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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

A Maroca nem deu fé da chegada dos cavaleiros, e conservou-se imóvel como uma estátua, sempre com os olhos desvairados fincados sobre aquele corpo ensangüentado.

Chamaram-na pelo nome, sacudiram-na com força para ver se a arrancavam daquele torpor, e se dizia alguma coisa da cena horrorosa que ali se passara. Mas ela apenas olhava para eles como que pasmada, resmungava uns sons ininteligíveis, e tornava a cravar olhos estatelados sobre o cadáver.

E aquela feiticeira menina, ainda nessa madrugada tão linda, tão viva e travessa, agora descabelada, salpicada de sangue, com as feições horrivelmente transtornadas, parecia um fantasma, e causava horror àqueles mesmos que ainda há pouco morriam por um só de seus sorrisos. O espanto, o terror e talvez o remorso tinham fulminado a alma da infeliz rapariga, que caiu em um estado de idiotismo, do qual nada pôde depois arrancá-la.

A pobrezinha tinha também os vestidos e as mãos salpicadas de sangue, e parecia ferida, posto que ligeiramente, em uma ou outra parte do corpo. Sem dúvida naquele trance horrível se lançara entre os combatentes para os separar e se achara envolvida naquela temerosa luta.

Os cavaleiros, à vista do que observaram, concluíram que o combate tinha sido renhido, furioso e desesperado. O corpo de Reinaldo estava todo contuso, cutilado e esfaqueado; na boca e nos dentes, onde espumava um sangue negro, viam-se farrapos de pano, o que indicava que no último trance o infeliz combatera até com os dentes. Tudo enfim revelava que ali se passara uma cena pavorosa, da qual os vestígios mudos, que existiam, falavam mais alto do que toda e qualquer narração.

Notaram depois os cavaleiros que pelo campo seguia uma batida, a qual ia salpicada de um rastilho de sangue e que ia perder-se na estrada; daí depreenderam que Gonçalo, gravemente ferido na luta, por aí se retirara, naturalmente para sua casa. Dois dos companheiros seguiram aquele trilho ensangüentado, a ver se encontravam Gonçalo vivo ou morto; seguiram pela estrada até a fazenda do mesmo, mas não o encontraram lá. A gente da casa não soube dizer o que era feito dele, posto que percorressem toda aquela vizinhança em inúteis pesquisas e indagações. Os outros se encarregaram de procurar meios de transportar para a vila o cadáver de Reinaldo, e o corpo também quase sem alma da infeliz Maroca.

Quanto a Gonçalo, nunca mais se pôde saber o destino que tomara, nem se era vivo ou morto. A justiça e mesmo os particulares fizeram por muito tempo grandes esforços para descobrir-lhe a pista. Mas tudo foi baldado. Seus amigos também fizeram por largo tempo ativas e perseverantes pesquisas por toda a capitania sem poder obter dele nem a mais leve notícia. Desanimados enfim de encontrá-lo descansaram na suposição, aliás muito plausível, de que Gonçalo, gravemente ferido na luta em que sacrificara o seu amigo, tinha morrido em alguma gruta oculta e profunda, ou pelos matos em algum recanto, onde era impossível descobri-lo, e que suas carnes tinham sido devoradas pelos corvos, e seus ossos arrebatados pelas enxurradas.

Esse deplorável acontecimento, que causou geral assombro e consternação, foi por largo tempo em Goiás objeto de conversação em todos os círculos.

— Eis aí o que faz uma mulher má! dizia a tia Josefa, velha companheira de mestre Mateus, anos depois daquele acontecimento, em um dia em que mestre Mateus acabava de contar com todas as particularidades aquele trágico sucesso a algumas pessoas que se achavam em sua casa. Dois rapazes tão novos, tão bons, tão bem-apessoados, dois guapos mocetões, que mereciam cada um uma noiva de truz, foram para o mato fora de horas esfaquearam-se como furiosos e matarem-se por amor de uma perdida, que...

— Arre lá com isso, minha velha! atalhou mestre Mateus; não te faz pena ao menos o triste estado em que até hoje se acha a coitadinha. Maroca era uma simples criança, que não sabia o que fazia. Os tais senhores mocetões é que eram dois loucos furiosos. Deus os perdoe e se amerceie de suas almas. Ela era uma pobre menina, que ainda não podia saber o que os homens são capazes de fazer por amor de uma mulher bonita. Olha, Josefa, a coitadinha ainda está muda e pateta assim mesmo como no dia em que aconteceu a desgraça. Foi castigo de Deus! resmungou a velha.

POUSO SEGUNDO

OS CHAVANTES

CAPÍTULO I

O COMBATE

(continua...)

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