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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1670)

126. Isto é, Senhor, o que prudentemente ensina a política humana, confirmada mais altamente com os documentos da sagrada, que tenho referido; o meio porém que sobre todos represento e ofereço a Vossa Alteza, para a feliz administração do cetro, que com particular providência pôs nas reais mãos de Vossa Alteza a divina, é o exemplo do Filho de Deus nas palavras que tomei por tema, tão próprias do tempo, circunstâncias e ocasião presente, que parecem ditadas e escritas só para ela. Negou Cristo aos dois irmãos os lugares que pediam, e o meio com que lhes adoçou a eles o não, e com que o fez decoroso e decentíssimo para si, foi com alegar os decretos e disposições de seu pai: Non est meum dare vobis, sed quibus paratum est a Patre meo: Não é meu – diz o Senhor – conceder-vos o que pedis, porque esses lugares já meu Pai os decretou para outros, – e assim como dele herdei o poder, assim dele hei de seguir e confirmar os decretos. Isto é o que devem imitar os príncipes herdeiros, e tanto mais gloriosamente, quanto filhos de pais mais gloriosos. É conseqüência natural, que, com o sol que se põe, se escureçam uns lugares, e com o que nasce se alumiem outros, e esta é a alva ou o alvo das pretensões no oriente dos reis que começam, e ocaso dos reis que acabam. Mas o príncipe que teve a fortuna de suceder a um pai tão digno das saudades dos vassalos, como da imitação dos filhos, com se referir às eleições de seu pai, se livra de inovar outras. Se João e Diogo, o a por si ou por outrem, fizerem instâncias, responda com o formulário do Rei dos Reis: Non vobis, sed quibus paratum est a Patre meo; e ser-lhe-á tão fácil o não, como decoroso e reverente.

127. Haverá; não duvido – como sempre há nos novos reinados – ambições desejosas de se introduzir, que aconselhem e persuadam o contrário. Mas quais sejam os efeitos destas novidades que tão docemente se ouvem, e tão facilmente se abraçam, bem o podem ver os conselheiros e os aconselhados, e sacramentar – se quiserem – no novo e infausto reinado de Roboão, filho de el-rei Salomão, por cuja morte o juraram todas as doze tribos de Israel nas cortes de Siquém. Assentaram também nas mesmas cortes pedir ao novo rei os aliviasse dos tributos que pagavam no tempo de seu pai, os quais, por ocasião das fábricas, assim do Templo como dos palácios reais, e muito mais pela excessiva despesa com que Salomão sustentava tanto número de rainhas, chegaram a ser insuportáveis. Feita esta petição, diz o texto sagrado que chamou Roboão a conselho os velhos do tempo de seu pai, e que todos lhe aconselharam concedesse benignamente aos povos o que tão justamente pediam, porque assim lhes ganharia as vontades, e se conservaria no reino. Não se aquietando porém Roboão com este conselho, diz o mesmo texto que consultou o negócio com os moços, com quem se tinha criado e o assistiam, e que, aconselhado por eles, respondeu ao povo que o seu dedo meiminho era mais grosso que seu pai pela cintura, e que, conforme esta diferença da sua grandeza, não só lhes não havia de moderar o açoite dos tributos, mas que, se as correias no tempo de seu pai eram de couro, no seu haviam de ser de ferro: Pater meus caecidit vos flagellis, ego autem caedam vos scorpionibus.23 Este foi o conselho, e esta a resposta e o sucesso em suma, qual se podia esperar de tal resposta e de tal conselho. Porque das doze tribos que juraram a Roboão por rei, as dez lhe negaram logo a obediência, e a deram a Jeroboão, criado que tinha sido de seu pai, querendo antes ser vassalo de um criado de Salomão, que de um tal filho de Salomão.

128. E se buscarmos a origem de tão infeliz e desastrado sucesso, em que um rei, sem batalha, perdeu as dez partes do seu reino, para si e para todos seus descendentes, em uma hora, acharemos que foi por não querer conservar os ministros antigos que assistiam ao lado de seu pai, e tomar outros. Assim o diz e pondera a Escritura: Reliquit consilium senum qui assistebant coram Salomone patre ejus, cum adhuc viveret, et adhibuit adolescentes, qui nutriti fuerant cum eo, et assistebant illi.24 Notai este e aquele assistebant. A causa próxima da ruína de Roboão foi deixar o maduro conselho dos velhos experimentados, e tornar o dos moços orgulhosos e sem experiência. Mas a origem dessa mesma causa esteve num passo mais atrás, que foi mudar os ministros que assistiam ao lado de seu pai: Qui assistebant coram Salomone patre ejus; e criar de novo aqueles com que se tinha criado, para que o assistissem a ele: Qui nutriti fuerant cum eo, et assistebant illi. A última decocção dos negócios faz-se entre ministros que estão ao lado dos reis, como se viu neste mesmo caso, e se os mesmos que assistiam a Salomão assistissem a seu filho, o voto destes havia de ser o que prevalecesse, e os povos ficariam contentes, o reino inteiro, o rei obedecido e amado, e Roboão, que dizia que era maior que seu pai, tão grande como ele.

(continua...)

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