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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Arthur riu. Ora, storias ! Mas aquella palavra, com a lentidão d'uníll veneno absorvido, começou a espalhar-lhe no oangue um ciume crescente. Observou-os aos douys. Porém, via-os tão naturaes, tão francos, tão camgradas, tão innocentes!... Pensou que disfarçavan:n » e suspeitou das sahidas da Concha. Um dia que ouvira dizer que ia a casa da Paca, seguiu-a de longe, cosido com as fachadas. Que, allivio quando é, viu entrar, com effeito, no portal de Paca ! Jurou a si mesmo, n'um elanee. de yeconhecimento, mais para a compensar da injusta suspeita com que a offendera. Mas depois reflectiu que no pred;r» da Paca havia mais andares. ou ainda que a. cancha poderia ter sahido por uma porta Vaidoso, irritou-se de ter sido simplorio e quasi deÉ#j0U que ella fosse culpada. Assim, certa Elanhñ qlle a sabia lá, seguiu-a e foi tocar á campainha. Per,tuntou pela señorita Concha : esperou dez minutos viu-a apparecer de chapéu, as faces em braza, os Olhos brilhantes.

Que era ? Porque tinha vmdo

Elle riu : passara nor alli, lenibrara-se de a vir buscar. Mas em casa, de repente, pergun tou-lhe quasi com severidade, porque lhe apparecera ella tão vermelha ? Em logar de se escandalisar com aquella pergunta repassada de desconfiança, con tou-lhe que assistira a uma scena ! Ah ! A Paca que se julgava perdida, a chorar ! O querido a cho rar ! O pequeno a chorar ! Um horror !

Mas Arthur não estava tranquillo. Tinha a sensacão vaga de que ella « se lhe ia escapando b. Sentia-a menos sua. E aquella incerteza exaltava o seu amor. Tinha um desejo pungente de lhe saber os pensamentos. Desconfiava de tudo, do Manuel, da creada sobretudo — e sentia uma contrariedade amarga quando via entrar o Manolo. Os serões eram menos alegres havia silencios embaraçados, e o emigrado, para os preencher, tinha d'esgotar o seu repertorio de malagueñas, que a Concha escutava sorumb atica, com os braços cruzados, erguendo ás vezes para elle ou para Arthur o seu olhar muito brilhante.

Uma manhã, ouvindo-lhe dizer que ia á Paca, Arthur declarou gue estava incommodado, que não sahia, que desejava que ella lhe fizesse companhia. Ella atirou logo para uma cadeira o vestido que ia pôr e veio interrogal-o muito ternamente : o que lhe doia queria deitar-se

— Estou exquisito, passa logo — respondeu Arthur, muito satisfeito da promptidão com que ella desistira do passeio » e vendo na sua solicitude a persistencia do seu amor.

Estava-se então proximo do Entrudo. N'essa semana, por duas ou tres vezes já, Arthur impedira-a habilmente de sahir ; ella não parecera contrariada, sómente tinha tristezas, monices », dizia-se nervosa, queixava-se d'enxaquecas. Na sexta-feira — antes do Domingo Gordo — Arthur, voltando ás duas horas da redacção do Seculo, encontrou-a de chapéu, pondo o véu ao espelho. Ia á Paca.

— Ora, deixa lá a Paca !

— Mas preciso tambem de ir á modista . . .

— Ora, deixa-te de modistas !

Esperava uma « scena» e ficou admirado, vendo-a tirar sem uma palavra o chapéu, o véu, o vestido, agarrar n'um lenço que andava a embainhar havia mez e meio. e ir sentar-se, .com um suspiro, á janella. Arthur, despeitado d'aquella resignação muda, agarrou n'um livro, estendeu-se em cima da cama. E o silencio que se cavou entre elles pareceulhe triste e escuro como uma separação.

Manolo devia vir jantar n'essa noite, mas ás tres horas o Manuel veio dizer que o snr. Manrique pedia desculpa, mas que, tendo-lhe e,hegado um parente de Badajoz, só poderia apparecer á sobremesa.

A Concha não se moveu, cosendo devagar, lugubremente, e no silencio do quarto só se ouvia, subtilmente, voltarem-se as folhas do livro.

O jal\tar foi triste. A Concha, com duas rosetas vermelhas no rosto, não comia ; Arthur, a quem aquelle silencio infeliz, aquelle fastio desconsolado, exaltavam o ciume, petrificava-se com desespero na sua mudez, o cerebro cheio de phrases, de recriminações, de palavras eommovidas, que a sua lin• gua, d'um peso de chumbo, se recusava a pronun ciar. A sobremesa passou, e Manolo não veio.

Em logar d'elle foi Melchior quem appareceu ao café, e, com um rosto satisfeito, disse logo abru ptamente que ao entrar na sala de jantar, vira o Manolo com a Mercedes, unha e carne com ella, muito chegadinhos— e o pobre calvo a babar-se ao lado, o asno !

A Concha fez-se pallida, depois escarlate. E subitamente, tornou-se muito amavel com o Melehior : fel-o sentar ao pé d'ella, muito juntinhos queimou-lhe ella mesmo o café, desmanchou-lhe o cabelIo, occupando-se d'elle. palrando alto, sem um olhar, uma palavra para Arthur.

— Vocês estão amuados ? — perguntou Melchior com o rosto tumido de prazer.

Arthur teve um sorriso amargo :

— Tem estado com os nervos, a menina.

Mas a Concha ergueu-se bruscam ente, entron no quarto fechando a porta sobre si e sentiram-na no corredor gritar pela creada.

— Que diabo tem ella ? — perguntou Melchior, sorvendo placidamente o seu café.

Arthur teve uma tentação de desabafar, contar as suas suspeitas ; mas, vaidoso, não querendo dar a Melchior o gostinho de vêr justificadas as suas desconfiançasI — encolheu os hombros, disse :

— Eu sei lá ! Mulheres !

Melchior deu-lhe de lado um olhar apiedado e desdenhoso e pareceu sorver com delicia a ultima gota da chicara.



(continua...)

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