Por Eça de Queirós (1900)
"...com o meu vestido verde novo, exceto a saia, um pouco pesadota. Creio que fui eu a primeira que avistou o primo Gonçalo, na plataforma do Sud-Express. Não imaginas como vem... ótimo! Até mais bonito, e sobretudo mais homem. A África nem de leve lhe tostou a pele. Sempre a mesma brancura. E duma elegância, dum apuro! Prova de como se adianta a civilização da África! dizia o primo Arega, este é estilo novo de tangas em Macheque!... Como imaginas, muito abraço, muita beijoca. A tia Louredo choramingou. Ah, já esquecia! Estava também o Visconde de Rio-Manso, com a filha, a Rosinha. Muita linda ela, com um vestido do Redfern, fez sensação. Todos me perguntavam quem era, e o Conde de Arega, está claro, logo com apetite de ser apresentado. O Rio-Manso também choramingou ao abraçar o primo Gonçalo. E ali viemos todos, em nobre séquito, pela estação fora, entre o pasmo dos povos. Mas imediatamente uma cena. De repente, no meio de toda aquela nata de brasões, o primo Gonçalo rompe e cai nos braços do homenzinho de bonnet agaloado que recebia à porta os bilhetes. Sempre o mesmo Gonçalo! Parece que o conheceu ao chegar a Lourenço Marques, onde o homem tratava de se estabelecer como fotógrafo. Mas já esquecia o melhor - o Bento! Não imaginas o Bento... Magnífico! Deixou crescer um bocado de suíça. É um modelo, vestido em Londres, de grande casaco de viagem de pano claro, até aos pés, luvas amareladas, gravidade imensa. Gostou de me ver na estação - perguntou logo, com o olho miúdo, pela Sra. D. Graça, e pela Rosa. A noite, o José e eu jantamos em família, com o primo Gonçalo, no Bragança, para conversar da Torre e dos Cunhais. Ele contou muitas coisas interessantes da África. Traz notas para um livro, e parece que o prazo prospera. Nestes poucos anos plantou dois mil coqueiros. Tem também muito cacau, muita borracha. Galinhas são aos milhares. É verdade que uma galinha gorda em Macheque vale um pataco. Que inveja! Aqui em Lisboa custa seis tostões, só com ossos - porque tendo também alguma carne no peito, salta para cá dez tostões, e agradece! No prazo já se construiu uma grande casa, próximo do rio, com vinte janelas e pintada de azul. E o primo Gonçalo declara que já não vende o prazo nem por oitenta contos. Para felicidade completa até achou um excelente Administrador. Eu todavia duvido que ele volte para a África. Tenho agora cá a minha linda idéia sobre o futuro do primo Gonçalo. Talvez até rias. E não adivinhas... com efeito, eu mesma só nessa noite em que jantamos no Bragança, recebi de repente a inspiração. O Rio-Manso está também no Bragança. Quando descíamos para o jantar, para um gabinete, encontramos no corredor o velho com a pequena. O homem tornou logo a abraçar Gonçalo, com uma ternura de pai. E a Rosinha tão vermelha se fez, que até Gonçalo, apesar de excitado e distraído, notou e corou de leve. Parece que já há entre eles um conhecimento antigo, por causa dum cesto de rosas, e que, desde anos, o Destino os anda sorrateiramente chegando. Ela é realmente uma beleza. E tão simpática, tão bem-educada!... Diferença de idade, apenas onze anos; e o dote tremendo. Falam em quinhentos contos. Ha: apenas a questão de sangue, e o dela, coitadinha... Enfim, como se diz em heráldica - "o Rei faz a pastora Rainha". E os Ramires não só vêm dos Reis, mas os Reis vêm dos Ramires. - E agora passando a assunto menos interessante..."
Discretamente João Gouveia dobrou a carta, que entregou a Gracinha, louvando a Sra. D. Maria Mendonça como um repórter precioso. Depois, com um cumprimento:
- E; minha senhora, se as previsões dela se realizam...
Mas não! Gracinha não acreditava! Ora! imaginações da Maria Mendonça.
- O primo Antônio bem a conhece, sabe como ela é casamenteira...
- Pois se até a mim me quis casar - ribombou o Titó saltando do rebordo da varanda. - Imagine aprima... Até a mim! Com a viúva Pinho, da loja de panos.
- Credo!
Mas o Gouveia insistia, com superioridade, um sentimento verdadeiro da vida positiva:
- Olhe, Sra. D. Graça, acredite V. Exa., sempre era melhor arranjo para o Gonçalo que a África...Eu não acredito nesses prazos... Nem na África. Tenho horror à África. Só serve para nos dar desgostos. Boa para vender, minha senhora! A África é como essas quintarolas, meio a monte, que a gente herda duma tia velha, numa terra muito bruta, muito distante, onde não se conhece ninguém, onde não se encontra sequer um estanco; só habitada por cabreiros, e com sezões todo o ano. Boa para vender.
Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:
- O quê! vender o que tanto custou a ganhar, com tantos trabalhos no mar, tanta perda de vida efazenda?!
O Administrador protestou logo, com calor, já enristado para a controvérsia:
- Quais trabalhos, minha senhora? Era desembarcar ali na areia, plantar umas cruzes de pau, atirar uns safanões aos pretos... Essas glórias de África são balelas. Está claro, V. Exa. fala como fidalga, neta de Fidalgos. Mas eu como economista. E digo mais...
O seu dedo agudo ameaçava argumentos agudos.
Titó acudiu, salvou Gracinha:
- Oh, Gouveia, nós estamos a tirar o tempo à prima Graça, que anda nos seus arranjos. Essasquestões da África são para depois, com o Gonçalo, à sobremesa... E então, minha querida prima, até domingo, em Craquede. Lá comparece o rancho todo. E quem atira os foguetes sou eu!
Mas Gouveia, cofiando o coco com a manga, ainda esperava converter a Sra. D. Graça às idéias sãs, sobre Política Colonial.
- Era vender, minha senhora, era vender! - Ela sorria, já consentia - tomando a mão deVideirinha, que hesitava, com os dedos espetados:
- E então, Sr. Videira, tem agora algumas quadras novas para o Fado?
Corando, Videirinha balbuciou que "arranjara uma coisita, também num fado, para a volta do Sr. Doutor". Gracinha prometeu decorar, para cantar ao piano.
- Muito agradecido a V. Exa.... Criado de V. Exa....
- Então até domingo, primo Antônio... Está uma tarde linda.
- Até domingo, em Craquede, prima.
Mas à porta envidraçada, João Gouveia parou mais teso, bateu na testa:
- Já me esquecia, desculpe V. Exa.! Recebi uma carta do André Cavaleiro, da Figueira da Foz.Manda muitas saudades ao Barrolo. E quer saber se o Barrolo lhe poderia ceder daquele vinho verde de Vidainhos. E também para um africanista, para o Conde de S. Romão... Parece que a Sra. Condessa se péla por vinho verde!
E os três amigos, em fila, atravessaram a sala de jantar, onde o vozeirão do Titó ainda ribombou, louvando a esteira nova de cores. No corredor, Videirinha espreitou para a Livraria, notou o molho de penas de pato espetado no velho tinteiro de latão, que esperava, rebrilhando solitariamente sobre a mesa nua sem papéis nem livros. Depois a Rosa apareceu à porta do quarto de Gonçalo, ajoujada de roupa, com um riso em cada ruga da sua face redonda e cor de tijolo, que o farto lenço de cambraia, muito branco, circundava como um nimbo. O Titó afagou carinhosamente o ombro da boa cozinheira:
- Então, tia Rosa, agora recomeçam essas grandes petisqueiras, hem?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.