Por Camilo Castelo Branco (1862)
E capelas de búzios e de conchas...
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O poeta ensina, nesta passagem, a amar as ninfas; e eu, afeitio à nomenclatura da escola arcadiana, pensei que ninfa era um epíteto genérico para toda a mulher que se ama.
Com este errado juízo, entendi em mandar a Paula Festões, grinaldas, passarinhos, frutos, E capelas de búzios e de conchas.
Acorçoado pelo Ovídio português, comprei na Praça da Figueira muita flor, de que mandei tecer uma grinalda, muito de ver-se; num cabazinho de palha italiana dispus seis pêssegos aveludados, de cobiçável frescura; búzios não me foi possível arranjá-los, nem conchas; no tocante, porém, ao preceito dos passarinhos, fui muito feliz: comprei um lindo periquito na Rua do Arsenal. Fiz mais.
Chamei à puridade uma jovem e sécia saloia de Benfica, brindei-a com a saia escarlate listrada e um corpete de castorina amarela; enflorei-lhe os cabelos e enramalhetei-lhe o colo. Nunca vi coisa mais fresca, nem mais bucólica medianeira do amor dum sátiro urbano a uma ninfa saturada da lição de maviosos idílios, como é já notório.
Industriei a moça no modo de apresentar à fidalga Festões, grinaldas, passarinhos, frutos.
Devia ser à hora em que ela descia ao jardim, que uma gradaria separava da estrada. Melhor do que eu antevira se ocasionou o ensejo da entrega. D. Paula reparou na esbelta saloia, que tinha em uma das mãos o cabaz e na outra a gaiola.
- Ai! Um papagaio! - exclamou a menina. - Isso é para vender?
- Não, minha senhora - disse a saloia -, é para dar à senhora fidalga.
- A mim?! Quem me manda isto?!
- Vossa Excelência verá numas letrinhas que vêm aqui entre as flores.
- Letrinhas!? Quem é que me escreve? Você não sabe o nome da pessoa?
- Não, minha senhora: mas o senhor que me cá mandou disse-me que aceitasse Vossa Excelência o periquito, e as flores, e os pêssegos, e, se não quisesse a carta, que a rasgasse.
- Os pêssegos! - exclamou a fidalga. - Quem é que me manda pêssegos?!
- É ele - tornou a saloia.
- Leve, leve - acudiu D. Paula -, que não aceito nada.
- Pois eu tenho ordem de deixar ficar tudo - replicou a saloia, pousando sobre a padieira duma porta interposta na gradaria o cabaz e a gaiola.
A este tempo assomou numa janela o pai da menina, perguntando o que vinha a ser o cesto e o pássaro que estava sobre a porta. D. Paula, dominando rapidamente o sobressalto da surpresa, disse que fora a prima Piedade que lhe mandara aquele periquito e o cestinho das flores. O pai, que era amigo de periquitos, desceu ao jardim; e, no entanto, a filha escondeu a carta, que ia presa à grinalda com um laço de fita encarnada. O velho, examinada a ave, passou a espreitar o cabaz; e, como visse os convidativos pêssegos, que eram seis, comeu três com sôfrega delícia, deu um à filha, e guardou dois nas algibeiras do robe de chambre. Paula, para ler a carta, escondeu-se num caramanchel. A prosa vil seria descabida em cena tão eminentemente poética. Era, pois, em verso a minha carta, que, segundo os ditames da poética de Aristóteles e Longino, devo chamar epístola e não carta. A qual epístola foi ainda o sonoro Castilho que me induziu a escrevê-la com os seguintes ditames da citada Promavera:
Formaremos cantigas, em que aos ecos
Dos campos entre a lida repitamos
As perfeições, os méritos, os nomes
Das Napeias, etc.
E noutra passagem:
Depois que pouco e pouco transformado
Se houver em confiança o pejo, o susto,
Mudaremos de estilo: em nossos versos,
E só, e de contínuo a formosura
Em fogo nos porá do estro as asas.
Hão de sorrir-se e comprazer-se, e muitas
Suspenderão em seu caminho os passos.
É a lei sem exceção; domina em todas
A sede, a glória, de chamar-se belas
Não entendi à letra o primeiro aviso, que diz: Formaremos cantigas. Pareceu-me que eu seria estranhamente recebido, se me andasse por Benfica em serenatas, que este século de ferro moteja, com bazóifia de ilustrado, ilustração oca e estéril, que funda toda em regalos corporais, despe o coração da sua poesia nativa e tira ao amante o suave desafogo de formar ao século, em vez de cantigas, poetei em verso hen decassílabo, predominando no sáfico, alternando com o alexandrino, e intercalando tudo de estribilhos de redondilha menor. Era cataplasma para fazer supurar o coração mais cru!
IV
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.