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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

E pensar que aquela besta do Brito nunca lhe doera a cabeça! E que o alarve do abade se gabava de nunca ter estado na cama depois das sete da manhã! Animais!

Amaro então dava-lhe as novidades: alguma carta que recebera do cônego, da Vieira, as melhoras da D. Josefa...

Mas Natário não se interessava pelas pessoas a quem apenas o unia a convivência e a amizade; interessavam-no só os seus inimigos, com quem tinha ligações de ódio. Queria saber do escrevente, se já tinha estourado de fome...

- Esse ao menos pude-lhe ser bom antes de cair aqui nesta maldita cama!...

As sobrinhas apareciam então - duas criaturinhas sardentas, de olhos muito pisados. O seu grande desgosto era que o titi não mandasse vir a benzedeira pôr-lhe virtude na perna: era o que tinha curado o morgadinho da Barrosa, e o Pimentel de Ourém...

Natário, na presença das duas rosas do seu canteiro, calmava-se.

- Coitaditas, não é por falta de cuidados delas que eu ainda não arribei... Mas tenho sofrido, caramba!

E as duas rosas, com o mesmo movimento simultâneo, voltavam-se para o lado limpando os olhos aos lenços.

Amaro saía dali, mais enfastiado.

Para se fatigar tentava dar grandes passeios pela estrada de Lisboa. Mas apenas se afastava do movimento da cidade, a sua tristeza tornava-se mais intensa, concordando com aquela paisagem de colinas tristes e árvores enfezadas: e a sua vida aparecia-lhe como essa mesma estrada monótona e longa, sem um incidente que a alegrasse, estirando-se desoladamente até se perder nas brumas do crepúsculo. Às vezes, ao voltar, entrava no cemitério, ia passeando entre os renques de ciprestes, sentindo àquela hora do fim da tarde a emanação adocicada das moutas de goivos; lia os epitáfios; encostava-se à grade dourada do jazigo da família Gouveia, contemplando os emblemas em relevo, um chapéu armado e um espadìm, seguindo as negras letras da famosa ode que lhe adorna a lápide:

Caminhante, detém-te a contemplar Estes restos mortais;

E, se sentires a mágoa a trasbordar, Detém teus ais.

Que João Cabral da Silva Maldonado

Mendonça de Gouveia,

Moço fidalgo, bacharel formado,

Filho da ilustre Ceia,

Ex-administrador deste concelho.

Comendador de Cristo,

Foi de virtudes singular espelho. Caminhante, crê nisto.

Depois era o rico mausoléu do Morais, onde sua esposa que, agora, rica e quarentona, vivia em concubinagem com o belo capitão Trigueiros, fizera gravar uma piedosa quadra:

Entre os anjos espera, ó esposo, A metade do teu coração Que no mundo ficou, tão sozinha,

Toda entregue ao dever da oração...

Algumas vezes, ao fundo do cemitério, junto ao muro, via um homem ajoelhado ao pé duma cruz negra, que um chorão assombreava, ao lado da vala dos pobres. Era o tio Esguelhas, com a sua muleta no chão, rezando sobre a sepultura da Totó. Ia falar-lhe, e mesmo, numa igualdade que aquele lugar justificava, passeavam familiarmente, ombro a ombro, conversando. Amaro, com bondade, consolava o velho: de que servia à desgraçada rapariga a vida para a passar estirada numa cama?

- Sempre era viver, senhor pároco... E eu, veja agora isto, sozinho de dia e de noite!

- Todos têm as suas solidões, tio Esguelhas, dizia melancolicamente Amaro.

O sineiro então suspirava, perguntava pela Sr. D. Josefa, pela menina Amélia...

- Lá está na quinta.

- Coitadita, não está má estopada...

- Cruzes da vida, tio Esguelhas.

E continuavam calados por entre as ruas de buxo que fecham os canteiros cheios de negrejamento das cruzes e da brancura das lápides novas. Amaro, às vezes, reconhecia alguma sepultura que ele mesmo tinha aspergido e consagrado: onde estariam aquelas almas que ele recomendara a Deus em latim, distraído, engorolando à pressa as orações para ir ter com Amélia? Eram jazigos de gente da cidade; ele conhecia de vista as pessoas da família; vira-as então lavadas em lágrimas, e agora passeavam em rancho pela alameda ou chalaceavam ao balcão das lojas...

Voltava para casa mais triste, - e a sua longa noite começava, infindável. Tentava ler; mas ao fim das dez primeiras linhas bocejava de tédio e de fadiga. Às vezes escrevia ao cônego. Às nove horas, tomava chá; e depois era um passear sem fim pelo quarto fumando maços de cigarros, parando à janela a olhar a negrura da noite, lendo aqui e além uma notícia ou um anúncio do Popular, e recomeçando a passear com bocejos tão cavos que a criada os ouvia na cozinha.

Para entreter as noites melancólicas, e por um excesso de sensibilidade ociosa, tentara fazer versos, pondo o seu amor e a história dos dias felizes nas fórmulas conhecidas da saudade lírica:

Lembras-te desse tempo de delícias, Ó anjo feiticeiro, Amélia amada, Quando tudo era risos e ventura E a vida nos corria sossegada?

Lembras-te dessa noite de poesia

Em que a Lua brilhava pelos céus E nós unindo as almas, ó Amélia,

(continua...)

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