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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

No entanto o Inverno sobreveio. Os caminhos estavam brancos de neve. E sobre os ramos descarnados e nus, os pássaros caíam mortos. Uma tarde o pai de Cristóvão voltou pálido da floresta, e sentou-se à porta a olhar o Sol que descia ao fundo do vale. Cristóvão estava adiante, sentado, encabando toscamente uma lâmina de foice. Quando o Sol se sumiu sentiu por trás um gemido: voltou-se: - o pai estava com a cabeça caída contra a parede da casa, a mão sobre o coração. De noite, os gritos de Cristóvão atroavam na aldeia. Vieram homens com forquilhas, mulheres encolhidas nos mantéus, erguendo, diante da face, uma lanterna. O cadáver estava estirado no chão sob um lençol. E à porta, que enchia com seu vasto corpo, Cristóvão chorava estridentemente.

Dois dias, duas noites, Cristóvão ficou estendido à porta com a face contra o chão: por vezes um soluço sacudia-o todo; depois a sua imensa forma era tão imóvel como os roncos em redor, derrubados e rígidos. O Inverno e a fome tinham espalhado pelos caminhos gente sinistra, que assaltava os casebres. Um bando veio sutilmente numa dessas noites: e, penetrando pela janela aberta, roubou tudo dentro, os vestidos, as ferramentas, o grão da arca, as roupas do catre – enquanto prostrado, Cristóvão ressonava lentamente, como o ruído de um rio na escuridão.

De manhã, vendo o casebre vazio, Cristóvão desarraigou um choupo novo, limpou-o de todos os ramos, e apoiando-se ao vasto tronco subiu pelo monte, desapareceu.

VI

Durante um ano viveu na serra. E pouco a pouco, naquela solidão, longe de toda a vida humana, ele quase perdeu a sua humanidade, e foi como um pedaço da montanha que o cercava. Sentado durante dias, imóvel, os seus grossos membros broncos não se distinguiam das rochas: o mesmo vendaval esguedelhava-lhe os cabelos e as ramarias das árvores: e a sua voz, quando se erguia, confundia-se com rugir das torrentes. As feras não tinham medo dele; as aves pousavam sobre os seus braços como sobre os troncos dobrados. A serra era solitária. Outrora vivera lá um ermita, mas as penitência tinham-no extenuado. Um anjo descera a buscá-lo, e a cabana que ele habitava desfizera-se, prancha a prancha, sob os chuveiros de Inverno. Durante um ano Cristóvão não vira um olhar humano pousar-se nele, nem uma voz humana tinha alegrado o seu coração.

Quase esquecera os homens: e no seu espírito simples apenas muito confusamente restava a memória dos casais, dos lugares e das crianças rindo atrás da sebe. Os seus dias passava-os imóvel, olhando: por vezes movia um braço com a lentidão de um ramo sacudido da aragem: e quando os trovões estalavam, erguia um instante a face para o céu; depois, recaía na sua imobilidade.

Um dia, porém, sentiu tilintar guizos, e vozes que falavam. E por trás de umas rochas surgiu uma fileira de mulas carregadas que homens armados conduziam. Como a noite descia, os homens pararam numa clareira: daí a pouco ardia um fogo claro, tapetes juncavam o chão, e os homens sentados em roda, passavam de mão em mão um pichel de vinho. Cristóvão toda a noite, de entre a floresta , os espreitou: - e uma curiosidade infinita tomava-o de ouvir de perto as suas falas, beber do pichel, aquecerse do fogo claro. Se eles quisessem , ele conduziria alguns dos fardos.

Um estranho, singular impulso o levara a querer bem àqueles homens – e toda a noite rondou para que as feras não atacassem o rancho.

De manhã, eles enrolaram os tapetes: a longa fila de machos desceu a encosta, e os guizos que tilintavam perderam-se pelas quebradas.

Então, um frio estranho, um frio que ele não compreendia, que não vinha do

vento, nem da neve, arrefeceu Cristóvão até o coração. E, através da sua simplicidade, sentia que não teria tanto frio, se ouvisse outras vezes vozes humanas, e os passos de animais conduzindo fardos, e uma fogueira acesa por mãos de homens.

Começou então a percorrer a serra, os desfiladeiros, os barrancos, os vales, os bosques, as rochas que conhecia. E de cada vez aquela sensação de frio o mordia tanto, e tanto, que subitamente se sentiu como exausto: a cabeça pendeu-lhe entre as mãos e grandes lágrimas rolaram-lhe pela face. A tarde caía; a noite veio, cheia de estrelas. E Cristóvão, imóvel, sentia, através das lágrimas, surgirem-lhe como visões de coisas desvanecidas, uma velha carregada de lenha, e arquejando sob o fardo; crianças que não podiam passar um rio; uma junta de bois que não podia puxar um carro carregado e pedras. E um desejo imenso vinha-lhe de sacudir aquele frio, trabalhando, carregando o fardo da velha, ajudando a junta de bois. Tomou o seu cajado e começou a descer a serra.

VII

Uma tarde, na fonte, as mulheres viram como uma torre que avançava: as mais novas fugiram de medo, mas outras mais velhas erguiam as mãos e diziam: “É

Cristóvão! É Cristóvão!”



(continua...)

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