Por Eça de Queirós (1940)
Isto deu origem a uma cena medonha. O sultão foi então informado de tudo que ignorava e vivamente solicitado de demitir Redif.
De sorte que o pobre homem vê-se neste dilema pavoroso: se conserva Redif, a indignação cresce e à primeira notícia de derrota há uma revolução; se o demite, perde o seu único apoio, e os amigos do ex-sultão Murad, ex-doente, reclamarão logo a »sua reinstalação no trono.
Tudo isto traz o palácio no ar e Constantinopla num estado de desvario. Como sabem, um dos actos da ditadura de Redif foi a prorrogação do parlamento turco: as câmaras estavam-se tomando um formidável centro de oposição: houve tantos discursos francos e atrevidos na câmara, aprovaram-se tantas ordens do dia, condenando os desperdícios e as desorganizações, houve tantas propostas para julgar os empregados corruptos e os generais idiotas que a corte começou a ver na câmara um inimigo e o povo uma esperança.
Portanto a corte tratou de se desembaraçar das câmaras. Daqui novo descontentamento contra o sultão.
Estes detalhes são importantes, porque eles formam a curiosa história de uma decadência... e é interessante seguir a vida política e social de Constantinopla para estudar como acaba uma dinastia maometana.
No quartel-general russo houve um incidente infeliz. O grão-duque Nicolau, comandante-chefe, recebeu o coronel Wellesley, adido militar inglês, attaché ao exército do Danúbio, com uma descortesia tão manifesta, que Lorde Derby imediata-mente pediu explicações. O czar então recebeu o coronel Wellesley e, pelo seu acolhimento cordial e distinto, apagou a impressão que fez na sociedade inglesa a grosseria do grão-duque. Diz-se a este respeito, à boca pequena, que o coronel Wellesley tem um defeito: não retém as suas pilhérias. Tem espírito e espalha-o. Em Sampetersburgo não se privava, em todos os salões, de fazer as mais malignas observações sobre a Rússia, os Russos e, especialmente, o estado-maior.
Na Rússia, por trás de cada parede está o ouvido da polícia. O imperador soube isto e encarregou o grão-duque de mostrar ao engraçado coronel que os seus ditos eram um pouco deslocados em território russo; ele mesmo, mais tarde, por um acolhimento gentil, dissipou a nuvem que aquela lição pudesse causar em Londres. O coronel fica assim avisado, e tudo serena.
Aqui crê-se geralmente que o Governo inglês pedirá brevemente à câmara um crédito suplementar de cinco milhões para o orçamento da guerra. Isto causa inquietação. Os amigos do Governo tratam de explicar este pedido como uma precaução prudente, semelhante à que se teve no tempo da guerra franco-prussiana.
A independência da Bélgica esteve então ameaçada, e Gladstone pediu à câmara um crédito de alguns milhões, para habilitar o Governo a ocupar Anvers se fosse necessário.
Hoje, diz-se, o canal de Suez pode ser ameaçado e é preciso estar habilitado para fazer uma ocupação imediata. Os inimigos do Governo, porém, afirmam que este crédito é uma visível preparação de intervenção, que tem por fim habilitar Disraeli a levar por diante os seus planos aventurosos de guerra e de conquista. Diz-se que o conselho de ministros em que ele fez este pedido foi tempestuoso; que parte dos seus colegas se opuseram energicamente, e que daqui resultaram graves desinteligências no ministério e um germe de crise próxima.
Uma historieta política que tem chique. Parece evidente que Burghers, presidente da República do Transval, tinha pelo príncipe de Bismarck um fanatismo extraordinário e que, num ímpeto de entusiasmo, escreveu ao príncipe oferendo-lhe, de mão a mão, a República do Transval. O príncipe, espantado, embaraçado com o presente, não querendo p república para nada, participou isto ao Governo inglês; à vista disto, o Governo inglês, vendo aos seus pés uma república sem dono, oferecida por um, recusada por outro, fez o que era natural – suprimiu o presidente Burghers e meteu no bolso a república.
Os dois grandes escândalos da quinzena foram provocados por dois livros: um de ordem religiosa e outro de ordem moral. Ambos eles são graves sintomas, e a excitação que os dois casos tem provocado na imprensa, nas revistas e na opinião prova que se vê nesses dois livros mais do que expressões individuais e isoladas de opiniões nocivas.
O que causou mais barulho foi o livro de ordem religiosa, o Priest in Absolution; este livro, que se deveria chamar «O Padre e a Confissão», é simplesmente uma exposição do velho sistema católico, a dominação do padre na família pela sua influência na mulher. Ensina-se nele como o padre se deve apossar do espírito fraco da esposa ou da filha, dominá-lo, reinar nele, e por ele estar senhor da fortuna, das opiniões, dos actos do homem. Podem imaginar o alarido que o descaramento desta doutrina, impressa em panfleto, causou na protestante Inglaterra.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.