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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

E Amaro subiu rapidamente para o quarto da velha, que era por cima do escritório. Esteve lá meia hora, uma longa, uma pesada meia hora para o cônego, que apenas podia ouvir em cima, ora rangeres das solas de Amaro, ora tosse cavernosa da velha... E no seu passeio habitual pelo escritório, da estante para a janela, com as mãos atrás das costas e a caixa do rapé nos dedos, ia considerando quantos incômodos, quantas despesas lhe traria ainda aquele "divertimento do senhor pároco"! Tinha de ter a rapariga na quinta cinco ou seis meses... Depois o médico, a parteira que era ele naturalmente que havia de pagar... Depois algum enxoval para o pequeno... E que se lhe havia de fazer, ao pequeno?... Na cidade, a Roda fora suprimida; em Ourém, como os recursos da Misericórdia eram escassos e a afluência dos enjeitados escandalosa, tinham posto um homem ao pé da sineta da Roda, para interrogar e pôr embaraços; havia indagações de paternidade, restituições de crianças; e a autoridade, finória, combatia o excesso dos enjeitamentos com o terror dos vexames...

Enfim, o pobre padre-mestre via diante de si todo um eriçamento de dificuldades para lhe sacudir a pachorra e estragar-lhe a digestão... - Mas o excelente cônego, no fundo, não se indignava; sempre tivera uma afeição de velho mestre pelo pároco; para a Amélia sempre o inclinara um fraco meio paternal, meio lúbrico; e mesmo já sentia pelo "pequeno" uma vaga condescendência de avô.

A porta abriu-se, e o pároco apareceu triunfante.

- Tudo às mil maravilhas, padre-mestre! Que lhe dizia eu?

- Consentiu?

- Em tudo. Não foi sem dificuldade... Ia-se abespinhado. Falei-lhe do homem casado... Que a rapariga estava com a cabeça perdida, queria-se matar... Que se ela não consentisse em encobrir a coisa era responsável por uma desgraça... Lembre-se a senhora que está agora com os pés pra cova, que Deus pode chamá-la dum momento a outro, e que se tiver na consciência este peso, não há padre que lhe dê a absolvição!... Lembre-se que morre para aí como um cão!...

- Enfim, disse o cônego aprovando, falou-lhe com prudência...

- Disse-lhe a verdade. Agora trata-se de falar à S. Joaneira, e de a levar para a Vieira quanto antes...

- Outra coisa, amigo, interrompeu o cônego. Tem você pensado no destino que se há-de dar ao fruto?

O pároco coçou desconsoladamente a cabeça:

- Ah, padre-mestre... Isso é outra dificuldade... Tem-me apoquentado muito... Naturalmente dá-lo a criar a alguma mulher, longe, lá pra Alcobaça ou para Pombal... A felicidade, padre-mestre, era que a criança nascesse morta!

- Era um anjinho mais ... rosnou o cônego sorvendo a sua pitada.

•••

Logo nessa noite ele falou à S. Joaneira da ida para a Vieira, embaixo na saleta onde ela estava arranjando pires de marmelada que andavam a secar para a convalescença da D. Josefa. Começou por dizer que lhe alugara a casa do Ferreiro...

- Mas isso é um nicho! exclamou ela logo. Onde hei-de eu meter a pequena? - Ora ai é que está. É que justamente a Amélia desta vez não vai à Vieira.

- Não vai?

Foi só então que o cônego lhe explicou que a mana não podia ir só para a Ricoça, que ele tinha pensado em mandar com ela Amélia... Era uma idéia que lhe viera nessa manhã.

- Eu não posso ir, tenho de tomar os meus banhos, a senhora bem sabe... A pobre de Cristo não há-de estar para lá só, com uma criada. Portanto...

A S. Joaneira teve um silenciozinho desconsolado:

- Isso é verdade. Mas olhe, para lhe dizer com franqueza, custa-me bem deixar a pequena... Se eu pudesse dispensar os banhos, ia eu.

- Qual ia! A senhora vem para a Vieira. Eu também não hei-de estar lá só... Sua ingrata, sua ingrata!... - E tomando um tom muito sério: - A senhora veja bem. A Josefa está com os pés para a cova. Ela sabe que o que eu tenho para mim chega. Ela tem afeição à pequena, sempre é madrinha; se a vir agora a tratá-la na doença, a estar ali só com ela uns meses, fica pelo beiço. Olhe que a mana ainda vale um par de mil cruzados. A pequena pode apanhar um bom dote. Não lhe digo mais nada...

E a S. Joaneira concordou logo - uma vez que era vontade do senhor cônego.

Em cima, Amaro estava contando rapidamente a Amélia "o grande plano", a cena com a velha:

que ela se prontificara logo, coitadinha, já cheia de caridade, desejando até ajudar para o enxoval do pequeno...

- Nela podes ter confiança, é uma santa... De modo que está tudo salvo, filha. É estar metida quatro ou cinco meses na Ricoça.

Era isso o que fazia choramigar Amélia: perder a estação da Vieira, o divertimento dos banhos!... Ir enterrar-se todo um Verão naquele sinistro casarão da Ricoça! A única vez que lá fora, já ao fim da tarde, ficara estarrecida de medo. Tudo tão escuro, dum eco tão côncavo... Tinha a certeza que ia lá morrer, naquele degredo.

- Tolice! fez Amaro. É dar graças ao Senhor de me ter inspirado esta idéia de salvação. Demais tens a D. Josefa, tens a Gertrudes, o pomar para passear... E eu vou-te lá ver todos os dias. Até hás-de gostar, verás.

- Enfim que lhe hei-de eu fazer? É agüentar. E com duas grossas lágrimas nas pálpebras, amaldiçoava intimamente aquela paixão que só amarguras lhe dava, e que agora, quando toda a Leiria ia para a Vieira, a forçava a ela a ir fechar-se na solidão da Ricoça, ouvindo tossir a velha e os cães uivar na quinta... - E a mamã, que diria a mamã?

- Que há-de dizer? A D. Josefa não pode ir para a quinta só, sem uma enfermeira de confiança! Não te dê cuidado. O padre-mestre está lá embaixo a trabalhá-la... E eu vou ter com ela, que já aqui estou só há bocado contido, e nestes últimos dias é necessário ter cautelinha...

Desceu. Justamente o cônego subia, e encontraram-se na escada.

(continua...)

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