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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Qual baixo ! É um bebado ! Olha que brincadeira ! Estavamos aqni todos tres como Deus com os anjos . . . Está tudo estragado agora ! Eu por mim, não torno aqui a pôr os pés

A colera eriçava-lhe os pellos do bigode. Arthur tentava calmai-o : o D. Manuel parecia-lhe urna

pessoa fina . . .

— Você verá ! Espere-lhe pela volta !

— Mas porquê, que diabo ?

Melchior hesitou, parecia querer soltar uma rovelação, mas depois d'encolher desesperadamente os hombros :

—A culpa é do governo ! Canalhas d'hespanhoes ! Eu, é gente que odeio — E lançou-se em violentas declamaçoes patrioticas : a Uniõo Iberica era a infamia das infamias ! Mas que se livrasse um hespanhol de se lhe. atravessar no caminho Bebia-lhe o Bangue ! Positivamente, bebia-lhe o sangue !

Uma risada muito alta, muito calida, da Concha, dentT0, na saleta, interrompeu-o, immobilisou-o : olhou Arthur dos pés á cabeça com odio, com desprezo—e atirando o chapéu para a nuca, rompeu pelo corredor, blasphemando.

Quando Arthur voltou á saleta, a contar que Melchior abalara, achou a Concha muito animada, com uma côr radiosa nas faces : nunca a vira tão bonita ; tinha descoberto que D. Manuel era ainda seu parente e diziam-se já com familiaridade : Conchita, Manolo !

O emigrado tornou-se intimo d 'elles. A Concha não quizera voltar á mesa não comer ao pé da (indecente do primeiro andar»—e quando Manolo não vinha jantar com elles, appa,recia á sobremesa para tomar o café e fumar um puro. Arthur cada dia o estimava mais : a sua alegria petulante seduzia-o ; os seus serviços á republica inspiravamlhe respeito ; gostava das discussões politicas, com o copinho de curaçao defronte. talhando e retalhando a Europa, geaundo planos vagos d'uma democracia universal ; e tinha momentos deliciosos, ouvindo-o contar anecdotas da revoluç¿o de 68, cantar cançonetas politicas ou fazer gemer na guitarra as segliidilhas d'Andaluzia. Tinha toda a sorte d'habilidades : fazia caricaturas com um phosphoro apagado sobre um prato, sabia necromancia, jogava a espada — e dava mesmo liçõcs a Arthur, no seu proprio quarto, onde lhe fazia admirar retratos de republicanos illustres que conhecera e d'actrizos que tinham sido sus queridas. Com a Concha, era d'uma familiaridade fraternal mas discreta, com tons de respeito ; divertia-a muito, tirando-lhe as cartas, lendo-lhe a buena-dicha, com prophecias complicadas, em que os destinos d'ella e d'Arthur appareciam sempre unidos, escorrendo de felicidades, como taças muito cheias.

Melchior, durante os primeiros dias, não voltara. Mas uma tarde, Arthur entrando no qua,Tto ás quatro horas, achou-o installado ao pé da Concha, retorcendo com satisfação o bigode : tinha feito as pazes com a pequena, Mostrou-se n'essa noite mais conciliador com o hespanhol, a ponto de so declarar, elle tambem, republicano e mesmo acceitou com prazer um convite que o emigrado lhe fez para um jantar que dava «a Conchita y az amigo Arturo Foi uma festa muito alegre. Á sobremesa, na excitacão do Champagne, juraram estimar-se sempre e formarem uma sociedade de pandega : Arthur,

Concha (t C.a !

Arthur perdera inteiramente o vago ciume que ao principio lhe inspirara D. Manolo ; de certo a Concha era muito affavel com eJle, quasi carinhosa, mas só via n'aqnelle sentimento uma amizade de compatriotas que s'encontrarn n 'uma estranha e a affeição de parente2 remotos. Além d'isso, a Concha, a sós com elle, nas conversas intimas do leito, tinha-lhe confessado por vezes que gostava do Manolo, mas que desconfiava d'elle : achava-lhe « cara de mau ; perguntara-lhe mesmo se sabia (Iliem era a querida d'elle. Já varias vezes, deanto d' Arthur, ella perguntara a Manolo «quien eran sus amores» ; o Manolo torcia o buço n'um silencio discreto e instado terminava por dizer com emphase — que a sua querida era a Patria ! De resto a Concha affirmava que o Manolo, al)ezn,}' de bonito, não era um typo para mulheres : muito effeminad.o, muito maricas !

Por seu lado Manolo, na intimidade, a sós com Arthur, confessara-lhe, como forçado pela verdade e lamentando a franqueza, que a Concha lhe não parecia bonita ; não era feia, sim, mas havia d'elle vêr as mulheres de Cadiz ! Havia d'elle vêr a sua pequena, a que estava em Sevilha ! Isso sim ! A Concha .

E Arthur vivia tranquillc. Deixava-os sós por vezes e quasi se escandalisava do gesto iudifferente, seccado que tinha a Concha, quando ás vezes, de manhã, Manolo lhe mandava um ramo de camelias.

— Mas é muito amavel da Tarte d'elle, filha !

É muito delicado ! Deves gostar I

— No me gusta, no me gusta — dizia ella, voltando as costas com o ramo na mão e cobrindo as flôres com um olhar dôce como um beijo,



(continua...)

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