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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Pois então lá vai, disse Félix sem hesitar; é uma história muito verdadeira, e acontecida há pouco tempo: ia ontem para S. Cristovão no ônibus das cinco horas da tarde, quando chegamos à ponte do aterrado vimos vir um homem que, montado em um vivo cavalo, todavia acompanhava a custo uma jovem que cavalgava branco palafrém, boleado, ardido e fogoso; nem eu, nem nenhum dos que vinha no ônibus se importou mais com o cavaleiro que a seguia; os nossos olhos ficaram embebidos na jovem cavaleira.

— Isso é muito natural, disse Brás-mimoso.

— O vestido da moça era verde-escuro; nada mais engraçado que a sua cinturinha delicada, do que o justo corpinho do seu vestido, que desenhava as mais encantadoras e voluptuosas formas; trazia na cabeça um simples boné preto que, muito pequeno para esconder os seus cabelos, deixava cair uma imensa multidão de lindos anéis de madeixas negras, que voavam pelos ares na impetuosidade da carreira que trazia o cavalo! oh!... ela passou junto do ônibus!...

— E então?...

— Oh! minha tia, é cruel; mas, enfim, os anjos devem passar assim, rápidos e brilhantes como o relâmpago!...

— Portanto, não sabes se é bonita ou feia?...

— Sei, sei muito bem; nesse curto instante nós admiramos, desprendendo um leve chicotinho, uma pequena mão de querubim.

— Mas o rosto?... o rosto?...

— O rosto talvez seja pálido; mas a agitação lhe acendia o rubor nas faces... meigo sorriso estava deslizado em belos lábios cor de nácar... os seus olhos grandes... negros... ardentes... brilhavam como o sol no mais claro dia. Oh!... palavra de honra, minha tia, é o rosto mais bonito que tenho visto!

Rosa soltou uma gargalhada, e disse:

— Continue a sua história, meu primo, na verdade está muito bonita.

— Essa moça causou-nos, como era de esperar, a mais viva impressão, e um jovem poeta que ia conosco, exclamou: eis o tipo romântico! e em toda a viagem não falamos senão na moça romântica.

— E depois?...

— Voltando de S. Cristovão para a cidade, achei a notícia de que meu amo, o Sr. Hugo de Mendonça, havia chegado e partido logo para Niterói, onde tinha mandado alugar uma quinta. Fui imediatamente vê-lo, e quem o diria?... o homem que seguia a jovem cavaleira e de quem desviei os olhos, para só empregá-los nela, era meu amo!

— E a jovem cavaleira?...

— A jovem cavaleira é a filha dele, a quem não conheci, sem dúvida, pela grande rapidez com que passou junto do ônibus.

— Pois bem, e como a achou?...

— Desgraçadamente não a pude ver; estava descansando.

— Foi na verdade uma desgraça enorme!... disse Rosa.

— Certamente, acudiu Félix; mas foi uma desgraça da qual eu espero que minha tia tome o cuidado de vingar-me.

— Como?...

— Já que minha tia não se poupa a oferecer convites para o seu sarau a pessoas a quem não conhece, eu lhe rogo que me encarregue de levar uma carta ao Sr. Hugo de Mendonça, meu amo.

— Eu sei... mas...

— Não o deve fazer, minha mãe, disse Rosa.

— Oh, minha prima! não se perde assim uma moça bonita, quando se trata de um sarau.

— Temos muitas, e muitas bonitas!

— Sim, minha mãe!... há de convidar a moça romântica, quero dançar com ela.

— Eu entendo que deve produzir efeito, disse Brás-mimoso; sempre é uma novidade...

— Não ceda, minha mãe!...

— Ora... dir-se-ia que minha prima tem medo da concorrência.

— Com efeito!... meu primo está hoje insuportável...

— Por que, minha bela prima?... por falar na concorrência?... não, eu tenho a certeza de que minha prima não tem medo.

— Eu vou mostrar-lhe que não tenho medo!... minha mãe, mande convidar essa gente que veio do campo!

— Pois sim, convidar-se-á.

— Bravo, minha mãe!... gritou Manduca.

— Estou louco pelo sarau, disse Brás-mimoso.

Os dois primos estavam exasperados um contra o outro; Tomásia quis vê-los fazer as pazes.

— Vamos, meninos, parecem crianças! andem, preparem-se para dançar a primeira contradança.

— Não posso, minha mãe, disse Rosa.

— É impossível, minha tia, acudiu Félix.

— Oh! e por quê?...

— Porque quero dançar a primeira contradança com o Sr. Otávio.

— E eu fiz votos de dançar a primeira contradança com a moça romântica. — Que loucuras!... exclamou Tomásia.

IV

Honorina e Raquel

(continua...)

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