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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

aterrado, passou um jaquetão, correu ao quarto do Melchior. Ao ouvir, estremunhado, « que a Concha sahira i), sentou-se d'um pulo na cama :

— Chame o Manuel !

O creado veio, fumando o seu cigarro, com a cabeça baixa, o olhinho malicioso, coçando os cabellos por traz da orelha.

— Onde está a senhora . — gritou Melchior.

O Manuel olhou para um, depois para o outro, e com as mãos na cinta, a barriga para diante, o cigarro na bocca, o olho meio fechado ao fumo :

— Então ustedes não sabem ?

— O quê, homem ?

O Manitel tirou o cigarro e torceu-se devagar n'uma risada interior, muda.

— Acaba, carrasco ! — berrou Melchior, com uma punhada no enxergão.

— Pirou-se ! —- fez o outro, com uma voz muito aguda de gozo.

— Com o Manolo ? — exclamou Melchior, suffocado, de joelhos na cama, os olhos esgazeados.

— Pois já usted vê — disse o creaclo, como-achando perfeitamente logico.

Melchior voltou-se para Arthur que se fizera muito branco e com uma expressão de desprezo, de furor, atirando-lhe as palavras como escarros :

— Sua besta ! Sua besta !

— Mas então—balbuciou Arthur—mas então . . .

O Manuel chegou-se para a cama e com sua voz arrastada :

— Pois o Manolo e a Conchita estavam juntos

Para se consolarem, n'essa noite, foram jantar ao Hotel Central : estavam taciturnos. Arthur mal comia e pareceu-lhe mcsmo um espectaculo grosseiro e indigno da sua melancolia, o deleite muito ex pansivo com que Melchior devorou, repetiu o Jambon d' Yopk atvx épinard8, E todavia Melchior estivera lugubre toda a tarde na redacção, soltando de vez em quando suspiros estrondosos que diver tiam o Esteves, e nio poderu produzir uma só local, apesar d'esforços de parturiente : de facto, o Jambon d' York era a sua, primeira consolação n'esse dia. E limpando os beiços, murmurou ao ouvido d 'Arthur :

Parece-me que merecemos tuna garrafinha de Bourgogne,

Arthur consenffu gom um gesto indifferente. Parecia-lhe que uma nevoa imponderavel, parda e funeraria cobria as cousas e as physionomias, e A 'uma grande lassidão do cerebro, via constantemente diante de si formas fragmentadas da Concha ou tos pertencentes á Concha ou sitios e sitiAgões, que atravessara com ella. Era u-m trabalho de reminiscencia saudosa, em que procurava reviver aàS alegrias que perdera ; tinha nos membros molleaas de noites mal dormidas e na alma uma sensafto de vexame ; vinham-lhe de repente, como faiscas, odios sanguinarios ao Manolo.

Os seus vagos suspiros reprimidos tinhA.m já feito voltar a cabeça a um allemão, de pinc,Rnez e barbas doutoraes, que, ao seu lado, uma banana com methodo.

Como a noite estava de luar, sahirar-h de_ pois do café : seguiram, sem destino, ao longo do Aterro.

— E ámanhã é Domingo Gordo • • — nosnou Melchior com um furor sombrio.

—Domingo Gordo. , . — murmurou Arthur com tristeza.

Outros Entrudos antigos, em Coimbra passaram-lhe na memoria, tão alegres, com as taines da Sophia, cheias de batinas d'onde sahem de os esguichos d'uma grande seringa de latão ! os guinchos divertidos, as luc,tas d'ovos, as (JitaQrilhas {noite no theatro D. Luiz, e os grogs, as felicidades ! . , . Esperava tanto divertir-se, aquelle Entrudo, com a Concha ! . , .

— Uma partida assim . — murmurou.

Immediatamente Melchior enfureceu-se. E de quem era a culpa ? P 'ra que tinha mettido o hespanhol de portas a dentro ?

— Quem podia adivinhar !

— Quem podia adivinhar ? — exclamou Melchior com tanta ira que Arthur recuou, temendo uma violencia : — Bastava ter olhos ! P 'ra que estava o desavergonhado do andaluz sempre mettido no quarto ? Mas você, com a sua boa-fé d'Oliveira d'Azemeis ! É necessario conheca Lisboa ! É necessario ter olho ! — E repuxando com um dedo a pelle da face, esgazeava a orbita, junto á cara d'Arthur, d'um modo medonho.

Rompeu então em improperios contra a Concha. Era uma bebeda ! Tinha os vicios mais nojentos. Cada palavra que dizia era uma mentira vil. Pre gava d'aquelles calotes a toda a gente. Era baixa de natureza, Fazia-se passar pela filha d'um negociante . . . Não estava mnu, o negociante ! O pae era um trapeiro de Madrid, e ella fôra, desde os doze annos, das que andam pela Puerta del Sol a charnar os soldados para o vão nas portas ! E tinha dado uma doença asquerosa ao Conde de Villa-Rica, pobre velho !

Arthur revoltou-se. Era mentira !



(continua...)

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