Por Lima Barreto (1921)
O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências varias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido.
Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a insanidade de generalizar a eternidade do amor. Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o Sol varie a hora do seu nascimento.
Deixem as mulheres amar à vontade.
Não as matem, pelo amor de Deus!
Correia da Noite, Rio, 27-1-1915.
NÃO É POSSÍVEL
Deve ser muito agradável um cidadão não se meter em política; por isso eu pasmei quando soube que Carlos Maul estava metido nesse embrulho do Estado do Rio.
Para um poeta, para um artista, um homem de sonho, como é Maul, andar nessas atrapalhações tão baixas, tão vis, tão indecentes de negócios políticos, em que os textos mais claros são truncados, as verdades mais evidentes são negadas, não deve ser fonte de êxtase e emoção poética.
Imagino bem que Maul não tomou este ou aquele partido para ganhar sensações, para acumular impressões, no intuito de criar mais um poema que viesse figurar ao lado dos que já tem composto para exaltação de todos nós.
Sei bem que tem havido muitos artistas políticos, mas quando se fazem ministros, deputados, deixam de ser artistas ou, se continuam a sê-lo, são medíocres homens de Estado.
Chateaubriand tinha a mania de rivalizar com Napoleão como homem de Estado; a verdade, porém, é que de Chateaubriand só se sabe geralmente que escreveu Atala, René e outros livros magníficos.
A política, diz lá o Bossuet , tem por fim fazer os povos felizes. Terá Maul esse propósito?
Creio que não. Maul é moço, ilustrado, fez leituras avançadas, meditou e não há de acreditar que as mezinhas do governo curem mal de que sofre a nossa pobre humanidade.
O governo já deu o que tinha de dar; agora, é um agonizante, breve um cadáver a enterrar no panteão das nossas concepções.
Não direi que quem não acredita no Estado seja desonesto quando se propõe a tomar parte nas suas altas funções.
Não digo, porque sei de excelentes sacerdotes que continuam a cultuar os seus deuses, depois de perderem a fé neles. É que precisamos viver; e é difícil mudar de profissão de uma hora para outra.
Essa incursão de Maul na política não será duradoura e não ficaremos, certamente, privados do poeta, do magnífico poeta do Canto primaveril, para termos mais um energúmeno eleitoral das mesas do Jeremias.
Correio da Noite, Rio, 28-1-1915.
UM CONSELHO
Os nossos patriotas voltam a incomodar-se com as caricaturas que os jornais do Rio da Prata publicam, criticando coisas do Brasil.
A histeria patriótica se zanga com a coisa, expectora desaforos, brame e o Zé Povo pensa logo em agarrar as mausers63 da Intendência da Guerra, marchar sobre Buenos Aires e puxar as orelhas do desenhista.
Não sei porque semelhante aborrecimento; é verdade que o patriotismo é intolerante, por isso não pode permitir a mais ligeira crítica às coisas do seu culto ou um julgamento mais azedo.
Se lá aparecem desenhos em que o Brasil figure com pretos, os sábios cá de casa vociferam que aqui não há pretos.
Os diplomatas encarregam-se até de mandar os desenhos tidos como ofensivos para o Itamarati e a Secretaria do Exterior, pressurosa, envia-os aos jornais.
Eu trabalhava no Fon-Fon quando, com grande espanto meu, vi chegar um emissário do senhor Rio Branco, trazendo um desenho que quase desencadeou em guerra entre o Brasil e a Argentina.
É pueril semelhante estado de espírito. Não só porque uma caricatura representa um julgamento individual, como também as mais das vezes esse julgamento é certo.
As amabilidades que os principais países se trocam em caricaturas, estão a mostrar que o nosso modo de encarar essas coisas de desenhos jocosos deve ser muito outro.
Só podem ver injúria em tais clichés quem for obcecado pelo patriotismo a ponto de não pesar a verdade das suas críticas.
De resto os acontecimentos a que eles se referem, são públicos e toda a gente pode sobre eles expender os julgamentos que quiser.
Haveria um meio de impedir que tal se desse; era não permitir que os sucessos nacionais passassem as fronteiras.
Não seria má a medida que já deu excelentes resultados no Paraguai, na China e não sei se também no Afeganistão.
Era caso de experimentar, já que os exemplos acima mostram à sociedade o caminho a seguir, para evitar as irreverências dos caricaturistas estrangeiros. Correio da Noite, Rio, 29-1-1915.
AS MANGUINHAS DE FORA...
O que se está passando com o doutor Mário Valverde, comissário de higiene, e os padres redentoristas65 e crentes católicos, merece alguns reparos daqueles que, não sendo funcionários da higiene municipal e conscritos da religião romana, podem falar com alguma isenção de ânimo.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.