Por Eça de Queirós (1875)
Erguemos nossa prece para Deus?...
Mas a despeito de todos os esforços nunca passara destas duas quadras - apesar de as ter produzido com uma facilidade prometedora - como se o seu ser contivesse apenas estas duas gotas isoladas de poesia, e, soltas elas à primeira pressão, nada mais restasse senão a seca prosa do temperamento carnal.
E esta existência vazia relaxara-lhe tão sutilmente todo o maquinismo da vontade e da ação, que qualquer trabalho que lhe pudesse encher a fastidiosa concavidade das horas infindáveis, era-lhe odioso como o peso dum fardo injusto. Preferia ainda os tédios da ociosidade aos tédios da ocupação. A não serem os deveres estritos que ele não podia desleixar sem escândalo e sem censura - desembaraçara-se, pouco a pouco, de todas as práticas do zelo interior: nem a oração mental, nem as visitas regulares ao Santíssimo, nem as meditações espirituais, nem o rosário à Virgem, nem a leitura à noite do Breviário, nem o exame de consciência - todas estas obras da devoção, estes meios secretos de santificação progressiva substituía-os pelos infindáveis passeios pelo quarto, do lavatório à janela, e por maços de cigarros fumados até ao negro dos dedos. A missa, pela manhã, era rapidamente engorolada; o serviço da paróquia feito com surdas revoltas de impaciência; tomara-se consumadamente o Indignus sacerdos dos ritualistas; e tinha na sua ampla totalidade os trinta e cinco defeitos e os sete meios defeitos que os teólogos atribuem ao mau padre.
Só lhe restava, através da sua sentimentalidade, um apetite tremendo. E como a cozinheira era excelente, e a Sra. D. Maria da Assunção, antes da sua partida para a Vieira, lhe deixara um fornecimento de cento e cinqüenta missas a cruzado - banqueteava-se, tratando-se a galinha e a geléia, regando-se dum vinho picante da Bairrada que o padre-mestre lhe escolhera. E ali ficava à mesa, horas esquecidas, de pema esticada, fumando sobre o café, e lamentando não ter à mão a sua Ameliazita...
- Que fará ela por lá, a pobre Ameliazita? pensava, espreguiçando- se com tédio e com langor.
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A pobre Ameliazita , na Ricoça amaldiçoava a sua vida.
Logo durante a jornada no char-à-banc D. Josefa lhe fizera tacitamente sentir que dela não tinha a esperar nem a antiga amizade, nem o perdão do escândalo... E assim foi, quando se instalaram. A velha tomou- se intratável; era todo um modo cruel de abandonar o tu, de a tratar por menina; uma recusa ríspida se Amélia lhe queria arranjar a almofada ou aconchegá-la no xale; um silêncio repreensivo quando ela lhe passava o serão no quarto, costurando; e a todo o momento alusões suspiradas ao triste encargo que Deus lhe mandava no fim dos seus dias...
Amélia, consigo, acusava o pároco: ele prometera-lhe que a madrinha seria toda caridade, toda cumplicidade; e entregava-a por fim a uma semelhante ferocidade de velha virgem devota!...
Quando se viu naquele casarão da Ricoça, num quarto regelado, pintado a cor de canário, lugubremente mobiliado, com uma cama de dossel e duas cadeiras de couro, chorou toda a noite com a cabeça enterrada no travesseiro - torturada por um cão que debaixo das janelas, estranhando sem dúvida as luzes e o movimento na casa, uivou até de madrugada.
Ao outro dia desceu à quinta a ver os caseiros. Era talvez boa gente com quem podia distrair-se. Encontrou uma mulher, alta e lúgubre como um cipreste, carregada de luto: um grande lenço negro tingido, muito puxado para a testa, dava-lhe um ar de farricoco; e a sua voz gemebunda tinha uma tristeza de dobre a finados. O homem pareceu-lhe ainda pior, semelhante a um orangotango, com duas orelhas enormes muito despegadas do crânio, uma saliência bestial do queixo, as gengivas deslavadas, um corpo desengonçado de tísico, de peito metido para dentro. Abalou bem depressa, foi ver o pomar: andava maltratado; as ruazitas estavam invadidas por um ervaçal úmido; e a sombra das árvores muito juntas, num terreno baixo, cercado de altos muros, dava uma sensação doentia.
Era ainda preferível passar os seus dias metida no casarão; dias infindáveis em que as horas se iam movendo com o vagar fastidioso dum desfilar funerário.
O seu quarto era na frente; e pelas duas janelas recebia a impressão triste da paisagem que se estendia defronte; uma ondulação monótona de terras estéreis com alguma magra árvore aqui e além, um ar abafado em que parecia errar constantemente a exalação de pauis próximos e de baixas úmidas, e a que nem o sol de Setembro dissipava o tom sezonático.
Logo pela manhã ia ajudar a levantar D. Josefa, acomodá-la no canapé; depois vinha costurar para ao pé dela - como outrora na Rua da Misericórdia para ao pé da mãe; mas agora em lugar das boas "cavaqueiras" tinha só o silêncio intratável da velha e a sua ronqueira incessante. Pensara em fazer vir o seu piano da cidade; mas, apenas em tal falou, a velha exclamou com azedume:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.