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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

O filho único de Romão dos Santos recebeu em upas de alegria a notícia da sua incapacidade para soletrar nomes de três silabas. No dia seguinte, o pai mandou-o à feira dos nove com uma junta de bois. O rapaz efectuou a venda dos bois com tamanha astúcia e vantagem que logo dali se deu a conhecer a sua vocação. Uma segunda mercancia robusteceu-lhe o crédito, que outras vieram confirmando, até que Romão deu ordem ilimitada de dinheiro a Eleutério para poder negociar em bezerros e vitelas.

Estava o rapaz neste auge de glorificação própria, e inveja dos vizinhos, quando faleceu a mãe de Teodora. A órfã, apenas sua mãe cerrou olhos, foi conduzida para casa de Romão, seu tio paterno. A criança ia lagrimosa e carecida de meiguices e consolações de alguma senhora que lhe falasse a linguagem polida à qual estava afeita.

Em casa de Romão havia somente a Srª Eleutéria Joaquina, criatura chã, que, a cada soluço da sobrinha, dizia quase sempre:

- Não chores, pequena; que a morte é portelo que todos temos de passar.

E, para não dizer sempre o mesmo, variava deste teor:

- Isto, como o outro que diz, é hoje tu, amanhã eu.

Eleutério, porém, menos versado em lugares-comuns de pêsames aldeãos, querendo consolar sua prima, tirou estas palavras do peito:

- Senhora prima, olhe que o chorar faz mal às meninas dos olhos. Deixe-se de estar a suspirar, que não lhe dá remédio. Agora o mais acertado é divertir-se pelas feiras.

Vem aí a de Vila Nova de Famalicão, onde eu levo vinte e duas juntas de bezerros. Se a senhora prima quiser, vamos comprar de meias algum gado, e deixe cá isso à minha vigilância, que eu, dentro de um ano, prometo dar-lhe dinheiro de ganho com que há-de comprar um grilhão de duzentos mil réis e umas arrecadas de lhe chegarem aos ombros. O mais quem morreu morreu, é ditado dos velhos.

- Quem morreu é rezar-lhe por alma - atalhou com má gramática, mas com piedosa intenção, o tio padre Hilário...

Teodora estava a rebentar de raiva quando Eleutério recolheu ao bucho das cruas sandices outras muitas que já lhe ferviam nos gorgomilos.

Aí está uma amostra de Eleutério Romão dos Santos.

O conselho de família deliberou o ingresso da órfã nas Ursulinas. A menina acolheu agradavelmente a notícia, por se desentalar assim da opressão do primo alvar, e da tia, mais boçal do que racionalmente se deve permitir à bondade de uma pessoa qualquer.

Logo que a mãe de Teodora morreu, o tio, que lhe conhecia o valor dos bens, lançou contas ao futuro e deu como realizável um casamento que vinha a ligar as duas casas maiores da freguesia. Custou-lhe a ceder que a pupila se lhe distanciasse de casa; mas os votos dos outros membros venceram, fundados na precisão de educar a menina, que fora criada com mestres, e de todo estranha à vida agrícola.

Entretanto, Romão predispôs o filho a cuidar seriamente no bonito arranjo, que lhe saía a talho de foice: estilo figurado e pitoresco em que são inventivos os nossos camponeses, e em que Romão primava sempre que tinha entre mãos algum bonito arranjo, o qual vinha a ser sempre um arranjo feio para o próximo.

Eleutério, ao principio, disse que a prima lhe parecia um arenque. Fundava o desdenhoso a sua critica na magreza delicada e cortesã de Teodora. Entre galãs da estofa de Eleutério, mulher de encher olho queria-se vermelhaça, alta de peitos, ancha de quadris, roliça e grossa de pulsos, com os queixos túmidos de gargalhadas estrídulas, e as facécias equivocas, e os estribilhos patuscos sempre engatilhados nos beiçosgrossos e oleáceos. Teodora era o invés de tudo isto.

Faz pena vir aqui a ponto o descrevê-la, quando o contraste lhe fica tão de perto. Teodora, aos dezasseis anos, era um modelo acabado de formosura, como raras se vos deparam nas raças patrícias, que o concurso de circunstâncias, umas espirituais, outras fisiológicas, aprimoraram. A palidez era nela o principal característico das belezas de eleição, à escolha de olhos onde parece que os nervos ópticos vêm da alma, e não do cérebro, a tecerem a retina. A mulher pálida é a que vem cantada em poemas e extremada em romances: ora, quando a poesia e prosa conspiram a dar a realeza do amar e padecer à mulher pálida, havemos de curvar-lhe o joelho, na certeza de que ela se fará amante e mártir, por amor do poema e do romance, ainda mesmo que a natureza lhe tenha temperado o coração de aço. Pode ser que semelhante cláusula, no decurso deste livro, acuda à retentiva do leitor.

(continua...)

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