dois belos gênios da noite, duas moças conversavam recostadas a uma janela da casa, que ficou acima nomeada; perto e defronte delas um pé de casuarina se elevava, a lua penetrando por entre seus galhos espargia-se gostosa sobre os semblantes de ambas. Ao clarão do luar pareciam igualmente pálidas, e em descuidadoso alinho, que a hora e solidão desculpava, longas madeixas, negligentemente soltas, caíam como espessa nuvem negra sobre espáduas cor de leite; dir-se-iam duas sombras encantadoras e belas. Depois de separação dilatada, essas duas moças de novo se abraçavam; quem sabe, quem tem sido testemunha do afã com que se dizem mil coisas duas amigas da infância, que há muito tempo se não vêem, compreenderá facilmente o porquê velavam a tais desoras Honorina e Raquel.

Depois de longos meses passados no campo, Honorina, a jovem romântica de quem Félix havia dado notícias, tornava para a sua bela corte, e pela primeira vez a sós com Raquel, a camarada de seus jogos da infância, a companheira de suas travessuras de criança, a comadre de suas bonecas, ela esquecia que a noite corria, e conversavam juntas.

Um momento tinham ficado ambas em silêncio, quando Raquel, que até então só tivera de responder à sua amiga, entendeu que cumpria por sua vez interrogar.

— Mas, Honorina, doravante deixarás tu de ser freira?...

— Devo crer que sim, Raquel; pois que é morto meu avô, e meu pai não olha para o mundo como o encarava aquele.

— Pois bem, tu vais ser a bela princesa das nossas festas.

— Pensas isso?...

— Com tão lindos olhos, e tão belo rosto, disse Raquel dando-lhe um beijo, impera-se nas sociedades, e escolhe-se um escravo para marido.

— Mas casar-me-ei eu?...

— Que pergunta! terás medo de não encontrar quem jure que te ama?...

— Quem sabe?... e também, Raquel, chegarei eu a amar?...

— Em conclusão, e ainda que tu e eu fossemos feias, é tudo isso muito indiferente para acharmos quem nos proteste amar e queira casar conosco.

— Mas por quê?...

— Porque somos ricas.

— Oh, Raquel, isso é horrível!...

— E, todavia, nada há neste mundo mais verdadeiro, e como é neste mundo que devemos viver, devemos dar graças a Deus, que nos deu fortuna e riqueza.

— Permita Deus, Raquel, que tu me estejas mentindo; porque eu teria vergonha de viver num mundo como esse.

— Escuta, Honorina, a diversidade dos nossos pensamentos a tal respeito nasce da diferença de educação com que se nos fez crescer. Ambas temos dezesseis anos; mas tu és muito mais nova que eu. Nossos pais amam-nos com amor igual, quiseram ambos dar-nos a maior felicidade possível; ricos, como são, desejariam que nós tivéssemos todas as prendas peculiares do nosso sexo, e, mais ainda, que o nosso espírito fosse afincadamente cultivado, de modo que nós adquirimos o dobro da instrução que devem ter as nossas patrícias com a educação ordinária.

— Raquel, continua.

— Mas, para conseguir esse fim, nós trilhamos caminhos absolutamente opostos; começarei por ti, Honorina. Tu tinhas um avô, que te idolatrava com excesso, homem do século passado, que chegara até ao nosso com todas as velhas idéias firmes e inabaláveis. Ele combateu a vontade de teu pai, opôs-se ao gênero da educação que se te queria dar, e, para que este conseguisse ver-te instruída, foi preciso conceder que toda a instrução te fosse dada debaixo dos olhos de teu avô. Esse bom velho via o mundo cheio de mentiras e traição, de perigos e de enganos; e, tremendo pelo seu querido anjo, temendo que o bafo do vício manchasse a flor do seu coração, ele te escondeu dos homens; tu eras a sua bela violeta... modesta, oculta entre as suas folhas; providente, ele fugia contigo em sua alma, quando sonhava um perigo; escolhia a casa em que devias passar uma só hora em uma noite; cobria-te o rosto com um véu para te levar à igreja; tinha os olhos fitos sobre os teus mestres; ensinou-te a amar a virtude no seio da solidão; tu cresceste; aos quinze anos eras bela, sem saber que o eras; alegre, sem conhecer o mundo, pura e inocente como a florzinha; porque enfim nunca se tinha queimado a teus pés o turíbulo lisonjeiro dessas reuniões perigosas, onde reina uma febre de vaidade tão fatal como contagiosa; porque enfim nunca falara a teus ouvidos o galante mancebo que jura quando mente; que festeja quando atraiçoa; que diz que ama, e vai rir-se!

— Oh! foi assim! exclamou Honorina abraçando sua amiga.

Raquel cotinuou:

(continua...)

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