Por Machado de Assis (1876)
O medo? O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito desfaz-se; basta a simples reflexão. Em pequena educaram-me com almas do outro mundo. Até a idade de dez anos era incapaz de penetrar numa sala escura. Um dia perguntei a mim mesma se era possível que uma pessoa morta voltasse à terra. Fazer a pergunta e dar-lhe resposta era a mesma coisa. Lavei o meu espírito de semelhante tolice, e hoje era capaz de entrar, de noite, num cemitério... E daí talvez não: os corpos que ali dormem têm direito de não ouvir mais um só rumor de vida.
Estácio chegara ao último degrau da escada. As derradeiras palavras ouviu-as ele com os olhos fitos na irmã e encostado ao poial de pedra.
Quem lhe ensinou essas idéias? perguntou ele.
Não são idéias, são sentimentos. Não se aprendem; trazem-se no coração. Senhor geômetra, continuou brandindo caprichosamente o chicote, — veja se transcreve em algum compêndio estas figuras de minha invenção, e ande cavalgar comigo.
Com um movimento rápido travou da cauda do vestido, e caminhou para diante. Estácio acompanhou-a, a passo lento, como solicitado por dois sentimentos diferentes: a afeição que o prendia à irmã, e a estranha impressão que ela lhe fazia sentir. Quando chegou à porta da cavalariça, viu aparelhados dois animais, o cavalo de seus passeios da manhã, e a égua que a tia cavalgava uma ou outra vez.
Que é isso? disse ele. Por ora vamos a algumas indicações somente, aqui no terreiro.
Justamente! respondeu a moça.
Um escravo, que ali estava, trouxe um tamborete. Estácio aproximou-se de Helena, que afagava com a mão alva e fina as crinas da égua.
Como se chama? perguntou ela.
Moema.
Moema! Ora espere... é um nome indígena, não é?
Estácio fez um sinal afirmativo. Helena tinha um pé sobre o tamborete; repetiu ainda o nome da égua, como quem refletia sobre ele, sem que o irmão percebesse que não era aquilo mais do que um disfarce. De repente, quando ele menos esperava, Helena deu um salto, e sentou-se no selim. A égua alteou o colo, como vaidosa do peso. Estácio olhou para a irmã, admirado da agilidade e correção do movimento, e sem saber ainda o que pensasse daquilo. Helena inclinou-se para ele.
Fui bem? perguntou sorrindo.
Não podia ir melhor; mas o que me admira...
As patas de Moema interromperam a reflexão do moço. A cavaleira brandira o chicotinho, e o animal saíra a trote largo pelo terreiro fora. Estácio, no primeiro momento, deu um passo e estendeu a mão como para tomar a rédea ao animal; mas a segurança da moça logo lhe deixou ver que ela não fazia ali os primeiros ensaios. Ficou parado, de longe, a admirar-lhe o garbo e a destreza. No fim de vinte passos, Helena torceu a rédea e regressou ao ponto donde saíra.
Que tal? disse ela logo que estacou. Terei jeito para a equitação?
Criança!
Que é isso? Já aprendeu? interveio D. Úrsula, do alto da varanda, onde acabava de chegar.
Estava caçoando conosco, disse Estácio. Vê como sabe montar?
Ela sabe tudo, murmurou D. Úrsula entre dentes.
Estácio montou no cavalo. Consultou o relógio; eram sete horas e meia.
Permite que o acompanhe? perguntou Helena.
Com uma condição, disse ele; é que há de ter juízo. Não quero temeridades; a égua é aparentemente mansa, convém não brincar com ela. Já vejo que você é capaz de muitas coisas mais..
Prometo ir pacificamente.
Helena cumprimentou a tia com um gesto gracioso, deu de rédea ao animal e seguiu ao lado do irmão. Transposto o portão, seguiram os dois para o lado de cima, a passo lento. O sol estava encoberto e a manhã fresca. Helena cavalgava perfeitamente; de quando em quando a égua, instigada por ela, adiantava-se alguns passos ao cavalo; Estácio repreendia a irmã, a seu pesar, porque ao mesmo tempo que temia alguma imprudência, gostava de lhe ver o airoso do busto e a firme serenidade com que ela conduzia o animal.
Não me dirá você, perguntou ele, por que motivo, sabendo montar, pedia-me ontem
lições?
A razão é clara, disse ela; foi uma simples travessura, um capricho... ou antes um cálculo.
Um cálculo?
Profundo, hediondo, diabólico, continuou a moça sorrindo. Eu queria passear algumas vezes a cavalo; não era possível sair só, e nesse caso...
Bastava pedir-me que a acompanhasse.
Não bastava. Havia um meio de lhe dar mais gosto em sair comigo; era fingir que não sabia montar. A idéia momentânea de sua superioridade neste assunto era bastante para lhe inspirar uma dedicação decidida...
Estácio sorriu do cálculo; logo depois ficou sério, e perguntou em tom seco:
Já lhe negamos algum prazer que desejasse? Helena estremeceu e ficou igualmente séria.
Não! murmurou; minha dívida não tem limites.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.