Por Eça de Queirós (1875)
- Então? perguntou Amaro ao ouvido do padre-mestre.
- Tudo arranjado. E por lá?
- Idem.
E no escuro da escada os dois padres apertaram-se silenciosamente a mão.
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Daí a dias, depois duma cena de prantos, Amélia partiu com D. Josefa para a Ricoça num charà-banc.
Tinham arranjado, com almofadas, um recanto cômodo para a convalescente. O cônego acompanhava-a, furioso com aquele incômodo. E a Gertrudes ia em cima na almofada, à sombra da montanha que faziam sobre o tope do carro os baús de couro, os cestos, as latas, as trouxas, os sacos de chita, o açafate onde miava o gato, e um fardo amarrado com cordas contendo os painéis dos santos mais queridos de D. Josefa.
Depois, ao fim da semana, foi a jornada da S. Joaneira para a Vieira, de noite, por causa da calma. A Rua da Misericórdia estava atravancada com o carro de bois, que conduzia as louças, os enxergões, o trem de cozinha; e no mesmo char-à-banc que fora à Cortegassa, ia agora a S. Joaneira e a Ruça, que levava também no regaço um açafate com o gato.
O cônego fora na véspera, só Amaro assistia à partida da S. Joaneira. E depois de toda uma azáfama de galgarem cem vezes de baixo a cima as escadas por um cestinho que esquecera ou um embrulho que desaparecia, quando a Ruça enfim fechou a porta à chave, a S. Joaneira, já no estribo do char-à-banc, rompeu a chorar.
- Então, minha senhora, então! disse Amaro.
- Ai, senhor pároco, deixar a pequena!... Mal sabe o que me custa... Parece que a não torno a ver. Apareça pela Ricoça, faça-me essa esmola. Veja se ela está contente...
- Vá descansada, minha senhora.
- Adeus, senhor pároco. Muito obrigada por tudo... Ai, os favores que lhe devo!
- Tolices, minha senhora... Boa jornada, dê notícias! Recados ao padre-mestre. Adeus, minha senhora! adeus, Ruça...
O char-à-banc partiu. E pelo mesmo caminho por onde ele ia rolando, Amaro foi andando devagar até à estrada da Figueira. Eram então nove horas; nascera já o luar duma noite cálida e serena de Agosto. Uma tênue névoa luminosa suavizava a paisagem calada. Aqui e além uma fachada saliente de casa rebrilhava, batida da lua, entre as sombras do arvoredo. Ao pé da Ponte, parou ao olhar melancolicamente o rio que corria sobre a areia com uma sussurração monótona; nos lugares em que as árvores se debruçavam, havia escuridões cerradas; e adiante uma claridade tremia sobre a água, como um tecido de filigrana faiscante. Ali esteve, naquele silêncio que o calmava, fumando cigarros e atirando as pontas para o rio, embebido numa tristeza vaga. Depois, ouvindo as onze, veio voltando para a cidade, passou pela Rua da Misericórdia num enternecimento de recordações: a casa, com as janelas fechadas, sem as cortinas de cassa, parecia abandonada para sempre; os vasos de alecrim tinham ficado esquecidos aos cantos das janelas... Quantas vezes Amélia e ele se tinham encostado àquela varanda! Havia então um craveiro fresco, e conversando, ela cortava uma folha, trincava-a nos dentinhos. Tudo tinha acabado agora! - E na Misericórdia, ao lado, o piar das corujas no silêncio dava-lhe uma sensação de ruína, de solidão e de fim eterno.
Foi andando para casa, devagar, com os olhos arrasados de água.
A criada veio logo à escada dizer-lhe que o tio Esguelhas, numa aflição, viera procurá-lo duas vezes, haviam de ser nove horas. A Totó estava a morrer, e só queria receber os sacramentos da mão do senhor pároco.
Amaro, apesar da sua repugnância supersticiosa em voltar assim nessa noite, para um fim tão triste, no meio das recordações felizes da sua paixão, foi, para obsequiar o tio Esguelhas; mas impressionava-o aquela morte, coincidindo com a partida de Amélia, e como completando a súbita dispersão de quanto até aí o interessara ou estivera misturado à sua vida.
A porta da casa do sineiro estava entreaberta, e na escuridão da entrada topou com duas mulheres que saíam suspirando. Foi logo direito à alcova da paralítica: duas grandes velas de cera, trazidas da igreja, ardiam sobre uma mesa: um lençol branco cobria o corpo da Totó; e o padre Silvério, que fora decerto chamado por estar de semana, lia o Breviário, com o lenço nos joelhos, os seus grandes óculos na ponta do nariz. Ergueu-se apenas viu Amaro:
- Ah, colega, disse muito baixo, andaram a procurá-lo por toda a parte... A pobre de Cristo queria-o a você... Eu, quando me foram buscar, ia fazer a partida a casa do Novais. É a partida do sábado... Que cena! Morreu na impenitência, como era dos livros. Quando me viu, e que você não vinha, que espetáculo! Até tive medo que me cuspisse no crucifixo...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.