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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Para Amélia aquele tempo foi um alívio; ao menos ninguém pensava, ninguém reparava nela; nem a sua face triste e os vestígios de lágrimas pareceriam estranhos, naquele perigo em que estava a madrinha. Demais, os serviços de enfermeira ocupavam-na: como era a mais forte e a mais nova, agora que a S. Joaneira estava estafada de vigílias, era ela que passava as longas noites à beira de D. Josefa: e não havia então desvelos que não tivesse, para abrandar Nossa Senhora e o Céu com aquela caridade pela doente, para merecer igual piedade quando o seu dia viesse de estar também prostrada num leito... Vinha-lhe agora, sob a impressão fúnebre que se exalava da casa, o pressentimento repetido que morreria de parto: às vezes só, embrulhada no seu xale aos pés da doente, ouvindo-lhe o gemer monótono, enternecia-se sobre a sua própria morte que julgava certa, e molhavam-se-lhe os olhos de lágrimas, numa saudade vaga de si mesma, da sua mocidade e dos seus amores... lá então ajoelhar-se junto da cômoda, onde uma lamparina bruxuleava diante dum Cristo projetando sobre o papel claro da parede a sua sombra disforme que se quebrava no teto; e ali ficava rezando, pedindo a Nossa Senhora que não lhe recusasse o Paraíso... Mas a velha mexia-se com um ai doloroso; ia então aconchegar-lhe a roupa, falarlhe baixo. Vinha depois à sala ver no relógio se era o momento do remédio; e estremecia às vezes, sentindo vir do quarto próximo um pio de flautim ou um som rouco de trombone; era o cônego a ressonar.

Enfim, uma manhã, o doutor Gouveia declarou D. Josefa livre de perigo. Foi um vivo regozijo para as senhoras - certa, cada uma, que aquilo era devido à intervenção particular do seu santo devoto. E dai a duas semanas houve uma festa na casa, quando D. Josefa, pela primeira vez, amparada nos braços de todas as amigas, deu dois passos trêmulos no quarto. Pobre D. Josefa, o que dela fizera a doença!

Aquela vozinha irritada em que as palavras eram despedidas como setas envenenadas, assemelhava-se agora apenas a um som expirante, quando, num esforço ansioso da vontade, pedia a escarradeira ou o xarope. Aquele olhar sempre alerta, escrutador e maligno, estava hoje como refugiado no fundo das órbitas, assustado da luz, das sombras e dos contornos das coisas. E o seu corpo, tão teso outrora, duma secura de ramo de sarmento, agora ao cair no fundo da poltrona, sob a trapalhada dos agasalhos, parecia um trapo também.

Mas enfim o doutor Gouveia, apesar de anunciar uma convalescença longa e delicada, dissera rindo ao cônego, diante das amigas (depois de ter visto D. Josefa manifestar o seu primeiro desejo, o desejo de se chegar á janela) que com muita cautela, tônicos, e as orações de todas aquelas boas senhoras - a mana estava ainda para amores...

- Ai doutor, exclamou D. Maria, as nossas orações não lhe hão-de faltar...

- E eu não lhe hei-de faltar com os tônicos, disse o doutor. De modo que, o que resta é congratularmo-nos.

Aquela jovialidade do doutor era para todos como a certeza da saúde próxima.

E dai a dias, o cônego, vendo aproximar-se o fim de agosto, falou de alugar casa na Vieira, como costumava um ano sim outro não, para ir tomar os seus banhos de mar. O ano passado não fora. Este era o ano de praia...

- E a mana lá, naqueles ares saudáveis da beira-mar, é que acaba de ganhar forças e carnes...

Mas o doutor Gouveia desaprovou a jornada. O ar muito picante e muito rico do mar não convinha à fraqueza de D. Josefa. Era preferível irem para a quinta da Ricoça, nos Poiais, lugar abrigado e muito temperado.

Foi um desgosto para o pobre cônego, que prodigalizou as lamúrias. O quê! ir enterrar-se todo o Verão, o melhor tempo do ano, na Ricoça! E os seus banhos, meu Deus, os seus banhos?

- Veja o senhor, - dizia ele a Amaro, uma noite no escritório, - veja o que eu tenho sofrido... Durante a doença, que desarranjo, que desordem na casa! Chá fora de horas, jantar esturrado! E os cuidados que tive, que me emagreceram... E agora, quando eu pensava poder ir refazer- me para a praia, não senhor, vai para a Ricoça, dispensa os teus banhos... Isto é o que eu chamo sofrer! E no fim de tudo não fui eu que estive doente. Mas sou eu que as agüento... Perder dois anos a fio os meus banhos!

Amaro, então, deu de repente uma punhada na mesa, e exclamou:

- Homem, veio-me uma boa idéia!

O cônego olhou-o com dúvida, como se não achasse possível a uma inteligência humana descobrir o fim dos seus males.

- Quando digo uma boa idéia, padre-mestre, devia dizer uma idéia sublime!

- Acabe, criatura...

- Escute. O senhor vai para a Vieira, e a S. Joaneira, está claro, vai também. Naturalmente alugam casa um ao pé do outro, como ela me disse que tinham feito há dois anos...

- Adiante...

- Bem. Aqui temos a S. Joaneira na Vieira. Agora, a senhora sua mana parte para a Ricoça.

- E então a criatura há-de ir só?

(continua...)

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