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#Sermões#Retórica

Sermão da Sexagésima

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Pois o gostarem ou não gostaremos ouvintes! Oh! que advertência tão digna! Que médico há que repare no gosto do enfermo quando trata de lhe dar saúde? Sarem, e não gostem; salvem-se, e amargue-lhes, que para isso somos médicos das almas. Quais vos parecem que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evangelho? Explicando Cristo a parábola, diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto: Hi sunt qui cum goudio suscipiunt verbum. Pois será bem que os outros ouvintes gostem, e que no cabo fiquem pedras? Não gostem, e abrandem-se; não gostem, e quebrem-se; não gostem, e frutifiquem. Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra: Et fructum afferunt in patientia, conclui Cristo26. De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar, senão com o padecer; frutifiquemos nós, e tenham eles paciência. A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme, quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte, quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atônito, sem saber parte de si, então é a pregação qual convém, então se pode esperar que faça fruto: Et frucium afferunt in patientia.

Enfim, para que os pregadores saibam como hão de pregar, e os ouvintes a quem hão de ouvir, acabo com um exemplo de nosso Reino, e quase de nossos tempos. Fregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos: não os nomeio porque os hei de desigualar. Altercou-se entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador, e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador, quando ouço outro, saio muito descontente de mim. Com isto tenho acabado. Algum dia vos enganastes tanto comigo que saíeis do sermão muito contentes do pregador; agora quisera eu desenganarvos tanto, que saíreis muito descontentes de vós. Semeadores do Evangelho, eis aqui o que devemos pretender dos nossos sermões: não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos, mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições, e enfim todos os seus pecados. Contanto que se descontentem de si, descontentem-se embora de nós. Si hominibus placerem, Christi servus non essem (Gal. 1, 10), dizia o maior de todos os pregadores, S. Paulo: Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus. – Oh! contentemos a Deus, e acabemos de não fazer caso dos homens! Advirtamos que nesta mesma igreja há tribunas mais altas que as que vemos: Spetaculum facti suminus Deo, angelis et hominibus27. Acima das tribunas dos reis, estão as tribunas dos anjos, está a tribuna e o tribunal de Deus, que nos ouve e nos há de julgar. Que conta há de dar a Deus um pregador no dia do juízo? O ouvinte dirá: não mo disseram; mas o pregador? Vae mihi, quia tacui (Is. 6,5): Ai de mim que não disse o que convinha! – Não seja mais assim por amor de Deus e de nós. Estamos às portas da quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum.

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