Por Eça de Queirós (1925)
—É deixal-a ! É deixai-a ! — disse Arthur — está douda
Fizera-se pallido, receando um escandalo.
Àf•as que diabo tem ella — perguntou Melehiorq que de mãos nos bolsos, passeava cabisbaixo, com o rosto carregado.
Ouviram então a Concha berrar de novo no cor redor pela creada e apenas a moça subiu, fechar-se no quarto com ella, dando á chave uma volta co ; erica.
— Que pouca vergonha ! — fez Melchior Aqui ha marosca. — Estava de pé diante d'Arthur, fuzilavam-lhe os olhos,
Arthur não respondia. Erguera-se e passeava melancolicamente, accendendo cigarros que logo arremessava, indo encostar-se á vidraça, a olhar a noite escura, sentindo vagamente, no fundo de toda aquella colera, o Manolo. De certo, impedindo-a de sahir, contrariara um rendez-vous : o Manolo despeitado, para lhe fazer ferro, decidira-se a passar a goirée com a Mercedes, de patuscada ; e, ciumenta,a Concha delirava ! É o que era ! Mas então recordava todas aquellü< s n manas d'amor, o fogo dos seus beijos, os seus juramentos balbuciados na voluptuosidade e mesmo a indifforença que ella rnostrara outras vezes, quando, habilmente, e}l o transtornara outros rendez-vous. E podia duvida? do seu amo? ? A sua vaidade accumulava-lhe provas, como um pedreiro diligente que acarreta pedra*; para —e a certeza do amor d'ella ia-se erguendo, indestructjvel, solida, massiça. Preferia attribuir aquella « scena » aos nervos, ao terapo, aos humores. De vez em quando, ia escutar á porta do quaxto : sentia as vozes das duas mulheres cochichar ; pop fim dee;kdiu-se a bater devagarinho A Concha gritou que não abria.
— Oh, que desavergonhada ! — fez Melchior,
E então. censurou verbosarnente a debilidade d'Arthur. Se fosse com elle ! Oh, se fosse com elle ! Tinha-lhe quebrado já uma bengala nas costas ! E expôz a theo.ri'a « que as hespanholas só á pancada 9. De resto gostavam de levar ! Até se apaixonavam ! Citou exemplos. aneedotas. Um amigo d'elle, desde que dera uma coça na Lola, trazia-a como um cordeiro e babada por elle.
— Raparigas d'etta vida, é á bordoada ! Eu é quo sei lidar com ellas
— Chame-a você, falle-lhe você ! — disse Arthur, muito desconsolado.
Arthur, furioso, atirou um ponta-pé á porta que fez tremer a fechadura, E de aubito a porta abriuse, a Concha appareceu, em camisa, e, bruscamente, atirou-lhe uma bofetada que o fez cambalear.
Melchior precipitara-se, mas a porta fôra rapidamente fechada. Dentro, a Concha gritava ; frascos partiam-se contra o chão, cadeiras arremessadas batiam contra as paredes e a voz affiicta da creada dizia, quasi chorosa :
— Então, hija ! Então, hiia ! Por Dios
Arthur, com a cara marcada, os olhos vermelhos como brazas, ficara no meio da sala, petrificado. E Melchior, com medo da policia, d'escandalos, d'aqui-d'el-reis á janella, calmara subitamente muito pallido. Disse mesmo, agarrando o chapéu
— Meu rico, eu safo-me, que não estou para me metter em alhadas !
Mas, a instancias d'Arthur, ficou. E ambos sentados á mesa, com a garrafa de cognac no meio, fizeram até alta noite grogs frios, fumando, cabisbai-
xos.
— Raio de mulheres I — dizia Melchior de vez em quando.
— Um desgosto assim ! — murmurava Arthur. E recahiam n'um silencio triste.
No emtanto, a creada — que tres ou quatro vezes, pela porta do corredor, fôra abaixo e voltara, parecendo levar e trazer recados — veio, quasi de
madrugada dizer-lhes, pé ante pé, que a pobrecita tinha adormecido.tarde, Melchior ficou no Hotel, e Ar rn-:lo, commovido, entrou no quarto. A Con -acolhida na roupa, resonava devagarinho. despiu-se sem ruido, escorregou entre os lenqoes, pondo-lhe um beijo cauteloso no braço
Acordou d'ahi a pouco — já o dia entrava pelas frinchas da janella — ouvindo um rumor no quarto : a Concha, a pé, abria a porta da saleta.
Que e': 2 — disse elle, estremunhado.
Vou buscar agua, estou a arder.
Arthur, prostrado das emoções, dos cansaços da noite, acconnuodou-se na roupa e adormeceu profun- I
damente.
Quando acordou—deviam ser dez horas—estava só na cama. Pulou para o chão, abriu a janella ao sol magnifico d'um dia adoravel. A porta da saleta estava aberta. Viu logo o chambre d'ella cahido no soalho, as chinelas, uma caixa de chapéus aberta ! Que era Onde ?
campainha, a oreada veio correndo e immediatcl)ic começou, com grandes gestos, a dizer que não sabia nada, que não tinha visto a seE*nora, r:ue não se queria metter em questões !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.