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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Perdia Amélia para sempre!... Aquele homem que ele expulsara, que ele suprimira, ali lhe vinha, por uma destas peripécias malignas em que a Providência se compraz, levar-lhe a mulher legitimamente. E a idéia que ele ia tê-la nos braços, que ela lhe daria os beijos fogosos que lhe dava a ele, que balbuciaria oh, João! - como agora murmurava oh, Amaro! - enfurecia-o. E não podia evitar o casamento; todos o queriam, ela, o cônego, até a Dionísia com o seu zelo venal!

De que lhe servia ser um homem com sangue nas veias e as paixões fortes dum corpo são? Tinha de dizer adeus à rapariga, - vê-la partir de braço dado com o outro, com o marido, irem ambos para casa brincar com o filho, um filho que era seu! E ele assistiria à destruição da sua alegria de braços cruzados, esforçando-se por sorrir, voltaria a viver só, eternamente só, e a reler o Breviário!... Ah! se fosse no tempo em que se suprimia um homem com uma denúncia de heresia!... Que o mundo recuasse duzentos anos, e o Sr. João Eduardo havia de saber o que custa achincalhar um sacerdote e casar com a menina Amélias ...

E esta idéia absurda, na exaltação da febre em que estava, apoderou-se tão fortemente da sua imaginação que toda a noite a sonhou - num sonho vívido, que muitas vezes depois contou rindo às senhoras. Era uma rua estreita batida dum sol ardente; entre as altas portas chapeadas, uma populaça apinhava-se; pelos balcões, fidalgos muito bordados retorciam o bigode cavalheiresco; olhos reluziam, entre as pregas das mantilhas, acesos num furor santo. E pela calçada, a procissão do auto-de-fé movia-se devagar, num vasto ruído, sob o tremendo dobre a finados de todos os sinos vizinhos. Adiante os flagelantes seminus, de capuz branco sobre o rosto, dilaceravam-se, uivando o Miserere, com as costas empastadas de sangue: sobre um jumento ia João Eduardo, idiota de terror, com as pernas pendentes, a camisa alva sarapintada de diabos cor de fogo, tendo no peito um rótulo em que estava escrito - POR HEREGE; por trás um medonho servente do Santo Ofício espicaçava furiosamente o jumento; e ao pi um padre, erguendo alto o crucifixo, berrava-lhe aos ouvidos os conselhos do arrependimento. E ele, Amaro, caminhava ao lado cantando o Requiem, de Breviário aberto numa mão, com a outra abençoando as velhas, as amigas da Rua da Misericórdia que se agachavam para lhe beijar a alva. Às vezes voltava-se para gozar aquela pompa lúgubre, e via então a longa fila da confraria dos Nobres: aqui era um personagem pançudo e apoplético, além uma face de místico com um bigode feroz e dois olhos chamejantes; cada um levava uma tocha acesa, e na outra mão sustentava o chapéu cuja pluma negra varria o chão. Os capacetes dos arcabuzeiros reluziam; uma cólera devota contorcia as faces esfomeadas do populacho; e o préstito ondeava nas tortuosidades da rua, entre o clamor do cantochão, os gritos dos fanáticos, o dobrar aterrador dos sinos, o tlintlim das armas, num terror que enchia toda a cidade, - aproximando-se da plataforma de tijolo onde já fumegavam as pilhas de lenha.

E o seu desengano foi grande, depois daquela glória eclesiástica do sonho, quando a criada o veio acordar cedo com água quente para a barba.

Era pois nesse dia que se ia saber do Sr. João Eduardo, e escrever-se-lhe!... Devia encontrar-se com Amélia às onze horas; e foi a primeira coisa que lhe disse, atirando a porta do quarto com mau modo:

- O homem apareceu... Pelo menos apareceu o amigo intimo, o tipógrafo, que sabe onde a besta pára.

Amélia, que estava num dia de desalento e terror, exclamou: - Ainda bem, que se acaba este tormento!

Amaro teve um risinho repassado de fel:

- Então agrada-te, hem?

- Se te parece, neste susto em que ando...

Amaro teve um gesto desesperado de impaciência. Susto! Não estava má hipocrisia! Susto de quê? Com uma mãe que era uma babosa, que lhe consentia tudo... O que era, era que queria casar... Queria outro! Não lhe agradava aquele divertimento pela manhã, de fugida... Queria a coisa comodamente, em casa. Imaginava a menina que o iludia a ele, um homem de trinta anos e quatro anos de experiência de confissão? Via bem através dela... Era como as outras, queria mudar de homem.

Ela não respondia, muito pálida. E Amaro, furioso com o seu silêncio:

- Calas-te, está claro... Que hás-de tu dizer? Se é a verdade pura!... Depois dos meus sacrifícios...

Depois do que tenho sofrido por ti... Aparece-te o outro, larga para o outro!

Ela ergueu-se, e batendo o pé, desesperada:

- Foste tu que quiseste, Amaro!

- Pudera! Se imaginas que me havia de perder por tua causal Está claro que quis!... - E olhando-a de alto, fazendo-lhe sentir um desprezo de alma muito reta; - Mas nem vergonha tens de mostrar a alegria, o furor de ir para o homem!... És uma desavergonhada, é o que é...

Ela, sem uma palavra, branca como a cal, agarrou o mantelete para sair.

Amaro, exasperado, segurou-a violentamente pelo braço:

- Para onde vais? Olha bem para mim. És uma desavergonhada... Estou-te a dizer. Estás morta por dormir com o outro...

- Pois acabou, estou! disse ela.

Amaro, perdido, atirou-lhe uma bofetada.

- Não me mates! gritou ela. É o teu filho!

(continua...)

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