Por Euclides da Cunha (1902)
E do correr da borda do caminho ao mais profundo das macegas, outros companheiros de infortúnio: esqueletos vestidos de fardas poentas e rotas, estirados no chão, de supino, num alinhamento de formatura trágica; ou desequilibradamente arrimados aos arbustos flexíveis, que, oscilando à feição do vento, lhes davam singulares movimentos de espectros — delatavam demoníaca encenação adrede engenhada pelos jagunços. Nada Ihes haviam tirado, excluídas as munições e as armas. Uma praça do 25.° encontrou, no lenço envolto na tíbia descarnada de um deles, um maço de notas somando quatro contos de réis — que o adversário desdenhara, como a outras coisas de valor para ele despiciendas.
Os combatentes, assombrados, mal atentaram naquele cenário; porque o inimigo continuava aferroando-os, de esguelha. Repelido no recontro anterior, depois que o contornara pela direita uma companhia do 25.° dirigida pelo capitão Trogílio de Oliveira, recuava, atacando.
O 25.° e logo após o 27.°, do major Henrique Severino da Silva, prosseguiram repelindo-o, até ao Angico.
Era meio-dia. A batalha parecia iminente. Em vários pontos, partindo dos flancos e da frente, estalavam tiros destacados. O comandante geral tomou as disposições mais convenientes para repelir o adversário que tudo denotava ir aparecer, rodeando-o. Um piquete de cavalaria dirigido pelo alferes Marques da Rocha, de seu Estado-maior, enviado a bater o matagal, à esquerda, revolveu-o, entretanto, inutilmente. A avançada prosseguiu.
Duas horas depois, ao transpor o general o teso de uma colina o ataque recrudesceu, de súbito. Fizeram-se alguns disparos de Krupp. Um sargento de cavalaria e algumas praças arrojaram-se temerariamente na caatinga. Varrem-na. A marcha continuou. Na frente o 25.° vanguardeado por uma companhia de exploradores, e sucessivamente seguidos do 27.° e o 16.°, replicava aos tiroteios escassos e acelerava a investida.
Aproximava-se a noite. A vanguarda arremeteu com as últimas ladeiras vivas do caminho, nas Umburanas. Subiu-as ofegante, sem vacilar na marcha. Repeliu mais uma vez o ataque sério, pelo flanco.
E vingou a montanha.
No último passo da ascensão se lhe antolhou um plano levemente inclinado,
entre duas largas ondulações, fechado adiante por alguns cerros desnudos. Era o alto da Favela.
O ALTO DA FAVELA
Naquele ponto este morro lendário é um vale. Subindo-se tem-se a impressão imprevista de se chegar numa baixada.
Parece que se desceu. Toda a fadiga da ascensão difícil se volve em penoso desapontamento ao viajor exausto. Constringe-se o olhar repelido por toda a sorte de acidentes. Ao contrário de uma linha de cumeadas, depara-se, no prolongamento do caminho do Rosário, um talvegue, um sulco extenso, espécie de calha desmedida trancada, transcorridos trezentos metros, pela barragem de um cerro.
Atingindo este, vêem-se-lhe aos lados, esbotenando-lhes os flancos e corroendo-os, fundos rasgões de enxurros que drainam a montanha. Por um deles, o da direita, se enfia, entalando-se em passagem estreita de rampas vivas e altas, quase verticais, lembrando restos de antigos túneis, aquele caminho, descendo, em desnivelamentos fortes. À esquerda outra depressão, terminando na encosta suave de um morro, o do Mário, se dilata na extensão maior de norte a sul, fechando-se, naquele primeiro rumo, ante outro cerro, que oculta o povoado e tomba, de chofre, pelo outro, em boqueirão profundo até ao leito do Umburanas. À frente, em nível inferior, a fazenda Velha. O pequeno Serrote dos Pelados cai logo, em seguida, em declive, até o Vaza-Barris, embaixo. E para todos os quadrantes — para leste, buscando o vale do Macambira, aquém das cumeadas do Cocorobó e a estrada de Jeremoabo que o atravessa; para o norte, derivando para a vasta planície ondeada; para o ocidente, procurando os leitos dos pequenos rios, o Umburanas e o Mucuim perto do extremo da estrada do Cambaio; para todos os lados, o terreno descamba com o mesmo facies que lhe imprimem sucessivos cômoros empolando-se numa confusão de topos e talhados. Tem-se a imagem real de uma montanha que desmorona, avergoada pelas tormentas, escancelando-se em gargantas, que as chuvas torrenciais de ano a ano reprofundam, sem o abrigo de vegetação que lhe amorteça a crestadura dos estios e as erosões das torrentes.
Porque o morro da Favela, como os demais daquele trato dos sertões, não tem nem mesmo o revestimento bárbaro da caatinga. E desnudo e áspero. Raros arbúsculos, esmirrados e sem folhas, raríssimos cereus ou bromélias esparsas, despontam-lhe no cimo sobre o chão duro, entre as junturas das placas xistosas justapostas em planos estratigráficos, nitidamente visíveis, expondo, sem o disfarce da mais tênue camada superficial, a estrutura interior do solo. Entretanto, embora desabrigado, quem o alcança pelo sul não vê logo o arraial, ao norte. Tem que descer, como vimos, em suave declive, a larga plicatura em que se arqueia, em diedro, a montanha, numa selada entre lombas paralelas.
FUZILARIA
Por ali enveredou, ao anoitecer, a testa da coluna e uma bateria de Krupp, seguidas do resto da 2.ª Brigada e da 3.ª, ficando a 1.ª e o grosso da tropa retardados à retaguarda. Mas deram poucos passos mais. O tiroteio frouxo, que até então acompanhara os expedicionários, progredira num crescendo contínuo, à medida que se realizava a ascensão, transmudando-se ao cabo, no alto, em fuzilaria furiosa.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.