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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

O que de novo preoccupava seriamente Arthur era o dinheiro. Desde a intimidade com o Manolo, as desvezas cresciam. O republicano tinha todos os dias uma idéa cara : irem a Queluz, tomarem uma quarta ordem em S. Carlos, uma ceia na Ponte d'Algés, e com as contas do Hotel, as tipoias, as luvas, os charutos, tinha dias de duas, tres libras !

Mas não podia modificar a, sua existencia. Era cheia de tantas doçuras ! A Concha que perdera agora todos os seus « nervos », andava muito egual, muito amorosa. O emigrado e Melchior constituiam a Arthur uma pequena Côrte : gostava de os vêr á 8ua mesa, bebendo-lhe o seu Cognac, cortejando-lhe a sua amante. Deleitava-se em lhes dar o espectaculo dos seus amores : beijocava a Concha deante d'elles—o que produzia em Melchior a immediata necessidade de se levantar, de puxar as calças com maus modos, e no hespanhol, a de cofiar o buço, com as suas Delas pestanas descidas : até que a Concha, um dia, lhe declarou que era faltar-lhe ao respeito, abraçai-a e fazer pieguices deante de gente.

De resto, Manolo punha cuidados delicados •isonjear Arthur : recebera, comino vido, a offerta dos Esmaltes e Joiag e dera-se trabalho de de-

corar algumas estrophes da Ode á Liberdade. Pro mettera-lhe traduzir todo o volume para um joreal republicano de Marcia e dizia-lhe, á mesa: com arrebatamento :

—- Don Arturo, es usted et primer poeta del siglo ! Es usted Hugo ! Es usted un Dante !

E assim, com um amigo que o comprehelldia üo bem, uma amante que lhe queria tanto, 0 otor dos Esmaltes e Joias tinha dias em que an dava inchado de gozo, Se nao tosse o dinheiro ! O maldito dinheiro ! .

A resposta do emprezario no emtanto tardava e Arthur instava com Melchior para que voltasse a fallar-lhe, o apertasse. Que diabo, a cousa urgia ! E havia agora na sua impaciencia, nao só a necessidade de recursos, mas o desejo de deslumbrar o hespanhol com o espectaculo d'uma l)laléa: arreba tada. Melchior, complacente, fôra ao emprezario que se declarara, « occupadissimo, menino, occupa• dissimo » e pedia mais quinze dias ! Mas a cousa havia de ir, a cousa havia de ir !

Porém Melchior v andava de novo desconjiaao com o h6panhol : Ir:itava-o sobretudo o saber que a Concha retomara o habito de sahir de manhã, duas, tres vezes por semana. Ora ia vêr a Paca estava muito doente, ora, á modista, ora apeD08 dar un passeito. Col'.su.rou Arthur por consentir n%a.qüel -

-Iag passeabas.

—A rapariga não ha-de estar aqui como n'um convento dizia .A rthur;

E accrescenlava, girando com fatuidade sobre os calcan hares : — Estou tão certo d'ella como de mim mesmo !

Melchior deixava-lhe cahir sobro as costas um olhar rancaoroso, cheio d'um desprezo immeuso,

Não podia, por vezes, disfarçar ataques subitos d'odio pelo emigrado. De repente, sem razão, embezerrava. A Concha percebia, vinha gracejar com elle, perguntar-lhe o que tinha su abc¿elito, se estava zangado com su uietita, retorcia-lhe o bigode, sentava-se-lhe mesmo nos joelhos, rindo, puland.o, emquanto Manolo, muito serio, harpejava os bor(Iões da guitarra ou jogava com Arthur o écarté a dous tostões. Melchior, ordinariamente, acalmava-se, mas, só com Arthur, desabafava : não podia tragar o Manolo ! Não podia ! Um dia quebrava a cara ao

Manolo . . .

— Mas porquê, Melchior

Melchior calava-se e d'ahi a pouco rosnava :

— O governo é que tem a culpa ; consentir n'esta sucia de foragidos !

Arthur espantava-se d'um patriotismo tão fanatico, tão intolerante. Era necessario tambem não ser caturra, que diabo ! Os hespanhoes _eram uma raça nobre . . .

— Uma corja ! — rugia Melchior.

E dando passadas pelo quarto, sondava com mãos nervcosas as algibeiras, como para procurar uma arma :

— Um dia rasgo entranhas a um castelhano . E uma oceasião, njãD se contendo, disse a Arthur n'uma explosão :

— Pois você não vê como ella fa.z olho ao Manolo



(continua...)

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