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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Amaro, sem dar uma palavra, ergueu uma ponta do lençol, mas deixou-o logo recair sobre a face da morta. Depois subia acima, ao quarto onde o sineiro, estirado sobre a cama, voltado para a parede soluçava desesperadamente; estava com ele outra mulher, que se conservava a um canto, muda, e imóvel, com os olhos no chão, no vago aborrecimento que lhe dava aquele pesado dever de vizinha. Amaro tocou no ombro do sineiro, falou-lhe:

- É necessário resignação, tio Esguelhas... São decretos do Senhor... Para ela é até uma felicidade.

O tio Esguelhas voltou-se; e reconhecendo o pároco, por entre o véu das lágrimas que lhe alagavam os olhos, tomou-lhe a mão, quis beijar-lha. Amaro recuou:

- Então, tio Esguelhas?... Deus há-de ser misericordioso, há-de-lhe levar em conta a sua dor...

Ele não o escutava, sacudido dum pranto convulsivo, - enquanto a mulher, muito tranqüilamente, limpava ora um ora outro canto do olho.

Amaro desceu; e para aliviar o bom Silvério daquele serviço excepcional, tomou o seu lugar ao pé da vela, com o Breviário na mão.

Ali ficou até tarde. A vizinha ao sair veio dizer-lhe que o tio Esguelhas tinha pegado a dormir; e ela prometia voltar com a amortalhadeira, mal rompesse a manhã.

Toda a casa então ficou naquele silêncio, que a vizinhança do vasto edifício da Sé fazia parecer mais soturno; só às vezes um mocho piava debilmente nos contrafortes, ou o grosso bordão batia os quartos. E Amaro, tomado dum indefinido terror, mas preso ali por uma força superior da consciência sobressaltada, ia precipitando as orações... Às vezes o livro caia-lhe sobre os joelhos; e então, imóvel, sentindo por detrás a presença daquele cadáver coberto do lençol, recordava, num contraste amargo, outras horas em que o sol banhava o pátio, as andorinhas esvoaçavam, e ele e Amélia subiam rindo para aquele quarto onde agora, sobre a mesma cama, o tio Esguelhas dormitava com soluços mal acalmados...

XXI

O cônego Dias recomendara muito a Amaro que ao menos nas primeiras semanas, para evitar as suspeitas da mana e da criada, não fosse à Ricoça. E a vida de Amaro tornou-se então mais triste, mais vazia que outrora, quando pela primeira vez deixando a casa da S. Joaneira viera para a Rua das Sousas. Todos os seus conhecidos estavam fora de Leiria: D. Maria da Assunção na Vieira; as Gansosinhos ao pé de Alcobaça com a tia, a famosa tia que havia dez anos estava para morrer e para lhes deixar uma grande herdade. Depois do serviço da Sé, as horas, todo o longo dia, arrastavam-se pesadas como chumbo. Não estaria mais separado de toda a comunicação humana, se como Santo Antônio vivesse nos areais do deserto líbico. Só o coadjutor que, coisa singular, nunca lhe aparecia nos tempos felizes, voltara agora, como o companheiro fatídico das horas tristes, a visitá-lo uma, duas vezes por semana, ao fim do jantar, mais magro, mais chupado, mais soturno, com o seu eterno guarda-chuva na mão. Amaro odiava-o; às vezes, para o impor, fingia-se todo ocupado numa leitura; ou precipitando-se para a mesa, mal lhe sentia nos degraus as passadas lentas:

- Amigo coadjutor, desculpe, que estou aqui a rabiscar uma coisa.

Mas o homem instalava-se, com o odioso guarda-chuva entre os joelhos:

- Não se prenda, senhor pároco, não se prenda.

E Amaro, torturado por aquela figura lúgubre que não se mexia na cadeira, atirava a pena, furioso, agarrava o chapéu:

- Não estou hoje para a coisa, vou espairecer.

E à primeira esquina descartava-se bruscamente do coadjutor.

Às vezes, farto da solidão, ia visitar o Silvério. Mas a felicidade pachorrenta daquele ser obeso, ocupado em colecionar receitas de medicina caseira e em observar as perturbações fantásticas da sua digestão; os seus constantes louvores do doutor Godinho, dos pequenos e da senhora; as chalaças obsoletas que ele repetia havia quarenta anos e a inocente hilaridade, que elas lhe davam, impacientavam Amaro. Saía, enervado, pensando na sorte inimiga que o fizera tão diferente do Silvério. Aquilo era a felicidade por fim: por que não havia de ele ser também um bom padre caturra, com uma pequenina mania tirânica, parasita regalado duma família respeitável, tendo um destes sangues tranqüilos que giram sob camadas de gordura, sem perigo de transbordar e de causar desgraças, como um riacho que corre por baixo duma montanha?...

Outras vezes ia ao colega Natário, cuja fratura, mal tratada ao princípio, o retinha ainda na cama com o aparelho na perna. Mas aí, enjoava-o o aspecto do quarto - impregnado dum cheiro de arnica e de suor, com uma profusão de trapos ensopados em malgas vidradas, e esquadrões de garrafas sobre a cômoda entre fileiras de santos. Natário, mal o via aparecer, rompia em queixas: as cavalgaduras dos médicos! A sua má sorte habitual! As torturas a que o forçavam! O atraso em que estava a medicina neste maldito país!... E ia salpicando o soalho negro de expectorações e de pontas de cigarro. Desde que estava doente, a saúde dos outros, sobretudo dos amigos, indignava-o como uma ofensa pessoal.

- E você sempre rijo, hem? Pudera! - murmurava com rancor.

(continua...)

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