Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
No entanto, Águeda chegava, mas a sua entrevista com o namorado nunca se estendia além de um quarto de hora, nunca se passava livre da presença da escrava, nisso ao menos prudente.
O namorado de Águeda era o sacristão, sobrinho muito querido do Vigário da freguesia de S. José.
Mas Jacoba precauta a preparar defesa para si, ou fonte de astúcias para os seus protegidos amantes, andava a fingir-se assustada, dizendo a João Fusco e a Helena que havia lobisomem a correr de noite pelas vizinhanças.
A crença insensata nos lobisomens era muito comum então entre a gente rude; João Fusco deu a coisa por certa, e Helena chegou a assegurar que o lobisomem de que Jacoba falava devia necessariamente ser um meirinho que morava na Rua do Cano e que era muito amarelo.
Pelo medo que o lobisomem causava Jacoba se presumia de domínio mais seguro no quintal durante as noites.
Nem tudo, porém, havia de ir correndo á medida dos desejos da velha escrava que, ao amanhecer de um dia, achou morto no pé do portão o bravo Degola, que era tão amigo do sacristão. Debulhada em lágrimas correu ela a dar parte do caso, e João Fusco, tendo examinado o corpo do pobre animal e não encontrando nem ferimento, nem contusão, declarou o cão morto de peste e consolou a escrava, prometendo dar-lhe em breve um outro Degola, o que aliás era do seu interesse.
Quem sabia perfeitamente de que mal tinha morrido o Degola era Alexandre Cardoso.
O extravagante e dissoluto oficial da sala descobrira depois de algumas noites de espreita que o ama e suposto sedutor de Águeda era o sacristão e sobrinho do Vigário de S. José.
Alexandre Cardoso delineou então atrevido ou antes adoidado plano só explicável em quem muito contava com o respeito que impunha a sua posição oficial, além de confiar não menos na própria valentia.
Continuou a jogar na casa de João Fusco; mas às 11 horas da noite saía, indo encontrar-se no Largo da Carioca com um soldado do seu regimento, que ali o esperava.
Perdeu três noites assim; na quarta, porém, viu o embuçado, reconheceu o sacristão que dobrava da Rua da Cadeia para a dos Latoeiros.
- É aquele... murmurou.
O soldado avançou rápido e, chegando ao pé do embuçado, disse-lhe vivamente:
- Sr. Sacristão, o reverendíssimo Sr. Vigário o manda chamar já e já à igreja.
O sacristão atarantado por terem-no reconhecido, e não sabendo que pensar do que àquelas horas tinha de fazer na igreja, voltou apressadamente.
Alexandre Cardoso despediu o soldado, chegou-se ao portão da casa de João Fusco e bateu de leve três vezes.
O portão abriu-se, e ele que não se arreceava mais do Degola entrou imediatamente.
Jacoba trancou de novo o portão, e tão escura estava a noite, que ela não deu logo pela troca do namorado da menina.
Mas Alexandre Cardoso, sentindo-a tirar a chave do portão, e querendo ter saída livre, disse baixinho e disfarçando a voz:
- Dê-me a chave.
A negra recuou desconfiada, e perguntou:
- Você quem é?... fala!
Alexandre Cardoso, em vez de falar, avançou dois passos, e Jacoba recuou quatro, e um a avançar, e a outra a recuar chegaram, isto é, a negra meteu-se pela cozinha, e o tresloucado substituto do sacristão parou à porta, e à fraca luz de ruim candeia mostrou uma bolsa, sacudindo-a para assinalar que estava cheia de ouro.
Jacoba, verificando que não era o sacristão, soltou um grito, e, atirando-se para dentro da casa, começou a bradar:
- Tem lobisomem em casa!... lobisomem entrou!
Alexandre Cardoso sentiu alvoroço na sala de jogo, e não tendo retirada pelo quintal, perdida a cabeça, lançou-se além da cozinha pela sala de jantar, tomou por estreito corredor, e ao ouvir o ruído que faziam os jogadores, que acudiam aos gritos da negra, foi subindo uma escada que achou no fim do corredor sem saída...
Mas no tope da escada apareceram Helena e Águeda a bradar:
O lobisomem vem para o sótão!... o lobisomem está aqui!...
Alexandre Cardoso precipitou-se pela escada abaixo, tornou à sala de jantar, viu os jogadores que voltavam apressados do quintal, tomou por outro corredor, chegou à saleta do jogo, e enfim, orientado, saiu veloz pela porta ainda entreaberta da loja.
Estava livre do maior perigo; não querendo, porém, que o reconhecessem, e certo de ser perseguido, como de fato logo o foi, fugiu, correndo pela Rua da Vala, e aturdido pela vozeria dos jogadores já a segui-lo, ao chegar diante da extrema da Rua do Padre Homem da Costa, deu infeliz salto para vencer a vala, e caiu dentro dela.
Pior do que isso! João Fusco e os companheiros da banca aproximaram-se, e Alexandre Cardoso, furioso, sem medo, mas envergonhado do ridículo de sua situação, e para escapar à publicidade do seu escandaloso procedimento, abismou-se até o pescoço na vala nauseabunda e mal cheirosa.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.