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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

LEOPOLDO – O seu procedimento não é de amigo, parece antes verdadeira traição.

POLIDORO – Em primeiro lugar, amigos amigos, negócios à parte; em segundo, qual de nós pode mais queixar-se do outro?

LEOPOLDO – Eu, que me apaixonei por dª. Violante logo que lhe fui apresentado, logo que a vi, logo, logo...

POLIDORO – E se eu lhe dissesse que por ela me apaixonei antes de tê-la visto?

LEOPOLDO – É inverossímil: eis a prova da sua deslealdade comigo.

POLIDORO – Sr. Leopoldo, estamos sós; deixemo-nos de histórias; não há deslealdade, nem amor pela velha em nenhum de nós, o que ambos queremos é pescar o meio milhão.

LEOPOLDO (Batendo no ombro de Polidoro) – Maganão! como é despachado! pois sejamos amigos; embora eu não seja ambicioso, como o senhor, achando-me namorado de dª. Violante, mas respeitando os seus cálculos, proponho-lhe que abandone o seu projeto de casamento, e se eu me casar com a velha dar-lhe-ei cinco por cento do que ela teve em legado.

POLIDORO – Aceite a mesma proposição, tal e qual.

LEOPOLDO – Mas então o senhor é um homem intransigível!...

POLIDORO – Faço-lhe a mesma observação, tal e qual.

LEOPOLDO – Deste modo nunca nos entenderemos.

POLIDORO – Parece.

LEOPOLDO (Batendo-lhe no ombro.) – Maganão! sejamos amigos eim?

transação aceitável; de nós dois o vencedor, o feliz, indenizará o outro com os tais cinco por cento, pagos oito dias depois do casamento com a velha; eim?

POLIDORO – Há perfeita igualdade nas condições; salvam-se as entradas, como se diz no empate do trinta e um. Convenho. Palavra de honra?

LEOPOLDO – Na praça só o escrito obriga; assinaremos um contrato bilateral feito em regra e capaz de aparecer... porque...

POLIDORO – Perfeita igualdade de condições: convenho.

LEOPOLDO – Estamos de acordo. Maganão! e como vai de esperanças? vejo bem que a velha está pendendo para o seu lado...

POLIDORO – Qual! arrepia-me quando lhe falo em amor; mas hei de teimar...

LEOPOLDO – Que diabo! então é uma fortaleza; comigo é dura e muda como um rochedo; o senhor já lhe propôs à casamento?

POLIDORO – Ora! que pergunta! e o senhor?

LEOPOLDO – Eu ainda não me animei.

POLIDORO – Tal e qual como eu!

LEOPOLDO – Maganão!... creio que é melhor irmos dançar... mas sempre amigos..

POLIDORO – Perfeita igualdade de condições: convenho. (Vão-se.)

CENA VIII

VIOLANTE e LAURIANO (Ouve-se o canto de uma senhora.)

VIOLANTE – Conhece aquela senhora que canta?...

LAURIANO – De nome e de pessoa; mas não tenho relações com a sua família.

VIOLANTE – Admira que a não felicite com a sua amizade; dizem-me que ela é disputada pelas mais escolhidas sociedades.

LAURIANO – Eu não freqüento as sociedades; por exceção vim aqui; sou muito pobre para subir até o mundo elegante, que custa muito caro.

VIOLANTE – Procure enriquecer depressa; o trabalho não basta para tanto; mas com o seu merecimento bem pode fazer casamento rico.

LAURIANO – As moças ricas não olham para mim... eu também não penso em amar inutilmente alguma delas...

VIOLANTE – Há casamentos de conveniência, em que uma senhora, ainda mesmo que não seja moça, pode enriquecer um mancebo, no seu caso.

LAURIANO – Na minha pobreza chegarei talvez a vender o meu relógio... que foi de meu pai; mas por certo que não venderei o meu coração.

VIOLANTE – Quem fala em venda de coração? não exagere o melindre. Por fim de contas figuro uma hipótese; sou velha e feia, não posso pretender nem pretendo ser amada; possuo porém avultada fortuna, e arreceio-me de parentes esbanjadores; se eu pois lhe dissesse: case comigo para aparar minha velhice com a sua amizade e com a sua paciência, como se fosse meu filho, e em troco da sua dedicação, do seu sacrifício, seja rico... brilhe... goze...

LAURIANO – Ainda bem que figurou uma hipótese, minha senhora, deixandome a liberdade de responder-não-sem a mágoa de ofender pessoalmente vossa excelência.

VIOLANTE – E se por fim de contas não fosse hipótese? se fosse deveras?...

LAURIANO – Ah! eu o sentiria profundamente...

VIOLANTE – Não se aflija por isso; o que o senhor... nobremente...repugna, há naquele salão mais de três que desejam e aspiram...

LAURIANO – Achará por certo mais de trinta, minha senhora; mas se eu fosse capaz de oferecer-lhe um conselho...

VIOLANTE – Aconselhar-me-ia...

LAURIANO – A desprezar miseráveis exploradores da fortuna alheia...

VIOLANTE – Que exaltação de conselheiro! por fim de contas explora-se de todos os modos, e eu lhe juro que por fim de contas a tia está resolvida a casar-se, e a sobrinha ficará sem a herança com que se calcula.

LAURIANO – Minha senhora.... julga-me com injustiça...

CENA IX

(continua...)

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