Por Eça de Queirós (1900)
- Louvado seja Deus, Sr. D. Antônio! Que imaginei que não tornava a ver o meu rico senhor.Também já tinha decidido... Se me enterrassem o corpo aqui em Santa Irenéia, antes de eu ver o menino, a alma com certeza ia à África para lhe fazer uma visita.
Os seus miúdos olhos piscaram, lacrimejando de gosto - e seguiu pelo corredor, tesa e decidida, com a sua trouxa que rescendia a maçã camoesa. O Gouveia murmurara com uma careta: "Safa!" E os três amigos desceram ao pátio onde, por curiosidade do Titó, visitaram as obras da cavalariça.
- Veja você! - exclamou ele para o Gouveia, que acendia o charuto. - Você a negar!... Mobílias,obras, égua inglesa... Tudo já dinheiro de África.
O Administrador encolheu os ombros:
- Veremos depois como ele traz o fígado...
Diante do portão o Titó ainda parou a colher, na roseira costumada, uma rosinha para florir o jaquetão de veludilho. E juntamente entrava o Padre Soeiro, recolhendo duma volta pelos Bravais, com o seu grande guarda-sol de paninho e o seu breviário. Todos acolheram com carinho o santo e douto velho, tão raro agora na Torre.
- E então, no domingo, cá temos o nosso homem, Padre Soeiro!
O capelão achatou sobre o peito a mão gorda, com reverência, com gratidão...
- Deus ainda me quis conceder, na minha velhice, mais esse grande favor... Pois mal o esperava. Terras tão ásperas, e ele tão delicado...
E para conversar de Gonçalo, da espera em Craquede, acompanhou aqueles senhores até a ponte da Portela. João Gouveia manquejava, aperreado por umas infames botas novas que nessa manhã estreara. E descansaram um momento no belo banco de pedra que o pai de Gonçalo mandara colocar, quando Governador Civil de Oliveira. Era esse o doce sítio donde se avista Vila-Clara, tão asseada, sempre tão branca, àquela hora toda rosada, desde o vasto convento de Santa Teresa até o muro novo do cemitério no alto, com os seus finos ciprestes.
Para além dos outeiros de Valverde, longe, sobre a Costa, o sol descia, vermelho como um metal candente que arrefece, entre nuvens vermelhas, acendendo ainda, em ouro coruscante, as janelas da Vila.
Ao fundo do vale, uma claridade nimbava as altas ruínas de Santa Maria de Craquede, entre o seu denso arvoredo. Sob o arco, o rio cheio corria sem um rumor, já dormente na sombra dos choupos finos, onde ainda pássaros cantavam. E na volta da estrada, por cima dos álamos que escondiam o casarão, a velha Torre, mais velha que a Vila e que as ruínas do Mosteiro, e que todos os casais espalhados, erguia o seu esguio miradoiro, envolto no vôo escuro dos morcegos, espreitando silenciosamente a planície e o sol sobre o mar, como em cada tarde desses mil anos, desde o Conde Ordonho Mendes.
Um pequeno com uma alta aguilhada passou, recolhendo duas vacas lentas. Do lado da Vila, o Padre José Vicente da Finta trotou na sua égua branca, saudou o Sr. Administrador, o amigo Soeiro, abençoando também a chegada do Fidalgo para quem já preparara uma bela cesta da sua uva moscatel. Três caçadores, com uma matilha de coelheiros, atravessaram a estrada, descendo pelo portelo à quelha que contorna o casal do Miranda.
Um silêncio ainda claro, de imenso repouso, tão doce como se descesse do céu, cobria a largueza povoada dos campos, onde não se movia uma folha, na macia transparência do ar de setembro. Os fumos das lareiras acesas já se escapavam, lentos e leves, dentre a telha rala. Na loja do João ferreiro, adiante da Portela, o clarão da forja avivou, mais vermelho. Um bum-bum de tambor bateu festivamente para o lado dos Bravais, cresceu apressado, marchando - nalgum cabeço, depois lentamente se afastou, esmoreceu, logo sumido, em arvoredos ou no vale mais fundo.
João Gouveia, que se recostara no canto do largo assento de pedra, como seu coco sobre os joelhos, acenou para o lado dos Bravais:
- Estou a lembrar aquela passagem do romance do Gonçalo, quando os Ramires se preparampara socorrer as Infantas, andam a reunir a mesnada. É assim, a estas horas da tarde, com tambores; e por sítios... "Na frescura do vale..." Não! "Pelo vale de Craquede..." Também não! Esperem vocês, que eu tenho boa memória... Ah! "E por todo o fresco vale até Santa Maria de Craquede, os atambores mouriscos abafados no arvoredo, tarará! tarará! ou mais vivos nos cerros, ratatá! ratatá! convocavam a mesnada dos Ramires, na doçura da tarde..." É lindo!
Por sobre as costas do Titó que, debruçado, riscava pensativamente com o bengalão a poeira da estrada, Videirinha adiantou para o seu chefe a face estendida, com um sorriso de finura:
- Oh Sr. Administrador, olhe que talvez seja ainda mais bonito, quando os Ramires largam aperseguir o Bastardo! Cá para mim, tem mais poesia. Quando o velho faz aquela jura com a espada e depois lá na Torre, muito devagar, começa a tocar a finados... É de apetite!
À borda do assento, encolhido contra o Titó, para que o Sr. Administrador se alastrasse confortavelmente, Padre Soeiro, com as mãos no cabo do seu guarda-sol, concordou:
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.