Por Coelho Neto (1890)
— Decididamente é melhor ser calceteiro ou condutor de bonde do que homem de letras em um país como este.
— Que houve? — perguntou o Duarte.
— Ora! a minha peça. O senhor Heller entende que devo arranjar umas coplas e um jogo para a comédia. Uma comédia de costumes, que joga com cinco personagens... O homem quer, a todo transe, que venham negros à cena com maracás e tambores, dançar e cantar. Imaginem vocês: um antropologista puxando fieira e uma senhora, que vive a cuidar a sua árvore genealógica como quem cuida de uma roseira, que mostra, com enfunado orgulho, os retratos dos avós a quantos freqüentam a sua casa, a cortar jaca desabaladamente. É ignóbil! Revolta! E querem teatro...
— E tu?
— Eu! Não cedo uma linha! A peça já está em ensaios e há de ir como a escrevi: sem enxertos. Diz ele que o público não aceita uma peça serena, sem chirinola e saracoteios... Mas que tenho eu com o público? Cruzou os braços e, ferrenho, encarou o estudante como se ele fosse a representação do próprio público ignaro que exigia aquelas misérias. Não hei de estar a fazer concessões vergonhosas simplesmente porque o nosso público, saturado de vícios, entende que o teatro deve ser como um templo devasso. Isso não!
— Mas a peça cai, observou prudentemente o Duarte.
— Que caia! Que o diabo a leve para o fundo do porão, mas não cedo! Saíram os três. O romancista remoía a sua indignação e, como se precisasse do ar da noite sempre pura, numa necessidade de agitação, frenético, irascível, resmungando, propôs um passeio. O luar seduzia. Que belo seria poder ficar uma hora à beira-mar, lançando os olhos pela vastíssima planície, toda de prata e trêmula, sentindo a aragem salitrada, ouvindo as cantilenas dos que partiam nos barcos, ao sopro amável da brisa, desdobrando as redes! Ou, sob um caramanchel, em subúrbio tranqüilo, em plena natureza, ouvindo os grilos, ouvindo as rãs, ouvindo o gado, o murmúrio dum fio de água e o sussurro do arvoredo galvanizado pela claridade, fulgurando e cheirando. Que belo!
— Onde queres ir? — perguntou o Duarte afagando a idéia romântica de uma subida à Tijuca para verem, do alto, resplandecer a aurora.
— Sei lá! Pararam hesitantes em meio do largo. Tílburis moviam-se lentamente; de quando em quando um partia à disparada. A ronda passava vagarosa; os animais caminhavam como sonâmbulos, maquinalmente, a cabeça baixa e os soldados, derreados, iam como embebidos na luz magnífica que o astro branco vertia.
O S'adt Coblenz, a Maison Moderne, o Caboclo regurgitavam iluminados; às portas, grupos discutiam aos berros, agitando bengalas e, mais adiante, o Príncipe Imperial transbordava. O povo enchia o saguão e despejava-se amontoadamente espraiando-se em direções diferentes. E as luzes do frontão do teatro extinguiram-se subitamente ficando a rua em treva. Rodavam carros abertos; bondes enchiam-se e, de longe, vozes diferentes anunciavam com furor "Empadinhas de camarão".
— Mas para onde vamos? — perguntou de novo o Duarte. Não havemos de ficar aqui plantados, que isto até nos pode abalar a reputação.
— Pois sim! — murmurou o romancista lançando distraidamente os olhos para o monumento que avultava, muito negro, ao luar, com a imensa estátua dominando o largo. Anselmo aventurou, desejoso de fazer uma grande volta pela cidade àquela hora fresca e sossegada:
— Se tomássemos um bonde?
— Prefiro uma sopa, disse o romancista. Em vez de irmos à Tijuca vamos ali ao Coblenz que está mais à mão. Quando se tem o estômago vazio não há luar que valha um bife com batatas fritas. Vamos ao Coblenz! Mas o Duarte fez uma careta explicando: que não podia com a cozinha alemã; detestava aquela casa, mais os seus guisados. Não podia tomar ali um copo de cerveja sem lembrar-se de Sedan. Ó Alemanha cruel! Preferia a Maison Moderne que lhe dava a impressão de Paris. O romancista fitou-o:
— Quanto deves à Alemanha?
— Eu! — e espalmou a mão no peito. Uma miséria: creio que duas ceias e...
— E então por isso que não queres entrar?
— Não, mas o meu alfaiate costuma aparecer por ali. Aquilo é uma casa macabra: à noite é um cemitério, tantos são os cadáveres.
— Pois, meu amigo, estamos incompatibilizados. Tu não podes ir ao Coblenz porque ceaste duas vezes... e o teu alfaiate aparece, eu não posso ir à Maison por motivos idênticos. Como havemos de fazer?
— Separemo-nos.
— É com grande pena, mas não há remédio. Até amanhã.
— Até amanhã. E o Duarte estendeu a mão a Anselmo oferecendo-lhe a casa: — Moro em Botafogo para a estatística e outros efeitos sociais, mas resido à rua Teófilo Ottoni, no armazém de vinhos de meu pai. Quando quiser fazer de filoxera apareça por lá: há cama, mesa e cento e tantas pipas. Boa-noite! E foi-se recitando:
"Vous qui volez là-bas, légères hirondelles..."
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.