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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

A sua conformação topográfica instiga esta retrospecção geológica. Com efeito, as serranias cortadas de angusturas, fracionando-se em serrotes de aclives vivos, figuram-se ruínas de uma barragem aluída e rota pelas enchentes. Aprumam-se entre várzeas, feito um recorte nas planuras, e, a despeito dos contornos incorretos, permitem que se lhes reviva o facies primitivo. São uma montanha fóssil. Definido pelas mesmas camadas silurianas, que vimos noutros trechos, o núcleo da terra, ali, aflora à medida que a ablação das torrentes lhe remove as formações sedimentárias mais modernas. E nesse exumar-se a serra primitiva ressurge espelhando na ousadia das curvas hipsométricas a potência dos elementos que há longos séculos a combatem. Porque, como na Favela, a caatinga resistente lhe morre no sopé; evita-a; deixa-lhe desnudos os flancos; e estes, já lastrados de blocos, já descendo a prumo, à maneira de muros em cujas junturas mal se apegam orquídeas enfezadas; ou alcantilando-se em fraguedos, repentinos ressaltos que os rasgam em pontas crivando-os até ao alto, onde se agrupam em grimpas serreadas, contrastam com os terrenos achanados em roda, não já na forma, senão na estrutura definidora.

Quem segue de Canudos para Jeremoabo depara, entretanto, com uma passagem única — a brecha profunda por onde se enfia o Vaza-Barris, correndo para o levante. Rompe-a com ele, porque o rio é a única vereda, trilhando-lhe o leito vazio, e, transcorridos alguns metros, acredita haver varado por um postigo estreito. Acaba-se o desfiladeiro. Afastam-se vivamente as rampas abruptas que o formam; arqueando-se e desatando-se por diante, fronteando-se, contrapostas as concavidades numa arqueadura de anfiteatro amplíssimo. Ali dentro, porém, o terreno continua revolto; erguem-se outros cerros mais baixos, centralizando-o; e a primitiva passagem bifurca-se, encaixando-se na direita, em curva, o Vaza-Barris. Estas duas gargantas de larguras variáveis, apertando-se de cerca de vinte metros em dados pontos, progridem, encurvando-se a pouco e pouco, segundo o traçado dos dois galhos exteriores da serra; e, acompanhando-os, aproximam-se convergentes, depois do primitivo afastamento, até se unirem outra vez, formando outra passagem única sobre a estrada de Jeremoabo. Aos lados de ambas, antes deste cruzamento, em grande percurso, fronteiam os taludes dos cerros centrais com os das duas vertentes laterais, envolventes e maiores, eriçadas de penhascos acumulados a esmo ou agrupando-se em socalcos, repartindo-se em sucessivos patamares à maneira de galerias de um coliseu monstruoso.

O desfiladeiro de Cocorobó é em pálido resumo aquele rasgão da terra, de extremos afunilados, que se subdividem de um e outro lado na forquilha de dois outros porventura ainda menos praticáveis. A estrada duplica-se na falsa encruzilhada de dois desvios que o Vaza-Barris percorre por igual nas enchentes, ilhando os cômoros centrais — até sair, unidos os dois braços, numa várzea desimpedida e vasta que o caminho de Jeremoabo corta pelo meio, estirando-se em cheio para leste.

De sorte que quem a trilha em sentido oposto, vindo daquela vila para o ocidente, incide de idêntica maneira na bifurcação que a divide. Atravessa-a, metendo-se por uma das veredas, à direita ou à esquerda, até chegar à outra saída única. Transpõe-na. Mas livre da garganta multívia não encontra uma várzea complanada como a da outra banda. O solo, ainda que em menor escala, continua revolto. O Vaza-Barris, contorcido em meandros, alonga-se, entalado, entre cerros sucessivos. A estrada que o fraldeia, ou lhe acompanha o leito, perturba-se em atalhos, ondulante, tornejando sem número de encostas, derivando em aladeirados; e vai até ao vale de um ribeirão efêmero, ao qual deu o nome um dos cabecilhas sertanejos que ali tinha a vivenda, Macambira.

Segue dali, perlongando qualquer das bordas do rio, até Canudos, menos de duas léguas na frente.

DIANTE DAS TRINCHEIRAS

A vanguarda da força marchando neste sentido fez alto uns quinhentos metros antes daquela barreira, no dia 25 de junho, pouco antes do meio-dia.

O esquadrão de lanceiros descobrira o inimigo. Abeirara-se, galopando, dos entrincheiramentos grosseiros e vira-os, de relance. Recebido a tiro, volvera a toda a rédea, perdendo duas praças feridas, para junto da 5.ª Brigada na testa da coluna, que desenvolveu imediatamente em atiradores um dos seus batalhões, o 40.°, do major Nonato de Seixas, enquanto os dois outros, o 34.° e o 35.°, se dispunham de reforço. O general Savaget, prevenido do encontro, adiantara-se acompanhando a 4.ª Brigada. Estacou a quatrocentos metros da vanguarda, a fim de aguardar a 6.ª Divisão de Artilharia e os comboios marchando ainda cerca de três quilômetros à retaguarda. Enquanto isto passava, os corpos avançados, mais de oitocentos homens ao mando do coronel Serra Martins, iniciavam o ataque num tiroteio nutrido, em que os fogos irregulares da linha de atiradores se intermeavam das descargas rolantes dos pelotões que a reforçavam mais de perto, revidando vigorosamente aos tiros dos antagonistas. Estes sustentaram o choque com valor. "Audaciosos e tenazes, diz a parte do combate do comando geral, qualidades essas que eram ao que parece reforçadas pelas excelentes posições que ocupavam, as quais dominavam a planície em toda a extensão e grande trecho da estrada, não arredaram pé e, ao contrário, aceitaram e sustentaram com firmeza e energia o ataque, rompendo renhida fuzilaria sobre os nossos, tanto que começamos a ter algumas baixas por mortes e ferimentos."

Era, como se vê, a reprodução justalinear dos episódios do Cambaio e da Favela.

(continua...)

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