Por Eça de Queirós (1900)
- Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dose de Cavaleiro, e valente! Somos todos muitoboas pessoas e só nos resta debandar. Eu tive senhora, tive tainha... Estou derreado. E não tarda a madrugada. que vergonha!
O Administrador pulou. Oh diabo! E ele. às nove horas da manhã, com comissão de recenseamento!... Para esmagar bem o amuo, cingiu Gonçalo num rijo abraço. E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz com o Videirinha (que nestas noites festivas de Vila-Clara o acompanhava sempre pela estrada até o portão da Torre), João Gouveia ainda se voltou, pendurado do braço do Titó no meio da Calçadinha, para lhe lembrar um preceito moral "de não sei que filósofo":
- "Não vale a pena estragar boa ceia por causa de má política..." Creio que é de Aristóteles!
E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados arpejos:
- Não vale a pena, Sr. Doutor... Realmente não vale a pena, porque em Política hoje é branco, amanhã é negro, e depois, zás, tudo é nada!
O Fidalgo encolhera os ombros. A Política! Como se ele pensasse na Autoridade, no Sr. Governador Civil de Oliveira - quando injuriava o Sr. André Cavaleiro, de Corinde! Não! O que detestava era o homem - o falso homem de olho langoroso! Porque entre eles existia um desses fundos agravos que outrora, no tempo dos Tructesindos, armavam um contra o outro, em dura arrancada de lanças, dois bandos senhoriais... - E pela estrada, com a lua no alto dos outeiros de Valverde, enquanto no violão do Videirinha tremia o choro lento do fado do Vimioso, Gonçalo Mendes recordava, aos pedaços, aquela história que tanto enchera a sua alma desocupada. Ramires e Cavaleiros eram famílias vizinhas, uma com a velha torre em Santa Irenéia, mais velha que o Reino - a outra com quinta bem tratada e rendosa em Corinde. E quando ele, rapaz de dezoito anos, enfiava enfastiadamente os preparatórios do Liceu, André Cavaleiro, então estudante do Terceiro Ano, já o tratava como um amigo sério. Durante as férias, como a mãe lhe dera um cavalo, aparecia todas as tardes na Torre; e muitas vezes, sob os arvoredos da quinta ou passeando pelos arredores de Bravais e Valverde, lhe confiava, como a um espírito maduro, as suas ambições políticas, as suas idéias de vida que desejava grave e toda votada ao Estado. Gracinha Ramires desabrochava na flor dos seus dezesseis anos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a "Flor da Torre". Ainda então vivia a governante inglesa de Gracinha, a boa Miss Rhodes - que, como todos na Torre, admirava com entusiasmo André Cavaleiro pela sua amabilidade, a sua ondeada cabeleira romântica, a doçura quebrada dos seus olhos largos, a maneira ardente de recitar Victor Hugo e João de Deus. E, com essa fraqueza que lhe amolecia a alma e os princípios perante a soberania do Amor, favorecera demoradas conversas de André com Maria da Graça sob as olaias do Mirante e mesmo cartinhas trocadas ao escurecer por sobre o muro baixo da Mãe-d'Água. Todos os domingos o Cavaleiro jantava na Torre: e o velho procurador Rebelo já preparara, com esforço e resmungando, um conto de réis para o enxoval da "menina". O pai de Gonçalo, Governador Civil de Oliveira, sempre atarefado, enredado em Política e em dívidas, amanhecendo só na Torre aos domingos, aprovava esta colocação de Gracinha, que, meiga e romanesca, sem mãe que a velasse, criava na sua vida, já difícil, um tropeço e um cuidado. Sem representar como ele uma família de imensa Crônica, anterior ao Reino, do mais rico sangue de Reis godos, André Cavaleiro era um moço bem-nascido, filho de general, neto de desembargador, com brasão legítimo na sua casa apalaçada de Corinde, e terras fartas em redor, de boa semeadura, limpas de hipotecas... Depois, sobrinho de Reis Gomes, um dos chefes históricos, já filiado no Partido Histórico (desde o Segundo Ano da
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.