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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Não! exclamou Amaro em triunfo. Vai com a Amélia! A Amélia vai-lhe servir de enfermeira! Vão ambas sós! E lá na Ricoça, naquele buraco onde não vai viva alma, naquele casarão onde pode uma pessoa viver sem que ninguém em roda suspeite, lá é que a rapariga tem o filho! Hem, que lhe parece? O cônego erguera-se com os olhos redondos de admiração.

- Homem, famosa idéia!

- É que concilia tudo! O senhor toma os seus banhos. A S. Joaneira, longe, não sabe o que se passa. Sua mana goza os ares... A Amélia tem um sítio escondido para a coisa... À Ricoça ninguém a vai ver... A D. Maria também vai pra Vieira. As Gansosos, idem. A rapariga deve ter o bom sucesso ai pelos princípios de Novembro... Da Vieira, e isso fica por sua conta, não volta ninguém dos nossos até princípios de Dezembro... E quando nos reunirmos de novo está a rapariga limpa e fresca.

- Pois senhores, por ser a primeira idéia que você tem nestes dois últimos anos, é uma grande idéia!

- Obrigado, padre-mestre.

Mas havia uma dificuldade feia: era o ir à D. Josefa, à rigorista D. Josefa, tão implacável às fraquezas do sentimento, à D. Josefa que pedia para as mulheres frágeis as antigas penalidades góticas - as letras marcadas na testa com ferro em brasa, os açoutes nas praças públicas, os in pace tenebrosos - ir à Josefa e pedir-lhe para ser cúmplice dum parto!

- A mana vai dar urros! disse o cônego.

- Nós veremos, padre-mestre, replicou Amaro repoltreando-se e balouçando a perna, muito certo do seu prestígio devoto. Nós veremos... Hei-de-lhe eu falar... E quando lhe tiver contado umas lérias... Quando lhe tiver representado que é para ela um caso de consciência encobrir a pequena... Quando lhe lembrar que nas vésperas da morte é que se deve fazer alguma boa ação, para não se apresentar à porta do Paraíso com as mãos vazias... Nós veremos!

- Talvez, talvez, disse o cônego. A ocasião é boa, porque a pobre mana está fraquita do juízo e leva-se como uma criança.

Amaro ergueu-se, esfregando vivamente as mãos:

- Pois é, mãos à obra! É mãos à obra!

- E é necessário não perder tempo, porque o escândalo estala. Olhe que esta manhã, lá em casa, a besta do Libaninho pôs-se a gracejar com a rapariga, a dizer-lhe que tinha a cinta grossa...

- Oh, que patife! rugiu o pároco.

- Não, não seria por mal. Mas que a rapariga tem engrossado, é fato... Com esta atarantação da doença ninguém tem tido olhos para nada... Mas agora pode-se reparar... É sério, amigo, é sério!

•••

Por isso, logo na manhã seguinte, Amaro foi, segundo a expressão do cônego, "dar a grande abordagem à mana".

Antes, porém, explicou embaixo no escritório ao padre-mestre o seu plano: primeiro, ia dizer a D. Josefa que o cônego estava na inteira ignorância do desastre da Ameliazinha, e que ele, Amaro, o sabia, não em segredo de confissão (nesse caso não o poderia revelar), mas pelas confidências secretas dos dois - de Amélia e do homem casado que a seduzira!... Do homem casado, sim!... Porque enfim era necessário provar à velha que havia a impossibilidade duma reparação legítima...

O cônego coçava a cabeça descontente:

- Isso não vai bem arranjado, disse ele. A mana sabe bem que não iam homens casados à Rua da Misericórdia.

- E o Artur Couceiro? exclamou Amaro, sem escrúpulo.

O cônego largou a rir, com gosto. O pobre Artur, sem dentes, cheio de filhos, com os seus olhos de carneiro triste, acusado de perder virgens!... Não, essa era boa!

- Não pega, pároco amigo, não pega! Outra, outra...

Mas então subitamente partiu dos lábios de ambos o mesmo nome - o Femandes, o Femandes da loja de panos! Belo homem, que Amélia admirava muito! Sempre que saía ia-lhe à loja: tinha mesmo havido indignação na Rua da Misericórdia, havia dois anos, com a ousadia do Femandes que acompanhara Amélia pela estrada de Marrazes até ao Morenal!

Já se sabe, não se dizia explicitamente à mana, - mas dava-se-lhe a entender que fora o Femandes.

(continua...)

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