Por Euclides da Cunha (1902)
Viera na frente a 4 a composta dos 12.° e 31.° Batalhões comandados pelo tenente-coronel Sucupira de Alencar Araripe e major João Pacheco de Assis.
CARLOS TELES
Dirigia-se o coronel Carlos Teles — a mais inteiriça organização militar do nosso Exército nos últimos tempos.
Perfeito espécimen desses extraordinários lidadores riograndenses — bravos, joviais e fortes — era como eles feito pelo molde de Andrade Neves, um chefe e um soldado: arrojado e refletido, impávido e prudente, misto de arremessos temerários e bravura tranqüila; não desadorando o brigar ao lado da praça de pré no mais aceso dos recontros, mas depois de haver planeado friamente a manobra.
A campanha federalista do Sul dera-lhe invejável auréola. A sua figura de campeador — porte dominador e alto, envergadura titânica, olhar desassombrado e leal — culminara-lhe o episódio mais heróico, o cerco de Bagé.
A campanha de Canudos ia ampliar-lhe o renome.
Compreendeu-a como poucos. Tinha a intuição guerreira dos gaúchos.
De posse de sua brigada e, abalando com ela, isolado, para Simão Dias, onde chegou a 4 de maio, modelara-a em pequeno corpo de exército adaptando-a às exigências da luta.
Aligeirou-a; adestrou-a; e como era impossível transmudar a instrução prática dos soldados que vinham de um severo exercício de batalhas nos campos do Rio Grande, procurou, malgrado o antagonismo do terreno, dar-lhe, em parte a mesma celeridade das marchas, o mesmo arranco vertiginoso das cargas. Escolheu, entre as companhias do 31.°, sessenta homens, cavaleiros adestrados, decaídos "monarcas das cochilhas" inaptos ao passo tardo dos pelotões de infantaria. E constituiu com eles um esquadrão de lanceiros, entregando-os ao comando de um alferes. Era uma inovação; e parecia um erro. A arma "fria e silenciosa" de Damiroff, feita para os arrancos e choques nas estepes e nos pampas, à primeira vista se impropriava em absoluto àquele solo revolto e recamado de espinheiros.
Entretanto, mais tarde se verificou o alcance da medida.
Os improvisados lanceiros tinham a prática das corridas pulando sobre as "covas de touro" das campinas do Sul.
Vingaram de idêntico modo os barrocais do sertão. Fizeram reconhecimentos preciosos. E mais tarde, quando se reuniram as colunas no ermo da Favela, a lança fez-se-lhes a aguilhada do vaqueiro no arrebanhar o gado esparso pelas cercanias, único sustento com que contava a tropa combalida.
Esta função dupla patentou-se valiosíssima, sob o primeiro aspecto, logo ao partir a divisão do general Savaget de Jeremoabo para Canudos. Levava esclarecida a marcha.
Dias antes, vinte soldados daquele esquadrão haviam batido a estrada até às cercanias do povoado, e do reconhecimento resultava estar, aquela, franca até a serra Vermelha onde o terreno se acidenta nos primeiros cerros de Cocorobó.
A coluna em marcha de duas léguas por dia, beirando o Vaza-Barris, passando sucessivamente pelos pequenos sítios de Passagem, Canabrava, Brejinho, Mauari, Canché, Estrada Velha e Serra Vermelha, chegou àquele ponto a 25 de junho certa de encontrar o inimigo.
Pela primeira vez uma tropa expedicionária dos sertões não se deixava surpreender.
COCOROBÓ
Cocorobó, nome que caracteriza não uma serra única mas sem número
delas, recorda restos de antiqüíssimos cañons, vales de erosão ou quebradas, abertos pelo Vaza-Barris em remotas idades, quando incomparavelmente maior efluía talvez de grande lago que cobria a planície rogada de Canudos. A massa de águas, então contida pelos acidentes mais possantes que ondulavam da favela ao Caipã, nos dois quadrantes de SO e NO e deste último espraiando-se pelo de NE, abarreirada pelas serranias de Poço-de-Cima e Canabrava, efluía para leste em escoadouros estreitos.
RETROSPECÇÃO GEOLÓGICA
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.